sábado, 29 de novembro de 2008

↕ Quando as estrelas começarem a cair

O céu cor de rosa e o sol se pondo eram indícios de que a noite ameaçava chegar. O velocímetro marcava 120km/h. No porta malas haviam lamúrias, sonhos e medos; guardados nas malas de mão daqueles que ocupavam os bancos empoeirados do opala 68 de capô branco e laterais pretas. Resolveram, enfim, ir embora. Um lamuriando o que não fez; Outra o que não pode fazer; E outra por não saber o que fazer; Algumas lágrimas rolaram e se perderam nos buracos da BR. Alguns conselhos tortos e piadas sem graça foram ditas. Horas depois eles perceberam o quanto estão à frente da mesquinhez e do preconceito nojento que paira nas latrinas da cidadezinha conservadora que deixaram quilômetros atrás. Acharam que haviam enlouquecido ou cegado; mas não, são os poucos que ainda enxergam. As horas passaram e eles pegaram a estrada de novo. O carro é estacionado para que nessa hora eles pudessem ouvir o canto da sereia. Mas a sereia era muda. O céu que estava lindo começou a assistir suas estrelas partindo; ia amanhecer. Amanheceu. Ninguém viu. Temeram a profecia que prega sobre a noite em que estrelas começarão a cair. “Quando as estrelas começarem a cair me diz, me diz, pra onde a gente vai fugir?” Todos em coro entraram num consenso, "Vamos voltar pra casa".

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

↕ À luz de velas

– Meu bem, o processo consiste em te deixar irritada.

– É.

– Não faça isso.

– Isso o quê?

– Isso de falar “é” enquanto aperta as sobrancelhas e faz bico.

– Por que?

– Porque isso você faz quando está irritada. Isso não é pra você se irritar. Você tem que entender que eu tenho esperança em você, por isso faço o que faço.

– Esperança?Spalding? hahaha

– Não, tonga. Nada de black powers, por favor. Esperança com ç. Tenho esperança em você porque eu quero que você seja uma mulher fodona um dia.

– Me deixa irritada porque quer que eu seja fodona um dia?

– Poucas pessoas te colocam a prova como eu, eu sei – você gosta disso. Eu quero que você evolua, e que os jornalistas da capital venham pra cá te entrevistar um dia.

– Você é apaixonado por mim.

– Não. Na verdade você quer que eu seja. Isso porque você já está apaixonada por mim.

– Há-há-há

– É sim, não solte essa gargalhada nem faça essa cara de cínica. Nem bico.

– Cale a boca.

– Você só fala “Cale a boca”, quando sabe que eu tenho razão e por não ter argumentos para contestar.

– Pára.

– Admita vai. Se você admitir eu juro que retribuo os seus sentimentos. Mas farei isso só porque é meu hobbie.

– Seu hobbie é me irritar.

– Mas primeiro você tem que parar de usar roupas ripongas, de andar descabelada, de valar feito velha, de ouvir Bossa Nova e de ler romances passados em Minas Gerais.

– Chega.

– Não se irrite meu bem, prefiro você sorrindo. Te deixo ouvir Beethoven, mas me farei de surdo nessas ocasiões.

– Por que você não se faz de mudo e não cala a boca?

– Se você continuar assim, você vai morrer velha e solteira. Ou pior, pode morrer num acidente qualquer.

– Se for pra morrer em algum acidente, que seja ao menos ouvindo música boa.

– Concordo. Fui eu quem lhe disse isso um dia.

– É.

– É, de novo?

– É.

– Você é louca; Mas tira fotos legais e faz um bom café.

– É.

– E me ama!

– É.

– É?

– Cala a boca!

– Meu Deus, se todas as mulheres forem como você, no meu enterro vai ter uma porção de garotas atormentadas.

domingo, 23 de novembro de 2008

↕ Deu por mim

Certa noite deu por mim um andarilho errante, que com um discurso pedante, com uma respiração arquejante, de mãos calejadas e face pálida, pregou de graça um sermão maçante em forma de oração; excruciante.



“Não temo a morte. Não tenho medo de polícia nem do rabudo. Não temo nada! Prefiro dormir em cemitérios. Muito embora eu não seja pomposo e qualquer obra em construção seja capaz de me aconchegar. Mas ainda assim prefiro deitar minha cabeça em epitáfios. Tenho essa preferência desde guri. Depois do dia em que as covas passaram a guardar minha santa mãezinha tenho ido dormir quase toda a noite ao lado do seu leito. É bem verdade que de santa ela nunca teve nada e que só a canonizei depois que a pobre já estava gélida e morta – tome nota que santo só vira santo se fizer milagre depois de morto!

Mas não se engane pensando que eu sempre fui sozinho no mundo. Depois da minha mãe tive mais duas mulheres. Houve um tempo onde um par de braços morenos, daquela que há muito amei, me acalentavam e me protegiam junto aos seus seios voluptuosos, nos quais eu sugava seu doce suor feito um recém nascido. Deitava minha cabeça junto ao seu peito e entrava num estado de letargia. Foi assim durante muitas noites. Mas esse tempo passou e virou passado. Hoje a morena, assim como a minha santa mãezinha, descansa em uma cova fria qualquer.

Então encontrei outra mulher. Aconteceu que numa noite como esta, enquanto eu andava torto com um litro de pinga em uma mão e um cigarro de paieiro na outra, avistei dentro de um cesto de lixo algo que refletia a cor azul. Cheguei perto e vi a minha santinha – não refiro-me a minha mãe desta vez. O azul era do seu manto de gesso. Suas mãos eram negras e suas vestes brancas. A escultura estaria em perfeito estado, se não fosse por um mísero detalhe: não tinha cabeça. Vasculhei até o fundo do lixo; lembro que quebrei algumas garrafas na afobação de encontrar a tal cabeça, mas foi em vão. Mesmo defeituosa acolhi a santa, pois veja bem: se as demais imagens santificadas nada dizem, esta, por não ter a cabeça que é o membro que acolhe a face e posteriormente a boca que é a encarregada da fala, então a ela dou um desconto! Me convenço, então, que ela não responde não porque “não quer”, mas porque “não pode”.

