sábado, 10 de outubro de 2009

João de Paula, o registro da vida com imagem e poesia há 50 anos

Quando a fotografia alimenta a alma
-->
“A inspiração gira por aí. De repente ela passa perto de você como se fosse uma borboleta: se você pegar pegou, senão ela vai embora”. A frase é do fotógrafo e poeta João Maria Alves de Paula, artista que sempre buscou inspiração na natureza e andou com a câmera fotográfica pendurada pela alça no pescoço, registrando momentos únicos, alegrias e tristezas, por mais de 50 anos.
João de Paula nasceu em 13 de julho de 1935, em Lagoa Vermelha, no interior do Rio Grande do Sul. Em 1954, o jovem com então 19 anos, descobriu a fotografia no exército e lá mesmo começou a tirar e a vender as primeiras imagens capturadas por uma objetiva. Ao sair do quartel, em 1955, João fez um curso por correspondência e aprendeu suas primeiras técnicas fotográficas. Mas aprender a fotografar de forma quase autodidata gerou alguns episódios curiosos: “fotografei um filme inteiro, abri a máquina, tirei o filme e olhei contra a luz para ver como as fotografias haviam ficado... imagine! Claro, queimei o filme inteiro”, risos.
Chegada em Pato Branco
Os livros pelas estantes de sua casa e a máquina de escrever empoeirada dividem espaço com as centenas de fotografias que compõem um cenário nostálgico. Ali, João de Paula digita seus poemas e através de suas fotografias relembra a sua e a história de Pato Branco. Tendo como companheira uma memória que não falha, João lembra com exatidão o dia em que chegou na cidade e as dificuldades dignas de todo início de vida nova: “ cheguei aqui no dia 15 de fevereiro de 1965, e me instalei muito mal. Achava que ao chegar aqui eu já ganharia dinheiro. Que ganhar dinheiro coisa nenhuma! Foi passando o tempo e tive que vender até minha máquina para poder sobreviver”, recorda.
A ajuda veio literalmente do céu! Foi a nevasca que atingiu a cidade de Pato Branco em 1965 a responsável pela ascensão profissional de João de Paula. Na época, ninguém na cidade sabia fotografar neve, inclusive ele. Mas ao ver pela janela o chão tomado pelo tapete branco, João correu para seus livros e encontrou o que precisava: “Li que para fotografar neve o obturador deveria estar regulado na velocidade 250 e o diafragma na abertura 11. Após regular a minha máquina, regulei outra, a de um Frei que era muito meu amigo. Ele ficou desconfiado porque o diafragma estava muito fechado, não entendia que embora o céu estivesse escuro, a neve refletia a luz, por isso, ao deixar o diafragma aberto as fotografias estouravam”, explica. “Eu vendi tanta fotografia naquele dia que sai do anonimato. Até então eu era o João, o João – Ninguém. Depois daquele momento eu fiquei conhecido, ai não me faltou mais trabalho, até agora que resolvi parar de fotografar”.
O cotidiano pato-branquense em cada clique
Com a objetiva voltada sempre para os detalhes, João de Paula conseguiu registrar fatos curiosos e históricos de Pato Branco, pois como fotógrafo vivenciou várias faces da profissão, atuando do foto-jornalismo até à fotografia artística.
Uma das fotos mais conhecidas de João de Paula é aquela que registra o momento exato em que um raio atingiu a cruz da torre da Igreja Matriz São Pedro Apóstolo. Toda tempestade que se aproximava, João, que na época morava nas proximidades da Igreja Matriz, colocava sua máquina no tripé e ficava na janela da cozinha esperando o raio. “Quando consegui a foto eu quase caí de costas no chão, foi um susto tremendo. Eu fiquei eufórico para ver o resultado na manhã seguinte, tanto que naquela noite quase não dormi. No outro dia, quando revelaram o filme, eu tive na mão uma fotografia sensacional”.
Para a professora e historiadora Néri França Fornari Bocchesi, a história de Pato Branco foi registrada graças às lentes de João de Paula. “O João é uma figura importante em Pato Branco, porque ele não é um fotografo comum, ele enxerga aquele pormenor que o outro não vê e isso o diferencia dos demais. E, como ele registrou o cotidiano de Pato Branco por 50 anos, consequentemente registrou a nossa história”, frisa Neri.
Quando cliques viram versos
Outra face artística de João de Paula é a poesia. O fotógrafo desenvolveu uma facilidade curiosa em associar poesia com fotografia, pois passou a criar poemas baseados nos cenários de suas fotografias. E foi justamente para o aniversário de 15 anos de Pato Branco que João fez seu primeiro poema para homenagear a cidade.
“Ele é uma pessoa de uma sensibilidade muito grande, porque além de fotografo ele é poeta. Esses são apenas algun, de uma série de dons que ele tem”, ressalta a professora Néri, que foi a responsável pelo ingresso de João na Academia Patobranquense de Letras.
Traços do tempo
“O que é a natureza da gente? O que o mundo e o que o tempo fazem com a gente?”, me pergunta João de Paula. A resposta não veio. Há cerca de quatro anos, João de Paula, aos 75 anos, resolveu se aposentar. Atualmente, vive com sua esposa, seus livros, suas fotografias e com as abelhas que começou a criar no quintal da casa longe do centro da cidade. “A gente fica velho, não suporta mais música alta, agitação, barulho de criança, correria. Então resolvi para Não tenho mais o mesmo pique de outros tempos, como quando eu passava a noite toda acordado em pé numa festa fotografando, por exemplo”, revela.
João, que não se rendeu à fotografia digital, trabalhou sempre com câmeras analógicas, passando, às vezes, horas para revelar uma foto. “Eu me sentia emocionado toda vez que a imagem começava a surgir na minha frente na hora da revelação”, lembra.
Além de diversas premiações nacionais, ele tem fotografias aceitas em exposições internacionais, em países como Chile, Costa Rica, Itália e República Tcheca. E, embora sua trajetória artística seja longa e composta por vários prêmios, João de Paula também já sofreu com a falta de reconhecimento, realidade digna de tantos outros artistas locais. Atualmente, suas exposições, tão raras, dificilmente chamam a atenção da população, que normalmente se volta a outros tipos de lazeres. “A cidade de Pato Branco até agora não valorizou a grande figura humana e a grande figura artística que é o João de Paula”, desabafa Neri.
E o que a fotografia pode representar para um homem que por 50 anos, registrou ângulos da vida real com imagem e poesia? “A fotografia me deu duas coisas: me alimentou o corpo e a alma, ou seja, foi tudo para mim!”. Quando o ponto dessa frase foi desenhado no papel, agradecimentos foram dados, o bloco e a caneta devidamente guardados. Ao me despedir, dei as costas à nostalgia e a um homem grisalho, parado no portão da sua casa, com lágrimas nos olhos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Interrogação

