segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nadando contra a corrente : PARTE I

Olá pessoal! Nas minhas próximas postagens falarei sobre a música independente. Nesta matéria, que será dividida em três partes, tive o auxílio de três pares de olhos atentos (e ouvidos aguçados), cujos donos possuem uma característica em comum: saciaram a sede por novidades quando descobriram a maneira independente de fazer música. Sendo assim, eu, Noah Mera, juntamente com os músicos Giancarlo Ruffato e Leonardo Fantinel, a partir de agora contaremos um pouco sobre essa forma de fazer música que está mudando a cena musical no Brasil – e, modestamente, na região Sudoeste do Paraná. Ok, a matéria pode ser retroativa para alguns, pois já foi postada no site patobranco.net, mas como diz minha sabia consciência: "Jozi, se for para pecar, que seja pelo excesso e não pela falta!".

Nadando contra a corrente
Músicos independentes mudam a maneira de fazer e ouvir música no Brasil


Eles compõem as letras e melodias. Antes de gravarem as músicas, compram dúzias de CDs virgens e o papel para imprimir o encarte desenhado por eles. As músicas são gravadas no estúdio que antes era o quarto de hóspedes e hoje com isolamento acústico feito com caixas de ovos, hospeda guitarras, baterias, cabos, amplificadores, microfones, etc. Para vender os CDs divulgam o trabalho em sites, blogs e no “boca a boca”, tudo isso unido à criatividade e disposição na hora dos shows. Quem são eles? Eles são os músicos independentes, músicos que não estão ligados a nenhuma gravadora, que passam longe do gosto massificado e que, através de seus acordes, estão mudando a cena musical do Brasil.

As produções independentes são anteriores ao punk, mas foi no gênero que essa forma de fazer música se intensificou – no desejo de romper a cultura dominante nos Estados Unidos, na década de 1970. Há exceções, mas o punk tradicional caracteriza-se pelo uso de poucos acordes, o que auxiliou na disseminação de uma das filosofias do gênero musical, a do “faça você mesmo” (do it yourself). E o que isso interferiu na música independente? Essa filosofia punk incentivou o surgimento da música independente, pois prevê que qualquer um pode se tornar um músico, compositor ou cantor e, porque não, produzir seu próprio álbum sem o dedo das gravadoras.

Em 2004, Giancarlo Ruffato gravou sozinho o seu primeiro disco. Desde então, já foram muitas as músicas compostas e os corações partidos. O músico que nasceu em Coronel Viviva e que há quatro anos mora em Curitiba, atualmente possui uma banda independente, e usa assiduamente das possibilidades ofertadas pelas internet para divulgar o seu trabalho. “Aprender a lidar com a internet é meio como tatear no escuro, uma hora você tem de acertar alguma coisa mesmo que isso signifique rachar sua cabeça. Blogs, boca a boca, vale tudo! Mas uma boa sacada ajuda a ganhar uns pontos e encurta o caminho entre você e o público”, revela.

No ritmo verde e amarelo

As grandes gravadoras atingiram o público no Brasil a partir dos anos 1950, quando a Bossa Nova trouxe a poesia musicada para a casa dos brasileiros – principalmente através da televisão. Em seguida, na década de 1960, os Festivais de Musica Popular Brasileira revelaram grandes compositores e intérpretes nacionais, dando espaço às chamadas “canções de protesto” – que refletiam o momento político e social que o país passava na época. A televisão ajudou consideravelmente para que a MPB se tornasse o mainstream (massificada, aderida pela maioria da população) da época. Foi um período digno dos ideais de Policarpo Quaresma, em que a música brasileira passou por um processo de valorização, o que Oswald de Andrade talvez chamasse de “antropofagismo musical”.

As gravadoras se firmaram devido aos avanços técnicos, bem como pela expansão e massificação oportunizados pelos meios de comunicação, que contribuíram para solidificação de um monopólio da produção e da “preferência”, musical no país. “Acho que esse pessoal que dita as tendências acabou criando tantos rótulos e, ao mesmo tempo padronizando a música em geral, que os ouvidos das pessoas já estão começando a saturar. É aquela velha história, se você passa muito tempo fazendo determinada coisa, ou você vicia, ou você enjoa”, frisa o musico Leonardo Fantinel, 20 anos, que há pouco mais de um ano atua na cena independente de Pato Branco e junto com a sua banda enfrenta os desafios de romper velhos paradigmas.