Então desde aquela noite eu e minha santinha seguimos pela estrada juntos; ela muda e eu descalço. Mas não se encabule, nem arregale esse lindo par de olhos para mim. Não tente adivinhar e buscar adjetivos na tentativa de saber quem eu sou. Entre ser ou não ser, prefiro ser os dois! Mas assim como eu, você nasceu de pés descalços; a diferença é que descalço eu continuo. Mas seja como for, pra que tanta pergunta? Eu que pouco sei ler e escrever conheço muito do tempo e da vida. Eu sei que a estrada que queima a sola dos meus pés e tanto me leva, é a mesma pela qual você caminha. Essa estrada me leva para o mesmo lugar que você há de ir. Pra que tanta pergunta se os meus pés descalços e os seus com sapatos de veludo vão de encontro com os mesmos vermes “na frialdade inorgânica da terra?”. É por isso que eu não temo a morte e prefiro dormir em cemitérios.

Agora, você tem um cigarro aí moça?”

"Máscaras ao meu redor
Eu já não sei o que é víscera ou fumaça

Véus negros que cegam aqueles que enxergam
São anjos sem asas, nem santidade"

domingo, 16 de novembro de 2008

↕ Eu quebrei os meus joelhos



Eu quebrei os meus joelhos,
Pra não poder
Mais rezar
Pra você

Eu quebrei os meus joelhos
Por não querer
Mais chorar
Por você



Meu querido, sei que há tempos não lhe escrevo, entretanto não se iluda; nem pense que eu sinto sua falta. O que o senhor deveria ter feito já fez; que era me ensinar como enterrar meus mortos. Aliás, obrigada! Não espere mais de mim do que esse singelo balbucio de “obrigada”. Fique com suas flores e suas velas e esqueça as minhas preces. Ah sim, ia me esquecendo, estou lhe trazendo hoje um santo de madeira, que a mim de nada serve já que nada diz.
Enfim, desta vez o motivo pelo qual lhe escrevo depois de tantos anos não é em celebração ao dia dos pais ou alguma outra data comemorativa tola. Então não espere desenhos ou poemas infantis. A questão é que, finalmente, encontrei uma maneira de fazer com que o senhor realmente suma. Pois concorde comigo, já que o senhor foi embora por que não desaparece? Sabe, chega doer quando ela olha pra mim procurando o senhor. Estremeço quando encontro em mim traços dessa foto oval que te identifica entre tantos outros.
Sendo assim, vou dar cabo de mim mesma para que finalmente o senhor suma. Viva! Por isso estou lhe escrevendo com um pouco de antecedência, como é de bom tom. Então arrume a casa e separe um bom vinho, em breve vamos poder sentar e conversar. E se prepare, pois eu não sei se o senhor sabe, mas eu quando começo a tagarelar, valha-me Deus, não paro mais. Mas não pense que eu sinto falta disso; estou falando isso por puro interesse, já que vou ter que passar uns dias em sua casa, até me instalar em uma só para mim. Por isso preciso ser educada, você em pouco tempo me ensinou bem isso.
Ah, uma última coisa: esteja bem bonito. Vista aquele terno azul marinho que o senhor foi sepultado e use aquele perfume adocicado. Não lembro o nome, só sei que era aquele verdinho sabe. Não é que eu queira te ver assim elegante, pra mim tanto faz. Mas é que essa é a forma que eu lembro do senhor, então é melhor que assim esteja para que eu não cometa a falha de lhe confundir com outrem. E se possível, mas só se possível, ao me ver diga: minha princesinha. Não lembro da sua voz direito, então isso vai ser bom.
Vale a pena lembrar que eu mudei um bocado. Não venha querer me pegar no colo como era de costume, tanto porque acredito que o senhor não agüentaria. Lembre que não sou mais uma menininha e que agora tenho seios – um belo par de seios diga-se de passagem! Troquei todos os dentes de leite; Caí uns tombos, ganhei algumas cicatrizes, alguns aplausos; e li uns tantos livros e escrevi muitas coisas nesses anos todos que aposto que o senhor nem faça idéia que existam. Ah sim, ainda tenho seu vinil do Nazareth, levarei para ouvirmos juntos.
Bom, por hora é isso. Em breve estarei chegando. Tenho tantas coisas pra perguntar. Prepare-se.

Atenciosamente,
Jozieli Wolff

↕Facínoras

A noite não tem lua e as ruas estão quase vazias, mas ainda há poucos boêmios andando desequilibrados pelas calsadas, lamuriando entre os becos desafinadas modinhas e tocando seus violões. Nota-se que o vinho desconsertou seus passos largos, mas é o vento forte que faz dos boêmios e de seus violões pares que dançam uma desajeitada valsa, na rua que se transformou num salão a céu aberto. Uns não agüentam o peso das pernas capengas e caem, fazendo do chão gélido seu leito. Ao longe é possível ouvir um cachorro que uiva. É um uivo abafado, o cão parece chorar.
Ali perto dentro de um bar qualquer uma vitrola velha está tocando Ray Charles. A iluminação do lugar tem um tom de sépia. Um cheiro adocicado de perfume barato se mistura ao odor de bebida e suor. Cigarros deslizam entre dedos indicadores e médios. A fumaça deixa o local com um ar denso e dificulta a visão. Mas mesmo assim é possível enxergar aqueles quatro rostos pálidos.
Quatro mulheres estão há horas dividindo uma mesa, bebendo e divagando sobre a vida – ou sobre como tirá-la. Pois, convenhamos, fora o confessionário da matriz e o divã de um bom psiquiatra, que outro lugar é o mais adequado para contar pecados e chorar mágoas do que uma mesa de bar?
Essas mulheres não têm nome. Por hora vamos chamá-las de Facínoras. Nas próximas linhas, caro leitor, você saberá o porquê de tal adjetivo.
Sobre o balcão há uma garçonete debruçada. Intrigada, ela tenta ouvir os murmúrios vindos da mesa das quatro mulheres. Mas é em vão. Ela poderia se aproximar da mesa, mas acha que conhece uma das Facínoras; e teme por isso.
Há pouco elas começaram exceder a voz e as palavras ficaram mais claras. A garçonete que está quase cochilando, agora tem um breve sobressalto e desperta, quando começa a ouvir o seguinte:

– David era o meu marido, tinha mania em arrotar. Sentia prazer fazendo aquilo. Cheguei um dia em casa irritada, no meio de uma crise de TPM, precisando de alguém para conversar e ele lá deitado no sofá assistindo futebol, tomando cerveja e arrotando. Ai eu disse: “David, por favor, pare de arrotar...”. E ele fez mais uma vez. Ai não teve jeito, peguei o 38 que ficava escondido na gaveta da cozinha, fui lá e dei dois tiros de alerta nos miolos dele.
– Eu conheci James há três anos num show. Disse pra mim que era solteiro. Transamos, nos apaixonamos, namoramos, casamos, nessa ordem. Até que descobri que de solteiro ele não tinha nada. Não só era casado, como tinha mais 6 esposas. Ai certa noite, ele descobriu que cerveja com arsênico não combinam.
– Já comigo foi diferente. Certa noite eu estava lá preparando o jantar, quando o Eduardo entrou pela cozinha agindo como um louco, gritando: “Sua vagabunda você anda tendo um caso com o vizinho?” Ele gritava e repetia sem parar. “Vagabunda, vagabunda”. Foi quando que, sem querer, ele caiu com o olho esquerdo em cima da minha faca. Caiu em cima dela 20 vezes.
– Ah, eu amava o Fred. Ele era um artista, um guitarrista. Só que ele me dizia que precisava sair toda noite pra “se encontrar”. Pra se encontrar com a Juliane, com a Indianara, com a Jozieli... Mas apesar disso não fui eu quem o matou. Provavelmente foi uma foi uma das amantes dele. Não sei qual, mas quando eu descobrir...
A garçonete que nesse instante serve a mesa, treme. E sem perceber solta o que estava guardando, “Fui eu quem o matou”.


Agora é possível ouvir o uivo do cão outra vez junto com versos desafinados de alguns bêbados que parecem o imitar, fazendo na rua um concerto; Dá para se ouvir também vindo de dentro de um bar qualquer alguns berros de mulheres e copos quebrando. Mas não se assuste pessoa, amanhã cada uma ajuntará seus cacos e irá para casa. Amanhã “chegarão em suas respectivas casas totalmente descabeladas. Se depararão com a moradia vazia e tomarão o resto de cachaça amanhecida que ficou em cima da mesa. Em seguida, fumarão igual Marias Fumaças, sem nem lembrarem mais do que aconteceu na noite anterior”.
Mas guarde segredo sobre o que acabo de lhe contar, digníssimo leitor. Não as denunciem nem as condenem, por favor. A verdade – e tome nota que verdades não são ditas com freqüência, pois sabe-se que ouvi-las não faz muito bem – é que amores entulham as covas dos cemitérios, pois são constantes entre os mortos que temos que enterrar. Afinal, que pessoa nunca assassinou um amor para continuar viva?


Facínoras:


quarta-feira, 17 de setembro de 2008

↕ Maio

Eu quero lembrar da última vez em que senti um beijo com júbilo, sem sentir na boca o gosto da piedade. Lembrar da brisa e do sol morno sobre mim. Lembrar da vela que flamejou a sua última chama até apagar. Lembrar do ramo de orquídeas que murchou até secar. Então o júbilo vem súbito, mas se arma lento. Eu estou aqui inerte esperando o tempo passar, enquanto ouço a minha respiração. No céu, uma nuvem se divide e se faz duas. Dois rostos que se encontraram, se beijaram e se deixaram. Em seguida, do mesmo céu caem finas gotas de chuva – afinal, lágrimas são inevitáveis. Agora fecho os meus olhos e vejo diante de mim peça por peça, um segundo a mais, um segundo a menos. Há também algumas vozes dispersas, e o som dos ponteiros marchando no pulso de alguém bem próximo. Agora o relógio parece cessar. Ah, quem dera se o relógio parado pudesse fazer o tempo parar! Mas este não pára, tampouco volta atrás. O tempo te olha, ri e continua a correr devagar. E enquanto o tempo corre e gargalha diante de mim, eu continuo aqui tentando lembrar, mas já esqueci.

sábado, 30 de agosto de 2008

↕ Carta Póstuma

O quanto tudo mudou. A casa antes agitada se tornou escura, habitada por móveis empoeirados. O quintal há tempos deixou de ser cuidado e as árvores nele estão velhas, secas e sem vida. Inevitavelmente, me vejo igual a este quintal. O amarelo da fachada da casa deu lugar a cor alguma. Nossos livros enfeitam a estante junto aos nossos vinis; objetos cheios de lembrança, que desde que você partiu, não saem do lugar. A verdade é que muita coisa foi esquecida. Mas quando revisito nossas fotografias, reafirmo que a nossa história permanece inteira na minha memória. E se eu fechar os olhos consigo te ver como no primeiro dia, na primeira vez; e lembrar de cada momento. Nos últimos anos, suas mãos estavam tão cansadas, seu rosto flácido e os cabelos perderam a cor. Porém, você continuava linda. Quando fecho os olhos a noite, esperando que a morte venha me buscar, sinto um leve peso sobre mim. Nesses instantes tenho a impressão de que você está ali, dormindo em meu peito. Sabe, queria poder voltar no tempo, quando eu, com zelo, ainda podia lhe proteger. E então eu balbucio baixinho: volta pra casa. Mas você não vem. E agora a casa está vazia, mas o teu cheiro continua aqui.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

↕ O pecado

Ele foi um sonhador. Uso termos no passado, não somente pelo fato da foto que tenho em mãos ser antiga, mas por ele já ter morrido. Estarei pecando por falar sobre alguém que não pode fazer uma réplica? Pecado para mim, é morrer antes de realizar seus sonhos então pecador aqui, somente o falecido.
Ele sonhava, e como sonhava. Talvez no exato momento da foto estivesse pensando algo do tipo, "Ah, serei um grande jogador de futebol" – o que é comum em garotos de 10, 11 anos. A maioria não se torna um. E no lugar aonde a hipocrisia leva flores nos funerais, e o pecado é o protagonista do espetáculo chamado “vida”, a maioria das pessoas morre antes de conquistar seus sonhos, é fato. Outros tantos porém, vacilam a vida toda, e antes de se tornarem adubo, há muito tempo já estão mortos pois não se dão ao luxo de sonhar.
Ele cresceu, e antes que a morte o buscasse vieram outros sonhos. Foi inevitável, ele cometeu o pecado de se deixar apaixonar pela moça que conheceu no cemitério, no enterro do seu pai. Ela morava numa casa cujo muro fazia divisa com o cemitério. Foi num dia de setembro que ela ouviu um choro abafado, e com dificuldade empilhou uns caixotes e na ponta dos dedos do pé conseguiu presenciar a dor alheia. Ele estava lá, debruçado sobre um túmulo azul, conversando com alguém que já não podia responder.
Um café. Foi o que ela ofereceu a ele. Um tempo depois, casaram-se e uma filha tiveram. Ele construiu um castelo, e nele colocou a sua rainha e a sua princesinha. Princesa, era assim que ele a chamava. Para ela, ele queria dar o mundo, mas do mundo ele foi tirado.
E num dia de dezembro, foi justo pela sua princesinha que ele chamou, e pediu enquanto agonizava: "cuidem dela pra mim". Talvez pelo fato de pensar nela enquanto a morte o carregava no colo, ele tenha se deixado levar. Talvez se distraiu, e por isso "se deixou" partir. Talvez a culpa seja dela. Talvez esse tenha sido o seu pior pecado.
Dela, alguém cuidou. Para ela, o mundo não foi dado. Para ela restaram somente as fotos desbotadas e seus discos do Nazareth. As fotos não permitem que ele se perca na sua memória, e se torne mais uma das tantas coisas que ela já esqueceu. As músicas o trazem para perto.
E então como uma herança, ela passou a praticar o pecado. Peca por não admitir que sente na boca o gosto azedo da saudade. Peca toda vez que anda na rua, e começa a mirar rostos estranhos na tentativa de desenhar como ele seria hoje. Peca por tentar adivinhar quais eram os seus sonhos, e por nunca ter perguntado quais eram, enquanto ele ainda estava aqui. Peca por sonhar.
Ela sonha, e como sonha. Ela sabe que o tempo é curto. Ela teme deixar que o tempo passe. Teme virar apenas lembrança, de uma fotografia desbotada esquecida no fundo de uma gaveta qualquer. Teme amar tanto uma pessoa, a ponto de se distrair e partir antes de conquistar seus sonhos. Teme ser mais uma pecadora. Teme pecar. Mas continua pecando.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Ela está ali. Vento no rosto, os braços abertos como quem espera um abraço. No mesmo compasso que abraça o vazio, ela olha para cima, para o céu. Fica assim o tempo todo. Às vezes chove, às vezes o sol se faz rei, e tudo faz. Às vezes a chuva lhe pesa nos ombros e a faz capengar. Às vezes os raios de sol são tão intensos, que ela vai secando com o estio, e qualquer vento a dispersa, como agora. Hoje, certamente ela é um grão de areia. Mas agora ela é eterna.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