Olhos expressivos, poses compostas, detalhes visíveis, traços modestos, porém, marcantes. Pode ser um grão de areia ou uma folha seca de outono repousando no chão. Seus improvisos são acompanhados pelo seu incauto e pela sua enorme distração. Mesmo sendo uma incógnita adora achar respostas. Seu fascínio pelo escondido e pelo irreal têm a função de uma ponte. Esta que a conduz para o seu encanto pela aquarela de uma quimera, pincelada por mitos e deuses que a assanhavam quando criança - que volte e meia vêm para um chá. Uma meiguice enjoativa remando na pureza de um rio poluído. Sua existência pode ter sido um pecado prazeroso, sem gozo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Diálogo avesso

- Você tem que entender que eu não sou eterna.

- Eu sei, mamãe. Lutar pela sua eternidade, ou pelo “para sempre” das coisas, é uma guerra que eu nunca quis para mim. Prefiro uma realidade triste, que a tolice de uma esperança falsa.

domingo, 20 de setembro de 2009

Duas versões sem versos

I


Você tem a alma de um passarinho e eu falo com gatos. Eu sonho contigo, sonho que acordo do seu lado. No sonho, você me olha com ternura e diz “o que foi?”. Então eu acordo e você não está aqui. Mas você já ouviu essa história, atenta. Esperei uma resposta, mas seus lábios não disseram nada. Você baixou os olhos, ficou olhando para a xícara e depois rio um riso abafado. Queria poder te ver todos os dias, ter coisas interessantes para te dizer. Ao menos eu te faço sorrir. Fico imaginando mil e uma formas de chegar em você, mas me falta coragem.