Assim como aconteceu com a Bossa Nova e com a MPB, para a difusão de qualquer tendência, seja artística ou comportamental, os meios de comunicação exercem significativa influencia, pois são a ponte que media os produtos ao público e dita o maistrein. “A maioria esmagadora das pessoas já se deixou levar pela indústria musical”, reforça Leonardo. Contudo, nem todo mundo gosta “do que todo mundo gosta”. “No final de 1999, senti a necessidade de novidades musicais fora da grande mídia, já que a música mainstream do final dessa época não me agradava, então descobri a música independente”. Relembra Noah Mera, sócio de uma livraria da cidade e, como revela Gian que é seu amigo “é um ótimo consultor musical”.

Noah divide o consumidor em duas nuances: a apreciador e o passivo. Para ele, “o apreciador de música, este é curioso, que procura música de qualidade e que o surpreenda. Este encontra na música indie uma maneira de satisfazer esta necessidade. A postura mais passiva, do consumidor ocasional que não importa-se com a qualidade da música, um mero pretexto ou complemento em ocasiões sociais – este é o alvo das grandes gravadoras”.

O gênero independente despontou no Brasil na década de 1980, um pouco antes de Noah descobri-lo, e teve o seguinte cenário: músicos clamavam pela renovação da música brasileira, insatisfeitos com a produção em série de canções apelativas, produzida para o pronto consumo. E o protesto se deu em forma de canções. Era o início de uma nova tendência na hora de fazer música, trazida até a costa por aqueles que decidiram nadar contra a corrente.

domingo, 15 de novembro de 2009

Tête-à-tête


-->“Nos demais, todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito.
Mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração".
Maiakóvski.
Tateia os rastros deixados na areia usando a alma como bengala. Fecha os olhos para tentar enxergar lá no escuro o que antecedeu cada passo dado. Sorri. Um pouco mais de açúcar no café dessa manhã talvez amenizasse os rastros tortos às suas costas. Vento no rosto, os braços abertos como quem espera um abraço. Abraça o vazio, olha para cima, para o Mar...

O mesmo vento que a toca, guia maciamente a coluna de pássaros que enfeitam o céu cor-de-rosa do amanhecer. Então, no vazio de si mesma, precisa conversar com o Mar, ouvir uma resposta dissipar duramente no seu peito que se vestiu de rocha. Balbucia: como posso me perder agora se é ele quem me tira do escuro? Sim, no início tombei com as suas palavras, mas agora é insustentável! 

Pergunta se há alguém nesse instante vendo os mesmos pássaros, sentindo o mesmo adeus que lhe aperta o peito. A resposta não vem. Continua olhando o azul que antecede o caminho dos pássaros, até que o último foge do seu alcance. 

É da sua vocação para a ironia que zomba da vida, dos feitos e efeitos tão banais. Gargalha! Ousará permitir-se, mesmo sem saber nadar. E pela primeira vez chegar sem querer partir. E pela primeira vez “ser toda coração”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Simpatia boa é aquela que dá trabalho

Macabéa nunca havia escutado da boca alheia tantas conjeturas positivas, mas naquele dia em poucos minutos foi metralhada por um futuro bom! Tão bom que lhe deixou desorientada, vitimada por uma sensação digna do consumo demasiado de doses etílicas – e olha que ela nunca havia tido um porre. Ah, ela estava apaixonada pelo seu futuro e pelo esposo estrangeiro prometido pela cartomante falante, e de passado duvidoso, que trajada de sinceridade e pesar confessou: “acabei de ter a franqueza de dizer para aquela moça que saiu daqui que ela ia ser atropelada”. Grata pela sorte de não ter um destino doloroso como o da moça sem nome e de funeral marcado, a nordestina de Clarice Lispector, após ouvir a doce previsão, deu as costas ao passado e as mãos a morte: foi atropelada. Sim, foi realmente uma surpresa castigada pela agonia.