↕ As três semanas da Dona Maria

Nota: A insensibilidade e a facilidade notória de fazer fofoca existente nos homens, foram enfatizadas, salientadas, frisadas, ressaltadas, destacadas e escancaradas, no diálogo a seguir:



J – Boicotaram nosso café!

K– Sim, bem hoje que tem chá de abacaxi.

L – É que a Dona Maria não veio trabalhar hoje.

J – Não sei. Só sei que boicotaram nosso café!

K– Ah, é. Por que será?

L – Ela não anda muito bem. É que o marido largou dela.

J – Puta merda, sério?

K – Coitada!

L – Sim. É que ele arrumou outra.

J – Coitada.

K – Sério?

L – Sim. Na verdade o marido dela é um vagabundo. Não trabalhava não fazia nada. A Dona Maria dava tudo pra ele, dava tudo pra ele!! (sim, essa afirmação foi repetida duas vezes, como está descrita aqui). Ela trabalhava o dia todo, enquanto ele ficava sozinho em casa. Nesse espaço de tempo, ele arrumou outra. Ele levava a outra pra dentro de casa, e ainda cometia orgias com ela na cama da Dona Maria.

J – Mas isso é nornal gente. Eu não me espanto.

K – Eu quando acabei o meu namoro, fiquei um mês de luto.

L – Calma, depois vocês choram as mágoas de vocês. Eu ainda não acabei! O pior vocês não sabem: ele ainda disse pra ela que ela era uma vagabunda, e que não fazia nada em casa!

J – Tá, mas como você sabe de tudo isso?

K – É, como você sabe de tudo isso?

L – Ah, contaram pro Japonês, e o Japonês me contou ...

J – (risos)

K – (risos)

L – Ah gente, mas ele largou dela já faz tempo.

J – Ah, e ela passa mal agora! E o nosso café? Tá, mas faz quanto tempo?

K – É, faz quanto tempo?

L – Ah, faz tempo. Umas três semanas.



J – E a estória continuaria, mas os meus risos abafados me causam um certo desconforto, e me impedem de prosseguir. Então pararei por aqui.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

↕ Clarice

Não me olhe assim. Ao olhar nos olhos de alguém, podemos deixar o outro vulnerável, pois entramos em contato com o que há de mais frágil e fétido em uma pessoa: a sua alma. Muito embora ela devesse temer os momentos que estavam por vir, ela não o fez. Como prestes a gozar, ela se deixou olhar no fundo dos seus olhos. Entretanto, nada que já não fosse de conhecimento público foi descoberto. Ao olhar em seus olhos ela viu refletido no espelho, o quanto é covarde.
Então na tentativa de fugir de si mesma, sai da frente do espelho emoldurado na parede verde da sala. Passou quase uma hora ali, parada, mirando-se. Mas a resposta não veio. Tentava responder a pergunta que chegou há pouco com um buquê de flores vermelhas. Talvez a resposta venha com uma xícara de café.
Sete horas em ponto. Um rapaz de uniforme azul aconchega levemente um buquê de rosas vermelhas entre seus braços. E antes que os espirros viessem à tona, ela lê no cartão a seguinte pergunta, “Por que você fuma?” O dono do garrancho ainda reforçou a sua intenção de censura, só que agora com uma afirmação, “Você sabe que isso mata.”
É incrível a avareza humana. Constantemente fazemos coisas que nos matam, sem nos darmos conta de tal façanha. O mal caminha de mãos dadas com qualquer pessoa, é fato. Se não fazemos mal a nós mesmos, então fazemos aos outros. Ela, pra não fazer mal aos outros, faz a si mesma. Na verdade, acredito que ela não seja capaz de fazer mal a ninguém, pois tampouco é capaz de fazer algum tipo de bem. Então reverte toda causa e efeito, para si.
Poucos sabem, mas a família de qual viera tinha uma crença de que, “A mulher ao dar a luz tem a saúde revigorada”. Deve ser coisa de quem acredita em Deus. Sua mãe, que sofria dos nervos desde o nascimento da segunda filha, piorava a cada dia. Então, enquanto se formava no ventre daquela a qual intitulavam “louca”, o peso de devolver o discernimento e a lucidez àquela mulher – e a função de lhe tapar os olhos e os ouvidos para que deixasse de ver e ouvir o que ninguém mais via ou ouvia – a ela foi dado de presente. Lhe aconchegaram a tal missão no colo, da mesma forma em que aconteceu minutos atrás, quando recebeu as tais flores.
Entretanto, tal esmero foi em vão – como todas as coisas que cabem a ela, o resultado é sempre em vão. Aconteceu que ao nascer, a mãe não quis a ver. Temia, gritava, toda vez que aproximavam a menina dela. Bom, isso ela não sabe, pois ainda era muito nova quando tal espetáculo acontecia. Por fim, sete anos após a cura ter nascido, a enferma morre. Ela foi perdoada pela família, mas nunca se perdoou.
Sendo assim, por não ter conseguido salvar a vida da progenitora, toma nota e decide dar cabo da sua. Foi esse o pensamento que acabou de ter, enquanto com certo blasé, em silêncio prepara seu café. E no primeiro gole, descobre que peca, “Peco por gostar do gosto azedo da solidão.” Afinal, o vazio do silêncio sempre esteve ao seu lado. Enfim, conclui que o que comete consigo é um suicídio, em parcelas. “Melhor do que se jogar da janela.”
Sente que vai voltar a espirrar, então lembra das flores. Agora, enquanto segura a dúzia de rosas vermelhas, descobre que o que faz a cada dia é dar um passo em direção ao beijo da morte, e que nunca foi, nem nunca será mulher de flores, “É nunca serei mulher para ganhar flores, preferia um maço de cigarros, deles não tenho alergia. Não as quero nem no meu funeral. Velas e flores quando juntas formam um odor nada agradável."
Finalmente jogou as flores no lixo. Em seguida, pegou um vinil da Janis, e fez com que na vitrola velha A Woman Left Lonely começasse a ser cantada. Acendeu um cigarro, e terminou de tomar o café, que agora estava frio.





