segunda-feira, 3 de agosto de 2009

The last time I saw Renato?

Quando Joni Mitchell escreveu “The last time I saw Richard”, deve ter se inspirado em algum amigo ou em algum dos seus romances frustrados. Sim, pois somente quando os personagens são reais é que a história se torna envolvente, instigante. Falar de dores, de gente que sofre, ama (sofre), gente de carne e osso, com tendências a loucura e a suicídio. Voilà! Eis os pesares da vida real, quando tudo é traição. A questão é que Renato Russo era fã da loirinha, e assim como ela cantou os versos de The last time I saw Richard como se fossem tapas na cara, daqueles que se propõe a ouví-los com atenção. Todos aqui somos o Richard. Somos, ou fomos, ou seremos algum dia. “Todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia. Cínicos e bêbados, chateando alguém em algum café escuro”. É verdade Joni, cafeína desce pela garganta, abraça o coração na tentativa, inútil, de arrancar com as unhas o inquilino denominado Amor. “Only a phase, these dark cafe days”. É só uma fase, diz ela. Até que a borboleta sai da crisálida, para em seguida entrar em outra mais escura ainda. O Renato já cantou a mesma coisa em “Metal Contra as Nuvens”, da Legião: “tudo passa, tudo passará”. Aliás, os onze minutos mais bem gastos da minha vida foram aqueles da primeira vez em que ouvi Metal Contra as Nuvens. Mas isso pouco importa. A questão é: quando Joni Mitchell escreveu The last time I saw Richard, cometeu um equívoco: Richard deveria se chamar Renato.


Quer ver/ouvir o Renato interpretando
The last time I saw Richard? Clica aqui ó.


domingo, 2 de agosto de 2009

Carta ao dono do Preto

“Todo homem precisa de uma mulher que goste de cozinhar e que acredite em Deus”. A frase tinha gosto de café, e veio no meio de uma divagação freudiana de bons amigos. Ele é músico, vagabundo e maluco. Mora com um gato preto e divide o aluguel com um piano e com um quadro falso da Monalisa, que pagam barato para dormir na sala apertada. Não vamos falar muito dela. Basta apenas, por hora, saber que ela não gosta daquele gato, que além de feio a olha como se fosse devorá-la. “Tenho a impressão de que a qualquer momento o Preto – esse é o nome do gato, bem sugestivo por sinal – vai pular no meu colo e fazer pose para uma foto com a sua mais nova presa nos dentes”, foi o que ela me confessou minutos atrás. Acontece que ele tem um álbum de fotografias só do Preto com as suas presas, é quase um book que ele mostra para as visitas todo orgulhoso dizendo: “toda vez que ele caça, ele volta pra casa fazendo um barulho assim gruuuuuuuuuuuuur”. Do piano ela gosta – principalmente da forma com que ele a desconserta em meio as notas nos seus sutis concertos. Da falsa Monalisa também – embora ele já tenha estado no Louvre e cogitado na sua mente insana a hipótese de roubar a original. Dia desses, no meio de uma bebedeira, ele disse a ela com um sorriso safado: “sua mãe é tão bonita como você?”. Ele nem deve lembrar, só lembra do que está entulhado nos seus armários e nos seus álbuns. Ele faz um bom café e sofre por amar demais, assim como ela. “Um dia tudo isso vai passar”, dizem um ao outro. Eu os ouço, e me assusto por gostar de ouví-los. Fico calada, ainda não despi minhas cicatrizes para eles, mas farei na próxima xícara de café. Eles ainda não sabem, mas ele vai embora para Paris, tocar suas músicas nos metrôs. Ela vai embora para qualquer lugar longe daqui, escrever para ninguém ler. Admito, ele é o tipo de cara por quem ela se apaixonaria caso tivesse o conhecido há uns dois anos atrás. Hoje seria impossível tê-lo de outra forma que não a atual: bons amigos. Ela não gosta de cozinhar, tampouco tem fé em algo que não seja ela mesma. E não gostaria de acordar semi-nua e dar de cara com aquele gato na porta da cozinha, miando bom dia.