Mas eu não a condeno! Quem nunca sentiu uma pontinha de vontade em ter o futuro desvendado na palma da mão, numa quiromancia torta feita por uma dessas ciganas atarracadas de novela? Ou ouviu falar de uma amiga que fez uma mandinga e acabou conseguindo o amor da sua vida? E de pessoas que procuraram nas forças ocultas as respostas para os seus problemas? Ingredientes inusitados e receitas infalíveis não faltam. Vale tudo! Vela preta de sete dias, pena de galinha, cachaça, roupas íntimas e óleo de rícino. “Simpatia boa é aquela que dá trabalho”, ao menos é o que pensa uma pseudo-bruxa muito conhecida de Pato Branco. Vai saber...


O fascínio do homem por esse tipo de prática ocorre desde os primórdios e é decorrente dos mistérios e projeções de sociedades antigas, que criavam lendas ou mitos para explicar fenômenos que não compreendiam. Isso pode ser evidenciado em sociedades como a grega e a egípcia, que usavam mitos para explicar fenômenos da natureza.


Hoje a busca se dá por vários motivos, mas também é motivada pela insatisfação dosada que grita por respostas. E quando tais respostas não são encontradas no meio em que vivemos, o jeito é aderir às crenças vindas de outras culturas. Por exemplo, em algumas localidades, o fogo, a água, a terra e o vento são considerados elementos de veneração - culto que iniciou no momento em que o homem passou a andar em grupo, como pode ser visto no filme A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annaud.


Mas ai vem a deturpação... Não generalizando, mas com a popularização de algumas superstições, os valores ganharam outros significados. Devido ao comportamento massificado, intensificado na sociedade após a industrialização, essas características, que até então eram somente místicas, passaram a adquirir novos valores e significados: muitas vezes mercantilizadas, foram condicionadas de acordo com padrões culturais que cada sociedade possui.


Enfim, “feitiçaria ou charlataria”, todos sabem que superstições e simpatias não possuem fundamento científico algum. Contudo, tanto a ciência quanto as superstições surgem de hipóteses. Há quem comprove com êxito uma teoria cientifica ou que jura que conseguiu arrumar um marido em apenas sete dias. Caso queira tentar, existe uma cartomante pato-branquense que garante que traz a pessoa amada em três dias. Seu endereço não foi apurado, mas ela reside na zona sul da cidade. Dica dada, mas não contem a Macabéa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quase Policarpo

“Se todo homem deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, eu já fiz tudo isso”, brinca o professor aposentado Evaristo Castanha, que aos 74 anos esbanja bom humor e disposição. Vocês talvez não façam ideia de quem estou falando, mas os que beiram os 20 anos, assim como eu, certamente receberam na escola mudas de Pau-Brasil quando o Brasil completou 500 anos. Lembram? Pois então, o responsável pelas mudinhas é o professor Evaristo, que motivado pelo patriotismo realiza na cidade de Francisco Beltrão o “Projeto Pau-Brasil do Sudoeste do Paraná”, que viabiliza o cultivo e a distribuição de mudas da árvore símbolo do Brasil para crianças da rede de ensino pública da região sudoeste do Paraná.


Quem vê a emoção e a satisfação estampadas nos olhos do homem grisalho que analisa atento as folhas de uma árvore de Pau-Brasil que plantou há cerca de nove anos, e que agora já o ultrapassa em altura, consegue entender o que esse trabalho representa para ele. O professor Evaristo começou o projeto em 2000, ano em que o Brasil comemorou 500 anos. “No começo do Projeto, consegui uma única muda de Pau-Brasil, que veio de São Paulo, e desta cultivei outras. Então resolvi distribuí-las para os alunos da rede municipal, para que as crianças tivessem a oportunidade de conhecer a árvore símbolo nacional”, relembra. Na ocasião, foram distribuídas 500 mudas da árvore para as escolas da região sudoeste do Paraná. O projeto é desenvolvido através de um convênio entre o Viveiro Municipal de Francisco Beltrão, instalado junto ao Parque Irmão Cirilo (local onde são cultivadas as mudas), em parceria com o Instituto Ambiental do Paraná (Iap).