A woman left lonely will soon grow tired of waiting,
Boomp3.com










domingo, 17 de agosto de 2008

↕ Blackbird, fly

A língua secreta dos pássaros é um dialeto falado por poucos. Sorte de quem o fala. Sorte de quem o entende. Sorte tenho eu, por ter você pra me ouvir e fazer companhia: o silêncio.


domingo, 27 de julho de 2008

↕ Se o amor tivesse um cheiro, qual seria?

Um lápis preto tem a ponta afinada. A folha sobre a mesa, continua lá, em branco. Agora, algumas dezenas de círculos sem nexo são feitos sobre ela. Porém, nenhum garrancho torto capaz de responder qual seria o tal odor do amor, é formado. Talvez a folha continue nua porque não se pode escrever sobre o que desconhece.

Embora a solidão seja algo divino, e eu prefira a suave melodia do silêncio como companhia, nesse momento de total solidão eu vegeto. Suporto qualquer ausência, menos a dela. Em momentos como esse em que a inspiração me deixa, eu morro. Hoje eu estou morta. Minhas mortes podem perdurar dias, semanas, meses. São períodos de tortura, em que os papeis continuam em branco e o simples fato de se olhar no espelho causa asco. É quando a vida se torna oca, e eu me canso de viver, então padeço. Hoje estou cansada, não triste. Cansada e vegetando, sem achar a tal resposta.

Da janela vejo você na cafeteria da esquina. Cabisbaixo, mirando o que eu acredito ser uma xícara de café. Então, no mesmo compasso em que lembro de que estou atrasada, lembrei da vez em que me viu nua, e das vezes em que pude sentir o cheiro do amor. Agora de olhos fechados posso sentir. É um odor enjoativo, uma mistura de mentiras e mel. Sim, você me ensinou há muito tempo que o amor é composto por áridas mentiras, e é adocicado pelo mel. Mentiras e mel quando juntos formam algo comparado com o caos. Amor é caos. O amor tem cheiro de caos! Sendo assim, o amor tem o teu cheiro. O cheiro daquele homem ali, de terno azul, com os braços cruzados e sem dinheiro.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

↕ Flores, vísceras e cinzas

Flores
Você está ai. Os mesmos olhos que ontem me fitavam e condenavam, agora estão selados. O rosto antes levemente corado, agora é tomado por uma enorme palidez. A boca agora gélida e imóvel, nem de longe parece ser a mesma que ao fechar os olhos consigo sentir quão ardente era quando encontrava os meus lábios. Sua mão pequena, agora se faz entrelaçada sobre o seu ventre, enrijecida e fria.
Lembro da primeira vez em que toquei no seu rosto. Da primeira vez que a beijei ao som de uma música qualquer. Da primeira vez que me deixou guiá-la pela mão. Mas mesmo aqui, parado diante de ti nesse caixão, continuo com a mesma sensação e crédulo de que somente o teu peito junto ao meu, é capaz de criar um calor que facilmente acabaria com o vazio que carrego comigo agora, e o frio que sinto ao tocá-la. Lembro de tanta coisa querida. Só não lembro de ter dito que a amava. Desculpe se sempre fui tolo. Mas hoje lhe digo: “Eu amo você”.

Vísceras
A gente passa a vida inteira acuado pelo medo, quer ver?
A gente só faz reclamar, com medo de se acomodar. A gente ouve música doída enquanto chora mágoas, com medo de gargalhar. A gente não pisa na terra descalço, com medo de se sujar. A gente não sente a chuva tocando nosso corpo – como um homem nos guiando por algum salão ao som de um jazz qualquer – com medo de ser intitulado “anormal”. A gente não sente o vento, com medo do frio. A gente não tenta, com medo de conseguir. A gente não grita, com medo de gostar e repetir a dose. A gente anda na rua sem olhar pros lados, com medo de ser desmascarado. A gente não sabe amar – não sabe amar a família, os amigos, o cachorro. A gente causa mal a nós mesmos, com medo de causar aos outros. A gente passa a vida com cautela, com medo de se arriscar no abismo. E por fim, a gente deixa pra sentir o quanto ama alguém somente quando a pessoa vai embora, por medo de se declarar e ouvir um “eu também te amo”.

Cinzas
Hoje eu sou um amontoado de medos, vísceras, cinzas e flores. Tirando as cinzas e as flores com aroma enjoativo, você é igual a mim. Quanto a você querido, esse seu “eu te amo”, muito embora perto, ecoa longe. E digo mais, se fosse pra dizer que me ama no meu funeral, continuasse calado, seria melhor. Mas pegue um punhado de mim agora, coloque naquele seu cinzeiro colorido, e misture as minhas cinzas com as do seu cigarro. Assim, continuarei na sala, recebendo seus convidados, enquanto o seu amor e o seu luto perdurarem – o que será por poucos dias.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

