sábado, 8 de agosto de 2009

Roberta Sá: a morena que gira a renda



"É no samba de roda, eu vou

No babado da saia eu vejo

A morena girando a renda

É prenda pro seu orixá."

Girando a renda – Que belo estranho dia para se ter alegria (2007)



A primeira vez que ouvi Roberta Sá foi na música “Dê um rolê”, do disco “Fatal”, da Gal Costa. “Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida boa”. Fiquei anestesiada, encantada. Teve uma época que era regra para mim ouvir essa música todos os dias (preste atenção na letra dessa música quando puder). A gravação era ao vivo, e não faz parte de nenhum dos seus álbuns. “Eu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés!”. O que me chamou atenção, num primeiro momento, foi a força da sua voz. Me lembrei de Elis.


Tratei de descobrir quem ela era. É fato que quem nasce em 19 de dezembro esbanja talento (hahahahaha). Em suma ela é assim: uma mescla de samba, pagode e MPB. A cantora nascida em Natal e criada no Rio de Janeiro, no seu primeiro álbum propriamente dito “Brasileiro”, datado de 2005, contou com participações de feras como Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marcelo Camelo, entre outros. No ano anterior, Roberta havia gravado um álbum promocional, chamado “Sambas e Bossas”, composto por clássicos da MPB. Ai em 2007, Roberta lançou a sua obra-prima: “Que belo estranho dia para se ter alegria”. Aliás, enfio garganta abaixo esse álbum sempre que posso, quando alguém recorre a mim pedindo alguma música: “pus no seu pendrive uma tal de Roberta Sá, conhece?”. Mas não poderia ser diferente, assim como em Brasileiro, Roberta em Que belo estranho dia para se ter alegria traz lindas composições, inéditas e regravações, de compositores brasileiros da atualidade – parece mentira, mas ainda temos compositores de música popular por aqui, e bons compositores.


Se Tiê é mais “modesta”, diria assim no quesito instrumental, Roberta usa e abusa, encrementando as composições com um bocado de ousadia. Mas não vamos aqui avaliar um folk-brasileiro (??) com MPB e afins. Foi só um parecer, parei.


Ouço Roberta Sá e acredito que é possível sim que novas gerações produzam música de qualidade no Brasil, como as de outrora. Qualidade não só instrumental, mas no conteúdo das composições. Sem ficar pintando o cabelo de loiro e rebolando ao som de um inglês mal pronunciado e músicas sem nexo, sem melodia. De uma coisa tenho certeza, se Policarpo Quaresma vivesse hoje, ouviria Roberta Sá no seu mp4.




Baixe
Que belo estranho dia para se ter alegria aqui ó.

Roberta Sá interpretando “Novo Amor”.

Quando letra e melodia casam, o resultado só pode ser esse. Essa música faz parte do repertório de Que belo estranho dia para se ter alegria, e é uma das que eu mais gosto do disco. Usei sua introdução para um documentário radiofônico. “Só você pra gostar de música de cangaceiro”, me disseram. Hahaha.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Atchim!

E a Paz mundial?
Mundial mesmo, só uma virose com nomenclatura oriunda de animais irracionais, que mata, sem cerimônia alguma, inumeros de exemplares do homem "pensante". Este, por sua vez, vai pra cova sem se dar conta que de nada valeu se gabar pelo seu encéfalo ALTAMENTE desenvolvido, e pelos seus úteis polegares.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Onze noites com Hercule Poirot

Minha sombra pelo quarto me fez grande, me vi como um pequeno gigante. Sentei no canto da cama, cruzei as pernas - esmaguei o medo diante delas. Então apreciei de camarote.


Seios nus, mãos entrelaçadas; indícios claros de que o “feito” já estava feito. Cheguei tarde. Mas mesmo com o atraso, encontrei o que me propus a encontrar.


Os dois estavam dormindo. Tolos! Minha revolta se dá devido ao xeque-mate consentido. Inadmissível. A questão é que quando inertes em nossos sonhos, nos envolvemos numa densa vulnerabilidade. Explico: Enquanto dormimos não conseguimos manter a máscara no seu devido lugar. Tampouco esconder a fragilidade contida no interior da carcaça. Fragilidade que quando as pálpebras selam e o sol se põe, sai saltitando âmago a fora, e aflora! Tinhosa, como aquela flor que só floresce no anoitecer, enquanto o repouso pousa nos peitos, nus, dos seus admiradores. Por isso, só os boêmios conseguem mirar sua beleza. E cambaleando encontram repouso no colo de alguém, até morrerem de amor – sem paz alguma.