sábado, 1 de agosto de 2009

En rachâchant: Tributo a Margarite Duras



“En rachâchant” é um curta-metragem francês lançado em 1982, baseado em um conto de Margarite Duras. O enredo de “Ah! Ernesto”, escrito pela autora de “O amante” em 1971, conduziu o rumo das lentes do casal de diretores Danièle Huillet e Jean-Marie Straub a uma crítica ao sistema de ensino arbitrário e conservador.  

Eis a versatilidade de Margarite Duras. Desta vez, o conflito começa quando um menino não quer ir à escola, pois lá ensinam coisas que ele não compreende. Esse é um cotidiano familiar comum: em uma conversa com os pais, o menino canta docemente o seu problema. De repente, a cena é transferida para uma sala de aula onde a família se une ao professor – figura que, a priori, parece calmo, mas logo se revela impetuoso diante da questão proposta pela criança.

Já me deparei com a mesma crítica feita por Margarite e pelo curta “En rachâchant” no livro de Pierre Bourdieu intitulado “A Reprodução”, e até mesmo nos trechos de “Another Brick in the Wall”, canção do Pink Floyd – “Hey! Teachers! Leave those kids alone!”. Não foi ao acaso que Danièle Huillet e Jean-Marie Straub escolheram filmar “En rachâchant”, pois esta é daquelas produções incomuns perante aos tradicionais filmes com vistas mercadológicas. E, sobretudo, é mais uma oportunidade de repensarmos a nossa educação.

Saiba mais sobre a carreira de Danièle Huillet: http://www.contracampo.com.br/84/arthomenagemadanielehuillet.htm
 


En rachâchant :

quinta-feira, 16 de julho de 2009

50 anos sem “o fruto estranho”

A cor do jazz é negra.





Há 50 anos morria aquela que cantava amor e fome como ninguém: Billie Holiday. Graças a uma voz inesquecível – que quando ouvida era capaz de tecer emoções e arrancar lágrimas – a negra que na infância passou fome e foi estuprada, abandonou o nome de batismo “Eleanor Fagan Gough”, para se consagrar como a “Lady Day do Jazz”. Dor e fama, essas duas palavras deveriam ter sido gravadas em seu epitáfio naquele 17 de julho de 1959. Billie Holliday morreu às três horas da manhã, presa a uma cama de hospital – por aparelhos e por algemas – sem poder ouvir música, nem comer chocolate, usar o telefone, e com 750 dólares escondidos na vagina.


Quando ouço Billie Holiday penso que se o jazz tivesse uma cor, essa cor seria negra. Billie era dona de uma voz rouca, desconcertante. Quando cantava, ela escarrava a dor de cada um por meio de suas canções. Essa voz inconfundível moldou a mais comovente cantora de jazz de uma época. Mas sua vida esteve longe de ser qualquer outra coisa se não um amargo mártir, um “fruto estranho”.

Ela era pobre. E pior, era negra. Ser pobre e negra na década de 1920, em uma cidade de ricos-brancos como Baltimore, em Nova Iorque, definitivamente era estar na merda. Ainda mais se você é filha de dois adolescentes: sua mãe é uma humilde faxineira e se seu pai, pseudo-músico-frustrado, esqueceu que a adolescência um dia acaba, e resolveu sair por ai na tentativa de ser um star. E já que você tem uma vida fodida, o jeito é procurar emprego, quando ainda se está na idade de brincar de boneca. Então ela foi babá, garota de recados, faxineira de bordel e afins. E como faxineira de bordel, com 10 anos, ela foi estuprada. Me dê mais quatro anos, e ela havia caído na prostituição.