↕ A luva sem par

Faz frio, e é um frio que não congela só os ossos, mas também o espírito. E enquanto a cidade dorme você está aí, usando apenas uma luva. E me pergunta – como num mantra sussurrado infinitas vezes no cálido lóbulo da minha orelha – o seguinte: “Dentro de uma frase feita, diga quem sou eu? Alguma coisa cujo a vida foi feita por um emaranhado de frases feitas?” Todos continuam a dormir e você ainda está aí, dentro de um silêncio que acalma e acalenta. Como é gostoso esse silêncio. Um silêncio que não é facilmente quebrado pelas tais frases feitas. Frases feitas possuem o sutil e refinado dom de quebrar o, até então, inquebrável. Esse é um silêncio de mãos dadas com um tênue odor de café e cigarro. Café e cigarro só perdem o posto de “par perfeito”, para o seu par de luvas caramelo – que deixou de ser um par. E me pergunta qual foi a última vez que deu a mão a alguém. Qual foi a última vez que você deixou algo abraçar as suas mãos? Eu lhe respondo: certamente foi um dia antes de você perder uma das suas luvas caramelo. Repare, um que era feito de dois, nunca mais é o mesmo quando sozinho. A quietude é quebrada pelo som que o cigarro emite enquanto queima. As faíscas e cinzas do cigarro embalam a valsa que a lua insiste em não dançar. Talvez porque não tenha par. A lua nunca teve par. Por relapso, você desfez o lindo casal que eram as suas luvas caramelo. Certamente a deixou em algum bar. O café acaba, o cigarro apaga, você ainda não. Você não é feito de faíscas, tampouco de cinzas. Deixemos isso para o cigarro que se desfaz entre os seus longos e finos dedos. E ao fechar os olhos, gargalha por se ver como um caminhante noturno, que embora estático, está indo embora. E em marcha, se distancia cada vez mais das enojadas frases feitas. E enquanto todos sonham, você acorda. E sonha quando acordado. Nesse instante, que antecede o prelúdio do nascer do sol, você se dá conta que é alguma coisa. Alguma coisa sem frases feitas, sem cinzas, nem faíscas. E enquanto sua vida não acabar nem apagar, você continuará ali. E no mesmo compasso em que o frio lhe abraça e acaricia, eu lhe digo meu amigo: “você é alguma coisa, que não precisa de coisa alguma”. Entretanto, trate de comprar um novo par de luvas. Suas mãos estão tão frias, e vazias. Mas por favor, mude de cor, nunca gostei de caramelo!

terça-feira, 8 de julho de 2008

↕ As bromélias de Dolores

Na casa verde da esquina mora uma cartomante viciada. Maria é seu nome. Um jovem cafona vê uma moça bonita morrer em seus minguados braços. A moça bonita tem como a última visão de sua curta vida, o óculos fundo de garrafa do jovem cafona. Alguém ouve Free Bird às sete horas de uma manhã de outono. Por fim, bromélias são cultivadas no túmulo 1912.

A vizinhança dorme. Não porque seja tarde ou demasiadamente cedo, mas em dias chuvosos a quietude e a alienação da pacata cidadezinha se tornam mais evidentes.
Dolores depois de muito divagar, guardou uns trocados e decidiu visitar Maria. Saiu de casa logo que o sol se pôs, andando de mancinho, com receio de que o assoalho velho e extirpado estralasse e acordasse os avós.
Já fora de casa, o ar era leve, típico das manhãs chuvosas de outono. Segurava na mão esquerda um guarda-chuva vermelho, enquanto disputava espaço com a água e as folhas secas que cobriam a rua. Aquela quietude lhe revigorou a alma.
Mas a sensação de gozo foi quebrada pelo tênue cheiro enjoativo de velas aromáticas e incensos, que lhe embrulhou o estômago. A sala era escura. O assento da cadeira um tanto quanto duro. Na sua frente, uma mesa pequena, com uma toalha vermelha. Duas velas, uma preta e outra branca. Um copo com água. Por fim, um tarô envolvido por um lenço preto. O lenço se abre e a pilha de cartas é liberta. “Corte em três maços com a mão direita”. Sem delongas, um jogo de frases perfeitas é jogado em seu colo: “Você será uma jornalista de renome. Trabalhará na Folha de São Paulo. Casará com um músico. Terá a casa no campo que tanto almeja e aquela pilha de vinis que tanto cobiça. Dará a luz à dois filhos, e não deixará de ser gostosa. E ainda adotará um mestiço. Ah sim, e terá uma vida longa”.
Leve como quando era criança e se perdia em meio à ciranda dançada no bosque do bairro, Dolores vai para casa. Ela está lá andando no meio da rua, guarda-chuva agora na mão direita, a mesma mão que a pouco traçou o seu destino. Vento frio no rosto, nenhum sinal de vida a pelo menos algumas quadras. Cessa os passos curtos, fecha os olhos no mesmo compasso em que abaixa o guarda-chuva. Deixa algumas gotas molharem a sua face pálida e o cabelo cor de palha que adora exibir. Nesse instante sente como se a rua fosse sua, e por alguns segundos essa sensação de posse se torna insustentável. Começa a cantar Chico Buarque “a vida é bela, a estrada é amarela...”
De repente como que saindo de algum beco qualquer, surge um jovem rapaz – o que faz Dolores engolir o canto. O jovem aparentemente carrega a mesma idade que a sua. Cabelo castanho, levemente penteado pro lado, do tipo topete, daqueles usados há uns 10 anos e que na época era moda. Roupa cafona, sapato marrom. “Meu Deus, alguém diz pra ele que é feio usar as roupas do avô, ou do pai! Santa Efigênia!" Nunca foi religiosa, mas em situações extremas ela tem a mania de clamar por Deus e por alguns santos que desconhece.
Porém, apesar de retrocesso, era bonito. Aquele rapaz lhe chamou a atenção. Acelera os passos pra tentar alcançá-lo. Já tinha tudo esquematizado na cabeça: encostaria em seu ombro, perguntaria a hora, sorriria enquanto jogaria o cabelo para trás – não, não ia seduzi-lo, mas toda e qualquer forma de aproximação requer esse procedimento – não sabia bem ao certo como falaria que ele deveria deixar a barba crescer, bagunçar o cabelo, rasgar umas calças e vestir um par de tênis furado. Mas na hora daria seu jeito.
Benjamin é um coitado. Além de nerd, é cafona. Já pensou em suicídio diversas vezes, mas sempre foi covarde para tal providência. Vai a igreja três vezes por semana, e aos vinte anos nunca conseguiu transar com Virgínia, sua namorada há quatro anos. Gosta dela – embora ela tenha mau hálito e nos últimos três anos tenha engordado consideravelmente. Sabe que sexo com a amada só depois do casamento, por isso se conforma com as punhetas que lhe visitam todas as noites. Trabalha o dia todo e no fim da tarde, quando chega em casa, precisa ser cauteloso se quiser ouvir seus vinis, pois o casal puritano de pais que tem, o proíbem de ouvir qualquer outro tipo de música que não seja gospel.
Enquanto tenta alcançar o jovem cafona, Dolores tem um breve momento de reflexão. Se pergunta se não é o retrato fatídico da mãe. Estremece, ao se ver refletida no retrato emoldurado da parede da sala, que tomado por um tom amarelado, há tempos perdeu a cor - tom amarelado de sujeira e asco. Sabe que tem o gênio do pai, mas isso sempre lhe foi indiferente, pois nunca morou com ele. Essa indiferença se torna maior agora, já que sabe que vai conseguir tudo o que deseja. De repente, tem a impressão de que algo se aproxima.
O jovem rapaz ouve um forte barulho e uma buzina ensurdecedora. Percebe que um acidente ocorreu na esquina anterior. Corre o mais rápido que as suas pernas magrelas conseguem correr. Se assusta ao ver o estado da moça, que apesar do sangue parece ser bonita.
Dolores abre os olhos, consegue sentir algumas gotas de chuva que agora caem com mais intensidade. Agora o vê mais de perto, mas antes que pudesse dizer algo, ela perde os sentidos. Dolores morre. O jovem retrocesso, depois de ligar para a ambulância, segue seu rumo. Passou alguns dias pensando na moça bonita que morreu em seus braços. Mas com o passar dos dias a lembrança desapareceu da sua memória, e ele continuou indo a igreja, com as mesmas roupas do pai. A cartomante comprou uma blusa estampada, um Carlton e dois litros de pinga com o dinheiro que cobrou da consulta que fez naquela manhã. “Cause I'm as free as a bird now, and this bird you can not change”, era a canção cantada por uma vitrola velha em uma casa amarela de portão preto, e que embalou o sono eterno de Dolores, que agora descansa em paz, no seu túmulo de bromélias.