Fico em pé e com passos curtos tomo postura. Dou as costas e sigo meu caminho com imensa gastura, pois dei as costas para a certeza do querer. “Quero provar esse falso gozo!”. Nem que isso me faça mais uma cega cambaleante, amante, dessas que cessam somente ao repousar no colo de alguém; para então, enfim, morrer de amor.


Mas ainda estou vivíssima e hoje não dormirei sozinha. Hercule Poirot me espera, boa noite.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pete Molinari: All Over Now Baby Blue?

Há pouco um amigo me mandou “It's All Over Now Baby Blue” na versão do Morrison - coisa que ele já fez ano passado, e agora repetiu, sabe-se lá o porquê. Basta ouví-la para na hora me lembrar do Dylan. Me dê mais uns segundos, então me lembrei de outro presente enviado pelo mesmo amigo : Pete Molinari. Ah, inevitável ouvir esse guri sem associá-lo no ato a Bob Dylan, e até delirar interrogações do tipo: “reencarnação?”.

Pete tem dois álbuns, o primeiro lançado em 2006, chamado "Walking of The Map", foi gravado numa cozinha, com um gravador de dois canais. O último, lançado ano passado, intitulado "A Virtual Landslide", teve estúdio, bandinha e afins. É daqueles álbuns leves, desses em que as músicas soam maciamente até a última faixa. Quando “Lest We Forget” termina, você nem se dá conta de que o álbum chegou ao fim, então dá play na primeira música e deixa “I Came Out Of The Wilderness” amansar o terreno para as próximas canções – de novo, de novo e de novo. Aliás, este álbum é recheado de músicas para mulher. É, tem música para uma tal de Adelaine, Louise, Angeline, e por ai vai. Esse inglesinho que canta folk para americano algum por defeito, mostra para Baby Blue que nem tudo acabou!


Quer ver/ouvir o Pete num vídeo amador, interpretando a chorosinha Sweet Louise? Clica aqui ó.






segunda-feira, 3 de agosto de 2009

The last time I saw Renato?

Quando Joni Mitchell escreveu “The last time I saw Richard”, deve ter se inspirado em algum amigo ou em algum dos seus romances frustrados. Sim, pois somente quando os personagens são reais é que a história se torna envolvente, instigante. Falar de dores, de gente que sofre, ama (sofre), gente de carne e osso, com tendências a loucura e a suicídio. Voilà! Eis os pesares da vida real, quando tudo é traição. A questão é que Renato Russo era fã da loirinha, e assim como ela cantou os versos de The last time I saw Richard como se fossem tapas na cara, daqueles que se propõe a ouví-los com atenção. Todos aqui somos o Richard. Somos, ou fomos, ou seremos algum dia. “Todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia. Cínicos e bêbados, chateando alguém em algum café escuro”. É verdade Joni, cafeína desce pela garganta, abraça o coração na tentativa, inútil, de arrancar com as unhas o inquilino denominado Amor. “Only a phase, these dark cafe days”. É só uma fase, diz ela. Até que a borboleta sai da crisálida, para em seguida entrar em outra mais escura ainda. O Renato já cantou a mesma coisa em “Metal Contra as Nuvens”, da Legião: “tudo passa, tudo passará”. Aliás, os onze minutos mais bem gastos da minha vida foram aqueles da primeira vez em que ouvi Metal Contra as Nuvens. Mas isso pouco importa. A questão é: quando Joni Mitchell escreveu The last time I saw Richard, cometeu um equívoco: Richard deveria se chamar Renato.


Quer ver/ouvir o Renato interpretando
The last time I saw Richard? Clica aqui ó.