Queria não ser tão covarde.


II


Se a morada da alma é o peito, então o meu peito tem como inquilina a alma de um pássaro. É, eu tenho no peito a alma de um pássaro e você fala com gatos. Se a alma morar no coração, a minha estará ao relento, pois dúzias de sonhos tomam meu coração por inteiro. Por isso, não queira ficar, guarde esse amor e não prenda a minha alma de passarinho. Eu só quero o seu café. Ouvir suas histórias e reparar no desenho da sua boca. Ficar horas sentada diante de ti, procurando a ilusão que mora no fundo de cada xícara vazia, e nada mais.


Queria não ser tão covarde.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Entre chuteiras e bengalas

A posição de ter que torcer por algum time foi mais uma das quais anulei na infância. Tal opção perdura até hoje e creio que assim continuará - e os motivos não cabem aqui. O Brasil é o país do futebol e dos times idosos: hoje, dia 16 de setembro, o Grêmio faz 106 anos; no dia 12 de outubro, o Coritiba irá comemorar o seu centenário. Vale postar essa matéria que fiz para os 95 anos do Palmeiras, comemorados em agosto desse ano. Aqui ficam os meus parabéns, aos senhores de bengalas.



Posso perder minha mulher minha mãe desde que eu tenha o meu

PALMEIRAS!


Quando Arnaldo Batista, Sérgio Dias e Rita Lee escreveram e musicaram os versos de “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha o Meu Rock And Roll”, certamente não imaginaram que a frase viria a calhar no meio de uma entrevista sobre times de futebol e, ainda, que o Rock and Roll em questão daria lugar para o Palmeiras. Tal adaptação pode parecer sandice, ou até mesmo injuria para alguns. Mas assim como existem aqueles apaixonados por música, há aqueles apaixonados por literatura, dança, teatro, cinema e futebol – nada fora do comum, ainda mais quando se vive num país intitulado como sendo “o país do futebol”. É a pluralidade cultural que bate a porta; aceitá-la e convidá-la para entrar é fundamental para viver em harmonia: voála, eis a receita para viver em sociedade.


Por trás dos óculos e do ar sério está um jovem “apaixonado pelo Palmeiras”, como ele próprio se define. Vinicius Augusto Muceno é apenas mais um entre tantos jovens brasileiros que trazem no peito a paixão por algum time de futebol desde a infância. Ele, que tem 24 anos, torce pelo Palmeiras desde 1992: “quando eu tinha sete anos, passei a torcer pelo time ao assistir uma partida contra o Vitória”, conta. Mas foi no ano seguinte que a paixão começou. “Em 1993 o Palmeiras conquistou pela segunda vez o Campeonato Paulista e, também, o Brasileirão, com jogadores como Edmundo, Edílson, Evair, Zinho e Vanderlei Luxemburgo como técnico”, justifica Vinicius, todo orgulhoso.


Por que o Palmeiras?


“A principal característica do Palmeiras é a raça, pois ele é um time que não se entrega fácil”. É por essas e outras que Vinicius escolheu o time paulistano para torcer. E quando indagado sobre o motivo de não optar por um time paranaense, Vinicius tem a resposta na ponta da língua: “na época em que comecei a torcer pelo Palmeiras, ali na década de 90, os times de expressão que existiam no cenário nacional eram os dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo”, explica o torcedor paciente, para a quase-jornalista-totalmente-desentendida-de-futebol.