O encontro com o microfone foi ocasionado pela fome de viver. O fato é que ela e a mãe estavam prestes a serem despejadas. A ainda Eleanor saiu à procura de algum dinheiro, até chegar a uma boate. Ela não queria mais ser faxineira, muito menos prostituta. Dançarina talvez? Em vão, ela era um fiasco dançando! Então, o dono do lugar perguntou, “menina, você sabe cantar?”. A pergunta foi o parto para Billie Holiday, que nascia naquele instante. O ano era 1930, e dali ela passou a cantar em bares e boates, até que começou a excursionar com uma orquestra, e só parou de cantar no ano em que morreu. O resto não caberia aqui(...).

É difícil falar em Billie Holiday. Difícil, ainda, é falar nela sem falar em Lester Young, o saxofonista que foi fundamental para o seu estilo musical e que acompanhou a cantora durante quase toda sua carreira. Curioso ou não, mas Lester morreu em 1959, também às três horas da manhã. Uns dizem que foi naquela madrugada de março, com a morte do amigo, que o fim de Billie a agarrou.

Em canções como a polêmica “Strange Fruit” ela cantou o racismo. Em outras tantas o desamor. Antes de morrer ela já havia chegado ao inferno, guiada pelas bebidas e pelas drogas. Seu fim foi assim: com 44 anos, há 44 dias internada, em meio a uma parafernália de aparelhos, algemada a uma cama de hospital acusada de posse de narcóticos. Billie Holiday morreu sozinha. Minto, haviam dois guardas postados à porta do seu quarto. Num momento póstumo, sua enfermeira encontrou 15 notas de 50 dólares enroladas com fita durex na sua vagina. Se alguma música tivesse embalado o adeus de Billie, deveria ter sido “Non Je Ne Regrette Rien" da Edith Piaf. A francesa com nome de pássaro assim como tantas outras, teve Billie como referencia, bem como, um final ocasionado por ela mesma. Mas as duas continuam voando por ai, e aqui.


Ouça: Lady in Santin (1958)

Tem um samba antigo que diz assim “se eu parar pra cantar tristeza, meu tempo aqui não chega”. Billie foi o avesso. Cantando tristeza, “com uma gota de sangue a cada canção”, ela cantou até o fim. E em Lady In Satin (1958), seu penúltimo disco gravado em estúdio, a tristeza foi cantada nas 11 faixas, com uma maestria digna somente dela, que neste disco esteve acompanhada pela orquestra de Ray Ellis.

O disco é o amontoado de cicatrizes ocasionadas pelo amor, que Billie herdou em vida e pôs diante de ventilador em forma de canções. Quem ai é capaz de apanhar no ar cada uma delas, sem cambalear? Lady in Satin traz a voz de Billie debilitada pela bebida e pelas drogas, mas não menos apaixonante. A cada canção, sua voz soa mil vezes mais rasgante – e a cada faixa vai rasgando o coração daqueles que entram apenas com os tímpanos. Essa é a sensação lançada na primeira música do álbum, “I'm a Fool to Want You” de Frank Sinatra. Sensação que se estende nas demais.

Depois de ouvir Lady in Santin, você percebe que, se de um lado existem aqueles que dizem ter em si “todos os sonhos do mundo”, Billie, aparentemente, carregou todas a dores do mundo nas costas. E o resultado resume-se em uma única palavra: emoção. Quando “I'll Be Around” termina, fica no peito um vazio. Vazio de quem, quando comparada com Billie Holiday, ainda nada viveu.



Billie Holiday interpreta Strange Fruit:


Strange Fruit é datada de 1939, e abalou as pessoas da época. O “fruto estranho das árvores do sul” da música, nada mais é que o corpo de um negro linchado e enforcado. “Sangue nas folhas e sangue nas raízes. Corpos negros balançando na brisa do sul. Frutas estranhas penduradas nos álamos”. A música foi censurada e vetada de tocar nas rádios.


Você conhece a Tiê?

Ah, a moça que canta a música da bailarina?