domingo, 2 de agosto de 2009

Carta ao dono do Preto

“Todo homem precisa de uma mulher que goste de cozinhar e que acredite em Deus”. A frase tinha gosto de café, e veio no meio de uma divagação freudiana de bons amigos. Ele é músico, vagabundo e maluco. Mora com um gato preto e divide o aluguel com um piano e com um quadro falso da Monalisa, que pagam barato para dormir na sala apertada. Não vamos falar muito dela. Basta apenas, por hora, saber que ela não gosta daquele gato, que além de feio a olha como se fosse devorá-la. “Tenho a impressão de que a qualquer momento o Preto – esse é o nome do gato, bem sugestivo por sinal – vai pular no meu colo e fazer pose para uma foto com a sua mais nova presa nos dentes”, foi o que ela me confessou minutos atrás. Acontece que ele tem um álbum de fotografias só do Preto com as suas presas, é quase um book que ele mostra para as visitas todo orgulhoso dizendo: “toda vez que ele caça, ele volta pra casa fazendo um barulho assim gruuuuuuuuuuuuur”. Do piano ela gosta – principalmente da forma com que ele a desconserta em meio as notas nos seus sutis concertos. Da falsa Monalisa também – embora ele já tenha estado no Louvre e cogitado na sua mente insana a hipótese de roubar a original. Dia desses, no meio de uma bebedeira, ele disse a ela com um sorriso safado: “sua mãe é tão bonita como você?”. Ele nem deve lembrar, só lembra do que está entulhado nos seus armários e nos seus álbuns. Ele faz um bom café e sofre por amar demais, assim como ela. “Um dia tudo isso vai passar”, dizem um ao outro. Eu os ouço, e me assusto por gostar de ouví-los. Fico calada, ainda não despi minhas cicatrizes para eles, mas farei na próxima xícara de café. Eles ainda não sabem, mas ele vai embora para Paris, tocar suas músicas nos metrôs. Ela vai embora para qualquer lugar longe daqui, escrever para ninguém ler. Admito, ele é o tipo de cara por quem ela se apaixonaria caso tivesse o conhecido há uns dois anos atrás. Hoje seria impossível tê-lo de outra forma que não a atual: bons amigos. Ela não gosta de cozinhar, tampouco tem fé em algo que não seja ela mesma. E não gostaria de acordar semi-nua e dar de cara com aquele gato na porta da cozinha, miando bom dia.

sábado, 1 de agosto de 2009

En rachâchant: Tributo a Margarite Duras



“En rachâchant” é um curta-metragem francês lançado em 1982, baseado em um conto de Margarite Duras. O enredo de “Ah! Ernesto”, escrito pela autora de “O amante” em 1971, conduziu o rumo das lentes do casal de diretores Danièle Huillet e Jean-Marie Straub a uma crítica ao sistema de ensino arbitrário e conservador.  

Eis a versatilidade de Margarite Duras. Desta vez, o conflito começa quando um menino não quer ir à escola, pois lá ensinam coisas que ele não compreende. Esse é um cotidiano familiar comum: em uma conversa com os pais, o menino canta docemente o seu problema. De repente, a cena é transferida para uma sala de aula onde a família se une ao professor – figura que, a priori, parece calmo, mas logo se revela impetuoso diante da questão proposta pela criança.

Já me deparei com a mesma crítica feita por Margarite e pelo curta “En rachâchant” no livro de Pierre Bourdieu intitulado “A Reprodução”, e até mesmo nos trechos de “Another Brick in the Wall”, canção do Pink Floyd – “Hey! Teachers! Leave those kids alone!”. Não foi ao acaso que Danièle Huillet e Jean-Marie Straub escolheram filmar “En rachâchant”, pois esta é daquelas produções incomuns perante aos tradicionais filmes com vistas mercadológicas. E, sobretudo, é mais uma oportunidade de repensarmos a nossa educação.

Saiba mais sobre a carreira de Danièle Huillet: http://www.contracampo.com.br/84/arthomenagemadanielehuillet.htm
 


En rachâchant :

quinta-feira, 16 de julho de 2009

50 anos sem “o fruto estranho”

A cor do jazz é negra.





Há 50 anos morria aquela que cantava amor e fome como ninguém: Billie Holiday. Graças a uma voz inesquecível – que quando ouvida era capaz de tecer emoções e arrancar lágrimas – a negra que na infância passou fome e foi estuprada, abandonou o nome de batismo “Eleanor Fagan Gough”, para se consagrar como a “Lady Day do Jazz”. Dor e fama, essas duas palavras deveriam ter sido gravadas em seu epitáfio naquele 17 de julho de 1959. Billie Holliday morreu às três horas da manhã, presa a uma cama de hospital – por aparelhos e por algemas – sem poder ouvir música, nem comer chocolate, usar o telefone, e com 750 dólares escondidos na vagina.


Quando ouço Billie Holiday penso que se o jazz tivesse uma cor, essa cor seria negra. Billie era dona de uma voz rouca, desconcertante. Quando cantava, ela escarrava a dor de cada um por meio de suas canções. Essa voz inconfundível moldou a mais comovente cantora de jazz de uma época. Mas sua vida esteve longe de ser qualquer outra coisa se não um amargo mártir, um “fruto estranho”.