Nessas quase duas décadas em que torce pelo time, Vinicius destaca a semifinal da Copa Libertadores da América de 1999, como sendo a partida mais emocionante do Palmeiras. “O Palmeiras jogou contra o Corinthians, a partida foi para os pênaltis e o ‘santo’ Marcos pegou o pênalti do Marcelinho Carioca”, salienta eufórico. Na ocasião, com o placar final de 4x2, o Palmeiras se classificou para a final contra o Deportivo Cali, no qual foi Campeão da Libertadores daquele ano. “Jogar contra o Corinthians dá à partida um clima tenso. Mas vencer dele tem sempre um gosto especial”, satiriza o fiel torcedor.


O rapaz sério e um tanto tímido do início da entrevista, deu lugar a um Vinicius desbocado e sorridente, que em poucos minutos teve uma sessão gratuita de nostalgia palmeirense. No entanto, esse sorriso não veio de graça, foram necessários 95 anos de história e uma bagagem repleta de títulos para que ele tomasse o rosto de tantos outros Vinicius espalhados pelo Brasil. “Eu alugaria a minha mãe para assistir uma partida do Palmeiras”, risos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cartola, o mundo é um moinho

"A sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi mocidade perdida."

A vida clama pelos versos do Cartola:



Corra e olhe o céu
Composição: Cartola / Dalmo Casteli

Linda!
Te sinto mais bela
E fico na espera
Me sinto tão só
Mas!
O tempo que passa
Em dor maior
Bem maior...

Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia
Aaai!
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia...

Linda!
Te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só
Mas!
O tempo que passa
Em dor maior
Bem maior...

Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia
Aaai!
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Romeus e Julietas

“E eu sei que o amor é uma coisa boa”, já dizia Belchior. Se Elis concordou e cantou essa frase incontáveis vezes, eu que não vou discordar. Apenas lembro que o amor também é uma tragédia. E convenhamos, tragédias amorosas existem a pencas e nos mais variados gêneros. As terminadas em suicídio acontecem desde que Shakespeare deu vida a Romeu e Julieta, lá no século XVI. Ou, desde que incrementaram os juramentos das cerimônias de casamento com a fatídica indagação: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?". Ah ta, você não acredita que esse sermão surreal seja levado a sério? Pois acredite, vou contar duas histórias para você.


Tenho em mãos uma foto de um casal que tirou de letra o juramento-de-pé-de-altar. No retrato em preto e branco, retirado de um jornal, ambos beiram os 40 anos. Ela estampa um sorriso largo. Ele, um riso contido e um olhar sonhador, camuflado atrás de um par de lentes redondas.

O casamento do maestro britânico Edward Downes e da produtora de tevê, Joan, durou 54 anos (voála). Edward com seus 85 anos, nas costas arcadas, não conseguiria viver sem Joan, que, beirando os 74 anos, tinha um câncer terminal no fígado e no pâncreas. Nas mãos ela trazia uma receita com os dizeres: você tem poucas semanas de vida. Após se envenenarem, os dois morreram de mãos dadas.


Agora, imagine passar anos lutando contra uma doença que não é sua? E que tal encontrar inspiração para escrever um livro em homenagem àquela que motivou essa luta? Foi exatamente isso que o escritor austríaco André Gorz fez. Antes de cometer suicídio junto com a esposa, André escreveu "Carta a D. - História de um amor". O livro, como o próprio título sugere, é uma homenagem a Dorine, a companheira com quem André partilhou a vida por quase 60 anos.

Dorine foi vítima de um erro médico que ocasionou uma doença degenerativa. O casal vivia em retiro na tentativa de amenizar os efeitos da doença. O trecho a seguir, muito usado para divulgar o livro na época em que foi publicado no Brasil, salienta bem o amor de André por Dorine, e mostra docemente os traços da doença: "Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e se mantém bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu te amo mais do que nunca".

Até que, em setembro de 2007, o casal foi encontrado morto – ambos “repousavam”, um ao lado do outro. “Nós dissemos com freqüência que, se por um absurdo tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos". E assim foi.