Às vezes, num tropeço, dou por mim com descobertas que fazem com o que o dia valha demasiado a pena. E a descoberta desse pássaro fez com que a calmaria pairasse por muitos dos meus dias. Tiê tem lá seus 27 anos de idade, e canta o amor de forma inteligente. Seu primeiro álbum, chamado “Sweet Jardim”, foi lançado neste ano e a tornou uma revelação no cenário independente da música brasileira. Repleto de composições próprias, o álbum pode ser considerado uma produção folk, onde violão e teclado – de mãos dadas com uma voz doce cantando letras ternas – tomam a frente e dão vida a arranjos e a melodias sutis, que acalmam e acalentam. “Assinado eu” vem fazendo parte dos meus dias. “Passado o passado, acho que eu mesma esqueci o tom”. Como disse um amigo meu, que teve a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, “Tiê é daquelas mulheres que passam e você não tira o olhos dela”. Ouço o “jardim doce” de Tiê e chego a crer que suas histórias são minhas, e penso: “Meu Deus, quanto amor!!!”. Ela é assim, apaixonante. Ouça e tente não se apaixonar por ela.


Baixe Sweet Jardim aqui

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Mural

São vários rostos junto ao meu olhar tristonho. São cinco mortos, dividindo espaço com outras dúzias de rostos que eu mesma já tratei de enterrar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

08h28min

Desabafo

Domingo ele lançou sobre mim detalhes do seu dia, das peripécias da sua rotina. Disse docilmente que ficou em casa o dia todo por causa da chuva, se entorpecendo de café. E todos os dias ele faz isso. Ditos que vêm sem que eu solicite. Quer tanto saber de mim.
Quero a sua opinião bem sincera. Quero a sua por você o conhecer tão bem. Por já ter estado nos braços dele. E também porque a sua amiga já esteve. E agora, veja só, sou eu quem está. Afinal, sabemos como ele leva a vida intensamente. Por isso, só por isso, não me deixo levar. Tento não me apegar.

Conselho torto

Você está agindo certo. Não por ser ele, mas mesmo se fosse qualquer um e a situação fosse a mesma: é sempre bom ter cautela. Mas cautela não quer dizer "não viva". Eu queria muito te dizer: apaixone-se, permita-se!!! Talvez fosse o mais correto. Mas eu tenho medo, muito medo. Por isso, eu acredito que tu deve se manter assim, pelo menos por hora. Deixa as coisas seguirem o rumo do rio. No final a correnteza se encarrega de guiar os fatos para a costa mais terna. Mesmo que, para isso, seja preciso se debater em rochedos e vitimar algumas feridas.



Eis a viciosa e tortuosa repetição: Doravaaaaaaante Nietzsche!!!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

↕ Elogio da loucura

Paulo, o filho mais velho de Ferreira Gullar, é esquizofrênico – doença que o seu irmão mais novo também possuía. Certa vez, ao recém sair de uma crise, resolveu por bem observar o vento. Então disse ao pai que “o vento no rosto é sonho”. Ele perguntou se o pai sabia disso. Provavelmente não sabia, mas aprendeu. Aprendeu e fez um poema desse episódio.

Dias dezessetes me soam graves. Hoje, enquanto andava pela rua vazia, senti um vento cortante no rosto e lembrei dessa frase “ o vento no rosto é sonho”. Eu não sabia disso, mas aprendi. Da mesma forma que, já faz um bom tempo, aprendi o quanto a poesia de Ferreira Gullar é boa, intima. O aprendizado veio de presente, das mãos mais lindas que já vi. O livro veio, por obrigação; depois a desolação.

Eu confesso, nos dias de inverno permito afoita que ele me beije. Ele é insano, me beija e beija a todos. Depois segue sozinho, como eu. Hoje, por um instante, achei que Paulo tivesse razão, “sim, o vento no rosto é sonho!”.