Moral da história: Se for pra morrer, que seja ouvindo uma música boa! ;D


A música de Dolores: boomp3.com

domingo, 6 de julho de 2008

↕ Uma culpa a mais


Troque o uísque pela vodka. Se não consegue largar esses porres, nem tampouco as mágoas que tanto afoga, troque o tipo de álcool, por favor! Chega, isso já se tornou enjoativo. Você não me constrange mais com esse papo de dó. A mesma repulsa da desculpa. O mesmo soneto da culpa. Então, depois de muito se contorcer no lençol azul, que ela pôs na sua cama, você dorme. E sonha, comigo. E acorda, infelizmente.
A sua cabeça dói. Enquanto a dela, pesa. A sua dói devido ao porre, e a culpa. A culpa lhe sobe nos ombros e lhe faz capengar o dia todo – sim, estou acima do peso. Mas o que nela pesam, são os chifres.
O nome da fulana da noite anterior? Não lembra. Mas lembrará no instante em que a ver, pois, se não trabalha, deve tomar café com você na padaria da esquina. A última pelo menos, foi assim: “Você vem sempre aqui? Venho sim. Sou solteiro. Minha mãe mora no interior. Não tenho habilidade em cozinhar. Advogado, e você? Ah sim, reparei os seus traços, deve ser moça do sul mesmo. Aliás, lindos olhos, me lembraram o céu de março. Hoje? Ah sim, estou livre. As 8? Combinado! A propósito, como é o seu nome?”
Paramos aqui. O nome você não sabe. Ou nunca lembra. Exceto da última, que tinha o segundo nome da sua amada : Antonieta. Essa não foi esquecida. Ah sim, o nome da corna em questão é Maria Antonieta. Mas no geral, se formos analisar, é bom que você não saiba, nem tampouco lembre dos nomes. Não corre o risco de durante um orgasmo clamar pelo nome de alguma amante.
Amante? Amante não. Poderíamos intitular “amante” se fosse algo mais sólido. O que acontece são orgias momentâneas, né? Nunca teve amantes. O que teve, e tem constantemente, são trepadas e surubas. Meia hora? Uma hora? Na verdade, 10 minutos, nunca passa disso. Ah sim, claro “você nunca mais fará o mesmo”.
E quando as vê? O que faz? Finge que não vê. Às vezes manda flores. E some. Mulheres são tolas, mas sabem que transar com homens comprometidos, dificilmente, rende uma relação duradoura que gerará filhos, netos e bisnetos. Isso, só acontece com a corna. As cornas constituem família e tem almoços de domingo. Amantes e derivados, não.
E se pergunta por que continua traindo Maria. A resposta não vem. O vazio que tenta preencher, continua vazio. Você se vê completo apenas quando ela dorme no seu peito. No geral, o que faz é para alimentar um prazer sangue suga. E toda vez que encosta seus lábios em outros lábios, lembra do beijo de Maria, e da maneira com que faz bico sem perceber. E quando sorri no meio de um flerte qualquer, vê no ato o sorriso de Maria, que quando acontece é como um quadro raro, emoldurado por aqueles lábios vermelhos que dispensam qualquer pintura carmim. Ao sentir o toque dos seus dedos em outros seios, no ato lembra dos arredondados e doces seios de Maria. Quando se vê refletido em olhos alheios, ri num espasmo, ao lembrar daqueles olhos amendoados e insanos, que sorriem mesmo quando ela não sorri. E quando vê os seus pêlos presos em outros cabelos, se perde numa escuridão interminável, pois a luz dos cabelos dourados de Maria é capaz de levar qualquer homem a cegueira.
E a mim, o que resta é continuar lhe pesando a consciência e lhe fazer capengar. Só o que lhe peço é para trocar o uísque pela vodka. Recomendaria um bom vinho, mas o deixe para beber com Maria. Se ela ainda estiver lá.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