Ela era pobre. E pior, era negra. Ser pobre e negra na década de 1920, em uma cidade de ricos-brancos como Baltimore, em Nova Iorque, definitivamente era estar na merda. Ainda mais se você é filha de dois adolescentes: sua mãe é uma humilde faxineira e se seu pai, pseudo-músico-frustrado, esqueceu que a adolescência um dia acaba, e resolveu sair por ai na tentativa de ser um star. E já que você tem uma vida fodida, o jeito é procurar emprego, quando ainda se está na idade de brincar de boneca. Então ela foi babá, garota de recados, faxineira de bordel e afins. E como faxineira de bordel, com 10 anos, ela foi estuprada. Me dê mais quatro anos, e ela havia caído na prostituição.

O encontro com o microfone foi ocasionado pela fome de viver. O fato é que ela e a mãe estavam prestes a serem despejadas. A ainda Eleanor saiu à procura de algum dinheiro, até chegar a uma boate. Ela não queria mais ser faxineira, muito menos prostituta. Dançarina talvez? Em vão, ela era um fiasco dançando! Então, o dono do lugar perguntou, “menina, você sabe cantar?”. A pergunta foi o parto para Billie Holiday, que nascia naquele instante. O ano era 1930, e dali ela passou a cantar em bares e boates, até que começou a excursionar com uma orquestra, e só parou de cantar no ano em que morreu. O resto não caberia aqui(...).

É difícil falar em Billie Holiday. Difícil, ainda, é falar nela sem falar em Lester Young, o saxofonista que foi fundamental para o seu estilo musical e que acompanhou a cantora durante quase toda sua carreira. Curioso ou não, mas Lester morreu em 1959, também às três horas da manhã. Uns dizem que foi naquela madrugada de março, com a morte do amigo, que o fim de Billie a agarrou.

Em canções como a polêmica “Strange Fruit” ela cantou o racismo. Em outras tantas o desamor. Antes de morrer ela já havia chegado ao inferno, guiada pelas bebidas e pelas drogas. Seu fim foi assim: com 44 anos, há 44 dias internada, em meio a uma parafernália de aparelhos, algemada a uma cama de hospital acusada de posse de narcóticos. Billie Holiday morreu sozinha. Minto, haviam dois guardas postados à porta do seu quarto. Num momento póstumo, sua enfermeira encontrou 15 notas de 50 dólares enroladas com fita durex na sua vagina. Se alguma música tivesse embalado o adeus de Billie, deveria ter sido “Non Je Ne Regrette Rien" da Edith Piaf. A francesa com nome de pássaro assim como tantas outras, teve Billie como referencia, bem como, um final ocasionado por ela mesma. Mas as duas continuam voando por ai, e aqui.


Ouça: Lady in Santin (1958)

Tem um samba antigo que diz assim “se eu parar pra cantar tristeza, meu tempo aqui não chega”. Billie foi o avesso. Cantando tristeza, “com uma gota de sangue a cada canção”, ela cantou até o fim. E em Lady In Satin (1958), seu penúltimo disco gravado em estúdio, a tristeza foi cantada nas 11 faixas, com uma maestria digna somente dela, que neste disco esteve acompanhada pela orquestra de Ray Ellis.

O disco é o amontoado de cicatrizes ocasionadas pelo amor, que Billie herdou em vida e pôs diante de ventilador em forma de canções. Quem ai é capaz de apanhar no ar cada uma delas, sem cambalear? Lady in Satin traz a voz de Billie debilitada pela bebida e pelas drogas, mas não menos apaixonante. A cada canção, sua voz soa mil vezes mais rasgante – e a cada faixa vai rasgando o coração daqueles que entram apenas com os tímpanos. Essa é a sensação lançada na primeira música do álbum, “I'm a Fool to Want You” de Frank Sinatra. Sensação que se estende nas demais.

Depois de ouvir Lady in Santin, você percebe que, se de um lado existem aqueles que dizem ter em si “todos os sonhos do mundo”, Billie, aparentemente, carregou todas a dores do mundo nas costas. E o resultado resume-se em uma única palavra: emoção. Quando “I'll Be Around” termina, fica no peito um vazio. Vazio de quem, quando comparada com Billie Holiday, ainda nada viveu.



Billie Holiday interpreta Strange Fruit:


Strange Fruit é datada de 1939, e abalou as pessoas da época. O “fruto estranho das árvores do sul” da música, nada mais é que o corpo de um negro linchado e enforcado. “Sangue nas folhas e sangue nas raízes. Corpos negros balançando na brisa do sul. Frutas estranhas penduradas nos álamos”. A música foi censurada e vetada de tocar nas rádios.