Toda manhã pela rua enquanto eu passo, meço a angustia que repousa leve, no orvalho das folhas verdes e brancas. Piso macio para que ela não desperte e não pouse densa no meu dia. Grito calada: “não sou daqui!!!”. Ninguém ouve. Então sinto o vento, o beijo mais uma vez, e percebo que somente “a loucura deve ser elogiada”. A minha, a sua, a de Paulo, a de Erasmo.

Mas louco é quem me diz que não é feliz. Eu sou! Paulo é! Erasmo era!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

↕ Outra lira

É como disseram outrora, que a vida nos seus 20 anos "é uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas sem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço".


O espelho diz que envelheci. Cheguei aos 20 e tudo já havia acontecido. Aos 20, quem tivesse me conhecido três anos antes notaria o quanto eu havia envelhecido. Ganhei uma cor opaca, um olhar tristonho e uma ruga na testa que aqui não estava; daqui não sairá nunca mais. Tenho os pés calejados, a chuva queima e o sol envelhece.


Bem antes dos 20 foi quando comecei a transformar as pessoas em personagens. Cambaleando nas recordações, tecia suas histórias sem desenhar seus rostos. Creio que sem eles, meus personagens, eu não seria a pessoa que sou. Fico me imaginando daqui uns anos, sozinha, sempre carregando nas costas o peso de uma idade a frente daquela que tenho; me vejo e me entristeço.


Então, quando sinto frio os trago para perto de mim. Passo os olhos por eles, acaricio seus rostos, sinto seus gostos. Confesso, às vezes não consigo passar da décima linha. É como se eles nunca tivessem sido pessoas. É como se sempre tivessem sido meros personagens, desses dos livros de outros.


Ainda somos aqueles personagens, vestindo novos trajes a cada linha lida, meu amor.

sábado, 16 de maio de 2009

Meu bem, você deveria saber que o som alto não abafa os gritos. Eles regressam quando o céu veste cinza. Como essa cicatriz rosada, que lateja em dias de chuva, alojada e saliente em minha pele? É. Aliás, acho essa sua cicatriz um charme só. Mas a questão é que você deveria comprar um gravador e largar esse cigarro. Isso de ter que anotar as ideias o tempo todo é ridículo. Isso vai te matar. O alzaimer precoce? O bombardeio de ideias que me assombram e inspiram e depois fogem? Os dois, mas principalmente esse cigarro e a bebida. Não finja se preocupar, vou morrer é de amor, não de cirrose! “Por” não, “de” amor. Morrer por amar demais, em excesso. Por ter tantas paixões, por colecionar dores. Por ser essa explosão de vida e sentimentos que no estio flamejam feito fogo, e que em seguida apagam e não mais acendem. Para com isso, não me venha com divagações baratas! Eu amo sim, por isso escrevo! Você deveria me ler mais, então saberia. Ler as histórias que não vivi, as coisas que não faria, os amores que não matei. Não, obrigado. Não gosto dos seus textos. Nem eu, acho que é essa desorganização toda que ainda não aprendi a controlar. Mas eu gosto de gente doída. Eu também. Você escreve porque tem medo. Com essa facilidade de esquecer e de mentir, escreve pra recordar. Mentir? De poeta e mentiroso, todo mundo há de ter. Se não têm, acreditam ter. E a gente acredita que têm. Exatamente, e ainda aplaude. Viva! Mas sobre você, digo que suas mentiras são somente pra si. Mente que é capaz de esquecer. Não! Sim, e escreve por ter medo de ser esquecida. Você quer é permanecer. Mas eu não lhe condeno pequena, afinal, quem não quer? Eu escrevo pra cessar a dor, e só! Não! Escreve pra não virar somente pó! Chega. Viu! E quanto aos gritos? Não os ouço, os leio. Enfim, eu acho que você tem razão, vou largar esse cigarro, um dia desses entro em combustão antes da hora e não terá ninguém pra guardar minhas cinzas ao pé da cama. Ninguém. Ah, já te contei a minha teoria sobre a invenção do twist? Não! Nem quero saber, por hora nada de dançinhas iê iê iê... Sejamos sutis e vamos brindar nossas insônias. Sutil é esse seu mau humor crônico, não sei porque perco tempo com você. É porque você me ama. Nunca! Enfim, acho que amanhã vai chover. Cicatriz filha da puta.

domingo, 10 de maio de 2009

O quarto é escuro. Nele, há uma mistura de suor e perfume doce no ar.