Quando penso nesses dois casais fico oca. Uma brancura infinita toma a minha mente, feito a cegueira leitosa do Saramago. É como se um leque fosse aberto diante de mim, lançando impressões no meu rosto; elas estão na palma da minha mão, mas eu não consigo segura-las, pois elas dançam, se multiplicam feito uma praga e fogem do meu alcance a cada abrir e fechar do leque. A cada uma compete a missão de zombar de mim, ao som de curtas risadas. Opa, delirei.

Delírios a parte, encaremos os fatos: o amor é responsável não por todas as mortes, mas sim pelas mais belas – a morte pode ser bonita. E enquanto houver a morte, haverá o amor, que continuará cometendo constantes homicídios e suicídios. Afinal, quantas vezes você já matou e morreu por amor? Quando se permite amar, todos têm uma alma felina e bem mais que sete vidas. Eis o “amor fati”.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Paranoia

Isso não vai passar, vai ser sempre assim. Sofro de lucidez crônica, por isso navego numa busca constante. Busco pra continuar viva. "Sete horas da manhã, levanta e vai buscar a conquista do dia", é o mantra que recito calada todas as manhãs, exceto aos domingos e nos feriados - domingos e feriados foram feitos para o ócio, e o ócio não merece maquiagem, tampouco buscas incessantes. Buscar o quê? E depois que eu alcançar o que tanto busco? Continuo buscando. Dia desses leram minha mão e, numa quiromancia menos leiga que a minha, disseram num sotaque nordestino, sem nenhuma sutileza: “isso não vai passar, vai ser sempre assim”. Então me aquietei. É, em vez de entrar em desespero, fiquei tranquila. Verdades as vezes vêm com tapas na cara, mas depois trazem um calorzinho digno de dias mornos, mesmo que no céu não haja sol. O sofrimento é opcional. Houve um tempo que essa minha lucidez tinha um caráter paranoico. Essa paranoia brotava sem cerimônia pelos meus poros - principalmente em periodos de mudanças hormonais dignos de todo mês. A paranoia foi embora e deixou a consciência critica. Desde então, não durmo. É uma consciência critica que não me deixa dormir. Explico: Eu, aquela do nome ruim, sofro de lucidez crônica, logo, sofro de insônia. Por favor, não confundam minha lucidez com paranoia.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Por que brasileiro faz folk mas não faz pop?

Sou apaixonada por MPB. Aqui no Brasil tivemos bons intérpretes e bons compositores, principalmente em meados dos anos 60, como pôde ser visto a partir dos Festivais de Música Popular Brasileira. Mas nada como um bom compositor que também é um bom musico; o conjunto da obra. Foi justamente por isso que em 1967, o terceiro festival passou a permitir que os próprios compositores interpretassem as suas músicas – antes disso, os interpretes não podiam cantar composições próprias. Mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – surgiu no Brasil antes dos festivais, pois eles começaram a despontar lá em meados dos anos 50, com a efervescência da Bossa Nova. Mas não vamos entrar numa discussão mais apurada sobre – outro dia sim, hoje não.


Hoje no Brasil tem gente interpretando e compondo MPB ainda (belissimamente, diga-se de passagem), enquanto o samba aparece com pouca representatividade e clama os tempos do Cartola. E tem até gente tentando fazer folk. Rock e afins tem às pencas. Em contra partida, aqui não existem artistas pops ( tem os que acreditam ser, revelados em programas de televisão, e que aprendem a produzir torturas auditivas, mas esses não contam). Tirando raras exceções (como, por exemplo, o Lulu Santos, que se não fosse brasileiro talvez tivesse sido celebridade mundial do gênero), por que é que brasileiro não sabe fazer música REALMENTE pop? Não sei.


Ai ouço Paulinho Moska, e fico na duvida se ele é pop ou MPB. Meu inconsciente diz: ele é foda, então pode ser as duas coisas. E ele é isso: o casamento do pop com a MPB. Lindo.

Acho que pra quem nunca o ouviu antes (e não pensem que ele é guri, pois já tem lá seus 40 anos), deve começar pelo álbum + Novo de Novo (2007). Baixe a parte I aqui ó, e a parte II aqui ó. Depois corra atrás da discografia dele, porque vale a pena.