↕ A Mulher Atrás do Muro


A mulher atrás do muro é pudica e se intitula puritana. Morre de medo do avanço e da precocidade da juventude. Esse medo é fruto do seu reflexo diante do espelho, que vem acompanhado com um forte e incontrolável asco toda vez em que se depara com o maracujá de gaveta que suas faces se tornaram. O tal do tempo justifica as rugas e a ausência da cor nos cabelos. A mulher adora achar justificativas, as mais cabíveis se possível. O fato é que para ela, “na sua época” o pudor era mais evidente, e existia. Embora ainda esteja viva, insiste em usar a expressão “na minha época”, como se não vivesse mais em época alguma, como se o tempo tivesse parado. Como se ela estivesse morta e enterrada, embora o coração ainda pulse no peito flácido. Para ela o pudor foi embora, melhor: expulso de mala e cuia, dando lugar ao tal “sexo, drogas e rock´n roll” que leu, horrorizada, rabiscado em enormes letras de forma no caderno da filha. “Pura e doce é a sua menina” que, aliás, adora exibir para as amigas, e faz questão de sempre que possível, estufar o peito e soltar que “foi daquelas ancas que aquela belezura saiu”. Embora zele pelo “correto”, adora pensar sandices, e o faz sempre. Melhor do que pensar ela fala, com uma enorme eficiência, diga-se de passagem. E periodicamente age como se estivesse exibindo a enorme habilidade que possui de falar sandices, e fala, fala: “se minha filha namorar com um cabeludo, eu me mato! Se minha filha transar antes do casamento, eu me mato! Se minha filha colocar brincos na cara, eu me mato! Se minha filha fizer uma tatuagem (para ela tatuagem é coisa de mulher vagabunda), eu me mato! Se minha filha se drogar, eu me mato!”. O prelúdio do suicídio já passou tantas vezes pela sua cabeça, que a coitada esqueceu de viver. O fato é que a sua filhinha doce e pura, até pode ser uma doçura, mas há tempos não tem nenhum vestígio da tal pureza. Todos os tipos de amor devem ser cegos, inclusive o amor materno. E é essa cegueira que a mantém viva, longe dos tais suicídios que tanto se diz capaz de cometer. O grande dilema é que até hoje, não teve nenhuma alma caridosa capaz chacoalhar a mulher e dizer: “minha senhora, o tempo não justifica somente as sua velhice, e da mesma forma que ele passou pra senhora, além do seu muro ele também passou. Levou e trouxe novas eras. Os tempos mudaram”. Ou de um jeito menos cordial: “o mundo vai muito além do que você pode enxergar atrás desse muro. As coisas não são do jeito que senhora pensa que são. Nem do jeito que alguém um dia lhe disse que são! O mundo é grande demais para caber dentro de uma cabecinha tão pequena e retrô, como a sua. E a sua filha minha senhora, anda trepando faz tempo com um roqueiro, e além de ter tatuado na nádega esquerda “all you needs love”, também adora fumar maconha com as amigas. Portanto, guarde suas asneiras num lugar muito bem escondido, e depois tenha um colapso de amnésia e esqueça onde as guardou. E viva! Saia dessa vida medíocre e anacrônica”. Mas ninguém nunca cometeu a proeza de dizer tais palavras para a mulher. Que continua atrás do muro. Que continua vendo o que quer ver. Que continua não vendo nada!

sábado, 3 de maio de 2008

↕ Sempre gostou do frio


Sempre gostou do frio. Sente um arrepio nas costas que há tempos não sentia. Pelo menos não pelo toque sutil do vento. Já tinha esquecido quão embaraçosa era essa sensação. Embora sempre tenha a agradado, houve uma época em que lamentava senti-la. Agora, enquanto corre os olhos atrás do pássaro que de longe a mira, a sente. Por mais que esteja protegida por um emaranhado de panos, aquela sensação de êxtase é envolvida pela sombra da ausência.
A tarde é daquelas que não querem se pôr. Como a do seu aniversário de 24 anos, em que ganhou aquela velha cabana a beira mar. Foi todo o caminho com uma venda nos olhos, ouvindo Vinicius de Moraes. Imaginou todos os presentes cabíveis nos seus sonhos, mas ter a cabana que sempre sonharam, era realmente sonhar demais.
Nunca foi de sonhar. Até quando dorme dificilmente lembra o sonho que teve durante a noite anterior. Essa sua atração pelo frio possivelmente seja pelo fato de ser uma pessoa extremamente gélida. Porém, diante dele mudava. Nunca entendeu o porquê disso. Nunca entendeu o que ele causava nela. Um simples toque da ponta dos seus dedos, como se sua perna fosse o teclado de um piano, bastava para que ela se perdesse nele.
Ao conhecê-lo passou a sonhar. Mas não um sonho individual, eram sonhos recíprocos. E como eles sonharam com aquela cabana na costa sul. A construção era antiga. A mobília resumia-se a uma cama, uma lareira e a pilhas de livros e vinis espalhados pelo chão. Longos foram os dias e tardes sem fim que passaram naquele lugar. Intermináveis foram a caricias trocadas, os poemas escritos e os sonos compartilhados que lá tiveram.
Despertar pela manhã é a hora mais importante do dia. Abrir os olhos, olhar em volta e perceber que tudo está no lugar, como na noite anterior. O despertar na manhã de hoje veio de mãos dadas com uma enorme lacuna. Foi a primeira vez nos últimos anos em que ela acordou sem tê-lo no lado esquerdo da cama. Foi a primeira vez nos últimos anos que não dormiu acolhida pelo seu peito. Essa é a primeira vez que ela vai até a cabana, sozinha.
Tantas foram as vezes que conversaram sobre a morte, ou que ele tentou conversar sobre ela. Em todas ele não hesitava, dizia não tema-la, pois segundo ele, a mesma era a única certeza que tinha diante das incertezas que povoavam suas vidas. Enquanto ele perguntava o porquê do seu receio em morrer, ela nunca olhou nos seus olhos e disse que o seu medo não era de morrer, e sim temia perdê-lo, como perdeu tantas pessoas. Temia voltar a sentir frio.
Agora ela está lá, sentada em uma grande pedra, observando o chocar das ondas nas rochas que circulam a pequena ilha. O vento cortante insiste em lhe embaraçar os cabelos. Ri, ao lembrar das vezes em que ouviu: “você fica linda descabelada!” No meio de tantas lembranças, encontrou a pouco uma carta que um dia ele a escreveu, e enquanto tenta lê-la com dificuldade – pois as lágrimas que insistem em cair, lhe embaçam a visão e dificultam a leitura – sente o seu cheiro.
Nas vezes em que tiveram que ficar longe um do outro, ela fechava os olhos e conseguia sentir seu cheiro, e imediatamente o sentia perto. E agora o faz. E o sente.
Quando ele a tornava um instrumento qualquer, tirando da sua pele infinitas notas musicais que somente os dois conseguiam ouvir, ela sentia um gostoso arrepio. É o mesmo arrepio que lhe inquieta, e a tomou há alguns instantes. De olhos fechados tenta acreditar que o que lhe toca, e causa o tal arrepio, são os seus suaves dedos, e não o vento daquela fria tarde de outono.
O frio, há tempos não o sentia. Longos foram os anos que ela o sentiu constantemente. Breves foram os anos em que ela deixou de senti-lo. E agora ela o sente, e o sentirá para sempre. Exceto quando fechar os olhos e sentir o seu toque, o seu cheiro.
Seus olhos ainda estão fechados. E ela ficará ali por horas, até que o sol se ponha. Porque ela sempre gostou do frio.