Ele a olha como se esperasse ver seu rosto. Ela não percebe, tem os olhos fechados. Ela está alerta a tudo o que acontece lá fora, nos diálogos vindos da rua. De repente ele diz: eu te amo. Depois sua respiração fica ofegante. Seu corpo é terno, quente. É tanta, tanta ternura meu Deus! Ela não responde. Poderia dizer que também o ama, ou que não sente nada, mas fica calada. Ele está trêmulo, torcendo para que apenas tenha pensado em dizer, ou que ela não tenha ouvido. Então ela compreendeu. Ele nunca a conheceria. Jamais seria capaz de conhecer tanta perversidade.


A ela compete jamais esquecer as fragrâncias. Dar corda na vida, permitir que seus ponteiros antecedam os segundos que se esvaem. Como um colecionador de perfumes.

domingo, 3 de maio de 2009

Deus!
Ainda que eu falasse a falácia dos homens.
Ainda assim você não ouviria.
Ainda assim você nada diria.

E se eu aprendesse, recitaria em coro, baixinho.
Então lavaria minh' alma com sua água santificada.
Num gozo oco, como a tua imagem.

domingo, 12 de abril de 2009

Despertei.
Vi um par de cegos, vagando no caminho que antecede os passos. Trajes rasgados, pés calejados; cegos prosseguiremos! E não adianta esbravejar, este é o nosso destino prévio. Mesmo assim, ainda é difícil ver seus olhos sem deles necessitar.
Ouço você me chamar, mas as palavras ecoam longe, como vindas em outra língua. Como um beijo lançado ao vento, que nunca vem.
Com a cabeça encostada no seu peito, descobri que lá um coração ainda bate, forte, intenso. Então entendi.
Adormeci.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

↕ Viço de outono

Ando só. Sempre pelas mesmas ruas, fitando as pontas dos pés. Da janela a vejo acenando pra mim. A vida. E eu apenas a assisto, calada.

O dia nasceu preguiçoso, ou eu acordei como não deveria. O sol teima em não despontar entre as nuvens acinzentadas. De onde vem essa vontade doentia em se acuar, matar e morrer todos os dias? Talvez você pudesse ter me respondido em outro outono.

Já não lembro mais de um gosto que não seja aquele ácido, amante das suas últimas frases. Ora amor, ora ódio, ora desapego. Esse confronto me toma no colo e não me deixa andar. Segura forte, grosseiro, e não permite que eu aborde o estranho na rua e fale: “Vê, ela está acenando pra mim!”.

O som da bola de encontro ao chão empoeirado embala aquele adeus. É a fé que se despede mais uma vez. Antes de assassinarem a sua fé, essa capacidade de satisfação em pequenas coisas ainda era possível. “Como seria bom voltar a ser criança por apenas um dia. Ouvir a voz do pai mais uma vez, sentir sua mão forte, ver o sorriso da mãe, falar com as plantas. Perder todo esse peso alojado nas costas, e assim não mais arquejar no meio de uma canção,” pensou.

Mas a lucidez bate a porta...

Não pode perder o rumo, a carona, o viço. Ficar a mercê de fantasmas e de pernas que não são as suas, também não. E enquanto espera que ela se dissipe diante da janela, sonha e anda; calada e só.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

↕ Primeiro de abril

Lavei meu rosto, uma, duas, três, já não sei quantas foram as vezes. Em vão. A máscara continua aqui. Seu peso impede que eu durma em paz. Minto! Eu durmo em paz, mas é a paz de quem sabe mentir.