Repetindo: mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – é de certo modo “raro”. Principalmente depois dos mestres da década de 50 e 60. Dessa “nova geração”, iniciada ali na metade da década de 80, até meados da 90, só me encantei realmente (numa seleção masculina) por Renato Russo, Zeca Baleiro e Paulinho Moska. Agora a trupe ganha mais um integrante, Fernando Anitelli e seu rosto de palhaço.


Opa, tem assunto ai pra um mês inteiro, me calei.

sábado, 15 de agosto de 2009

O Woodstock agora é quarentão

Durmo e acordo com alguns nomes que se apresentaram naquele agosto de 1969. Seus rostos estão grudados nas paredes do meu quarto, e o tempo todo olham para mim. Janis, neste momento, está gargalhando. Ela nunca deixa de sorrir.

Fiquei me programando para escrever algo bacana hoje, mas vou falhar. Todos aqui sabem o que foi o Woodstock, que foi o maior festival de roque já feito blábláblá, o manifesto de uma geração que precisava fazer barulho, chutar o balde e deixar a sociedade conservadora da época boquiaberta. E que para isso reuniu, entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, centenas e centenas de pessoas em uma fazendola. Lá, essas pessoas fumaram maconha e assistiram aqueles que eram, ou viriam a ser, ícones do rock' n roll. É, Creedence, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joan Baez, Joe Cocker, John Sebastian, Santana, The Band e The Who, foram alguns dos que subiram ao palco. É fato que outros bons também recusaram o convite de se apresentar (Led Zeppelin, Frank Zappa, The Beatles, Joni Mitchel, The Doors, e...), mas não vamos nos delongar aqui.


“Por que outros festivais não alcançaram a grandiosidade do Woodstock em relação a sua importância no cenário mundial?” Hahaha meu filho, você já deveria saber que a história funciona assim: esteja na época certa e aconteça! Mil novecentos e sessenta e nove: o contexto cultural era o mais oportuno (e a intenção era boa). Então o resultado não poderia ser diferente. Me diga uma coisa, com franqueza: seus amiguinhos, é, esses que hoje beiram os 17, 20 anos, que mal conseguem manter uma barba bonita, teriam coragem de saírem na rua para protestarem contra algo? “Que algo?”. Ué, por qualquer coisa que não esteja nos trâmites. Vai dizer que não tem nada errado? Vamos lá, pense um bocado. Tá, vou te dar o clichezão do Brasil: Corrupção. Você e seus amigos já cogitaram a hipótese de organizar algo a fim de protestar contra a corrupção no nosso senado? Não? Ah, por que não? Por que só quem protesta aqui é sem terra? Por que a ditadura de 68 te deixou traumatizado foi? Hum, tadinho. A resposta: somos frutos da geração coca-cola, acuados e omissos.


Voltando a uma frase que citei dois parágrafos a cima: “Todos aqui sabem o que foi o Woodstock...”. Sabem MESMO? A impressão que eu tenho é que tudo é sempre deturpado. Fico pensando se todos aqueles que subiram naquele palco tinham realmente noção do que estava acontecendo ali. E aquelas pessoas que lá estavam? Ou tudo foi somente “mulheres nuas pra cima e pra baixo e gente chapada cantando”? Ou aquela era “a grande chance” de fazer sucesso, e mais nada? (claro). Realmente, não faço apologia a nada, tampouco condeno caso tenha sido assim. O problema é o culto que insistem em fazer em volta de tudo isso. Eu mesma já fiz e já levei puxões de orelha por isso. Acordei.


Eu diria que o Woodstock foi o ápice do que veio sendo feito desde 1967, não tem como negar. A morte do Che Guevara em 67, os movimentos estudantis em 68, a guerra do Vietnã que na época gerava cada vez mais vítimas, e, por fim, o Woodstock – que nada mais é do que uma cria da efervescência de 1968, o grito de misericórdia. De fato, o festival foi um hino, cantado, escarrado por centenas de pessoas. Mas eu me pergunto: o que realmente diziam esses gritos? “Mas ah, foi a ruptura, a conquista feminina”. A ruptura, a conquista, ou a vulgarização da imagem da mulher? Vocês queriam ganhar direitos ou fama de vadias?