Você conhece a Tiê?

Ah, a moça que canta a música da bailarina?



Às vezes, num tropeço, dou por mim com descobertas que fazem com o que o dia valha demasiado a pena. E a descoberta desse pássaro fez com que a calmaria pairasse por muitos dos meus dias. Tiê tem lá seus 27 anos de idade, e canta o amor de forma inteligente. Seu primeiro álbum, chamado “Sweet Jardim”, foi lançado neste ano e a tornou uma revelação no cenário independente da música brasileira. Repleto de composições próprias, o álbum pode ser considerado uma produção folk, onde violão e teclado – de mãos dadas com uma voz doce cantando letras ternas – tomam a frente e dão vida a arranjos e a melodias sutis, que acalmam e acalentam. “Assinado eu” vem fazendo parte dos meus dias. “Passado o passado, acho que eu mesma esqueci o tom”. Como disse um amigo meu, que teve a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, “Tiê é daquelas mulheres que passam e você não tira o olhos dela”. Ouço o “jardim doce” de Tiê e chego a crer que suas histórias são minhas, e penso: “Meu Deus, quanto amor!!!”. Ela é assim, apaixonante. Ouça e tente não se apaixonar por ela.


Baixe Sweet Jardim aqui

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Mural

São vários rostos junto ao meu olhar tristonho. São cinco mortos, dividindo espaço com outras dúzias de rostos que eu mesma já tratei de enterrar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

08h28min

Desabafo

Domingo ele lançou sobre mim detalhes do seu dia, das peripécias da sua rotina. Disse docilmente que ficou em casa o dia todo por causa da chuva, se entorpecendo de café. E todos os dias ele faz isso. Ditos que vêm sem que eu solicite. Quer tanto saber de mim.
Quero a sua opinião bem sincera. Quero a sua por você o conhecer tão bem. Por já ter estado nos braços dele. E também porque a sua amiga já esteve. E agora, veja só, sou eu quem está. Afinal, sabemos como ele leva a vida intensamente. Por isso, só por isso, não me deixo levar. Tento não me apegar.

Conselho torto

Você está agindo certo. Não por ser ele, mas mesmo se fosse qualquer um e a situação fosse a mesma: é sempre bom ter cautela. Mas cautela não quer dizer "não viva". Eu queria muito te dizer: apaixone-se, permita-se!!! Talvez fosse o mais correto. Mas eu tenho medo, muito medo. Por isso, eu acredito que tu deve se manter assim, pelo menos por hora. Deixa as coisas seguirem o rumo do rio. No final a correnteza se encarrega de guiar os fatos para a costa mais terna. Mesmo que, para isso, seja preciso se debater em rochedos e vitimar algumas feridas.



Eis a viciosa e tortuosa repetição: Doravaaaaaaante Nietzsche!!!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

↕ Elogio da loucura

Paulo, o filho mais velho de Ferreira Gullar, é esquizofrênico – doença que o seu irmão mais novo também possuía. Certa vez, ao recém sair de uma crise, resolveu por bem observar o vento. Então disse ao pai que “o vento no rosto é sonho”. Ele perguntou se o pai sabia disso. Provavelmente não sabia, mas aprendeu. Aprendeu e fez um poema desse episódio.

Dias dezessetes me soam graves. Hoje, enquanto andava pela rua vazia, senti um vento cortante no rosto e lembrei dessa frase “ o vento no rosto é sonho”. Eu não sabia disso, mas aprendi. Da mesma forma que, já faz um bom tempo, aprendi o quanto a poesia de Ferreira Gullar é boa, intima. O aprendizado veio de presente, das mãos mais lindas que já vi. O livro veio, por obrigação; depois a desolação.

Eu confesso, nos dias de inverno permito afoita que ele me beije. Ele é insano, me beija e beija a todos. Depois segue sozinho, como eu. Hoje, por um instante, achei que Paulo tivesse razão, “sim, o vento no rosto é sonho!”.

Toda manhã pela rua enquanto eu passo, meço a angustia que repousa leve, no orvalho das folhas verdes e brancas. Piso macio para que ela não desperte e não pouse densa no meu dia. Grito calada: “não sou daqui!!!”. Ninguém ouve. Então sinto o vento, o beijo mais uma vez, e percebo que somente “a loucura deve ser elogiada”. A minha, a sua, a de Paulo, a de Erasmo.

Mas louco é quem me diz que não é feliz. Eu sou! Paulo é! Erasmo era!