Tantos autores afirmam que os manifestos de 1968, e o que aconteceu posteriormente a ele, não resultaram em nada de extraordinário, que as mudanças seriam inevitáveis, que aconteceriam de toda forma – que paz e que amor?. E mais, que as pessoas nem sabiam pelo o que estavam lutando. Dois filmes que retratam o que estou tentado falar são: The Dreamers, datado de 2003 e dirigido por Bernardo Bertolucci; e Across The Universe, musical de 2008, baseado na obra dos Beatles. Nas cenas finais de The Dreamers, jovens vão para a rua protestar sem nem fazerem ideia do que estava acontecendo. No filme Across The Universe, os personagens veem suas ideologias sendo deturpadas e, no final da trama, voltam para suas cidades, sem terem alterado nada. E essa era a realidade. Saiam as ruas, berravam, vandalizavam, a maioria sem causa alguma. Quase tudo o que se prega é fantasia. Quanto a explosão cultural, tenho a impressão que 1968 está aqui, é o hoje, que de fato aquele foi “o ano que não terminou”. É só estudar, ler as coisas certas, ter bom gosto.

Ah.


Mas quem se importa com isso? O que importa se eu vou ouvir várias vezes a mesma música durante a minha vida, e em nenhuma saberei o que de fato ela representa? Né? Né.



Agora chega a parte em que eu tenho que escolher alguém que se apresentou lá e postar um videozinho do ser aqui, né? Né. E quem eu poderia escolher? “Ah, a Janis!”. Não. Meu vislumbre por ela se foi. Gosto é da Joan Baez, pelo papel que ela teve e cultiva até hoje – Dylan dá suspirinhos agora. “Joan Baez, hã, quem?”. Será que por ela não ter se acabado antes dos 30, ela não é tão famosa e venerada como tantos outros? Hum. Prepare-se para assistir algo mais ameno, vamos dizer assim:





Boa noite, e feliz 40 anos, tio Woodstock.




quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Saudade

Hoje recebi a receita da dor dos meus pés cansados.

Dos rastros dos meus passos largos, móbiles

no céu azulado de um agosto cinza.


Que vão em par, seguindo em

soslaio com aquela que

não ganha rima.


Saudade.


Que me persegue desde menina.


domingo, 9 de agosto de 2009

Augustos

Augusto sabe que vai morrer em instantes.


O uísque desce pela garganta sem gosto. Suas mãos já não seguram mais o copo com firmeza. Verdade seja dita, Augusto vagou por uma vida inteira e nunca segurou nada com firmeza.


Apertou os lábios flácidos, fechou os olhos. A janela abriu de repente, depois de um longo tempo de escuridão. Os raios do sol invadiram seu corpo tão intensamente, rasgando sua carne, fazendo-a arder em brasa. Por isso suas pálpebras tombaram, enquanto gotejavam maciamente. Lágrimas.


Seus olhos ainda estão selados na tentativa, inútil, de evitar que as lembranças sejam vistas. Mas elas insistem em se despedir. Não que julgue sua vida um martírio, mas Augusto prefere o silêncio das tardes vazias e a ausência de lembranças vagas.


Nos últimos anos, cada vez mais Augusto precisava de menos para viver. Pensava pouco, comia pouco, dormia pouco. Se fosse mais moço, diriam que ele estava apaixonado. Mas não, Augusto não morria por amor; morreria sem a presença dele.


Ela entra no cômodo, não é feia, garanto. Augusto não a vê, mas sente seu perfume adocicado. Ele teme abrir os olhos. Sentada do seu lado, ela apenas espera.


Minutos depois, o copo rolou alguns metros pelo carpê desbotado. Lá fora, um pássaro pousa no galho de uma árvore sem folhas, pesada e envelhecida – como o antigo corpo de Augusto – saudando a aurora de um novo amanhecer de inverno.


Augusto sozinho em si mesmo, enfim, caminhava.