Outra fase do projeto está quase concluída. Evaristo registrou seu conhecimento sobre a árvore no livro “O Pau-Brasil, do Oriente ao Sudoeste do Paraná”, que tem publicação prevista até o final deste ano. Segundo o eterno educador – que traz nos seus traços características do personagem de Lima Barreto, Policarpo Quaresma – o livro é uma continuação do projeto, e mostra a história do Pau-Brasil de forma sintética, como o próprio título sugere: a trajetória da árvore, do oriente até o sudoeste do Paraná. “Eu não fui só professor, eu fui um educador e sempre me preocupei com a educação do aluno, em todos os campos da vida humana”, revela.


Quando se fala em cidadania, os dizeres geralmente soam utópicos, não? Mas o professor Evaristo é um bom exemplo de que é possível sim a realização de ações que visem algo fora da órbita do nosso próprio umbigo. Então, que tal seguirmos esse exemplo?

domingo, 8 de novembro de 2009

Enquanto o sol dormia

Sol, ainda não te falei sobre ontem.


O cheiro de terra banhada pela fina chuva faz com que os ânimos se acalmem. Os pés dançam uma quase valsa, ao som do pio dos pássaros. Enquanto isso, sem fazer barulho, um sentimento novo começa a migrar, de um peito para o outro.


Sabe sol, enquanto você dormia, aprendi tanto, mas principalmente que há momentos doces na vida em que nos vemos capazes de sobreviver apenas com café, bolachas e amor.


Sol, muito obrigada por me emprestar o seu brilho, mas vê se aparece na próxima!

sábado, 7 de novembro de 2009

O menino da rua dos pássaros

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O menino canhoto anda atento pela rua dos pássaros. Ele traz nos olhos castanhos um olhar tímido e na mão esquerda uma sacola com algumas maçãs. No seu peito pequeno há um coração que bate forte e cuja fantasia é a inquilina que mais cômodos lá habita. Seu calção azul carrega em um dos bolsos o peso da euforia e da sorte alojada no trevo de quatro folhas, encontrado a pouco entre as roseiras da mãe – ah, e como esse trevo pesa!
Por falar em sua mãe, foi para ela que numa tarde opaca ele compartilhou a singela impressão: estavam os dois no ônibus, lotado, enquanto o menino olhava e apontava com os dedinhos para além da janela. Até que de repente disse: "mãe, olha o castelo!". Só uma criança enxergaria príncipes em uma simples chalé desbotada. Eis o que os olhos da infância te mostram num dia qualquer.
Na infância nada é medido. Por isso a tristeza não tem tamanho, é algo ainda incompreensível. A dor é presente em todos os percalços da vida, mas o sofrimento gratuito e o ressentimento gerados por ela, estes não passeiam pelos jardins da infância. É com o tempo que os pés calejam e o sol, antes morninho, envelhece.
Enquanto estamos aqui andando por ruas imundas fitando as pontas do pés, a cada passo mais distantes da infância e mais próximos da velhice, já nem lembramos mais das doces canções que nos embalavam até o sono. Andamos pelos mesmos feitos, pelos mesmos erros, sob uma ânsia cruel de rumar à acertos incertos. Tudo é pequeno e de valor ileso. Este é o tempo onde se vive tudo; e que a emoção traja a carcaça do nada. As vezes, num passeio pelos traços do tempo, os dias nos trazem algum ensinamento; mas tê-lo é questão de sorte, como quando se é criança e se atemos a um simples trevo.
Somente em dois períodos da vida somos capazes de enxergar realmente, e de ter fé – em Deus e nas pessoas. E em ambos temos “sete palmos” – sete palmos de altura, sete palmos na penumbra! Na infância e na morte. Nesta última, exaustos de tatearmos no escuro, finalmente abrimos os olhos, pousamos os anseios, os medos e a hipocrisia no peito da morte. E os dias dos passeios descalços regressam e, então, incumbidos de uma leveza até então concebida somente na infância, podemos novamente, enfim, voar. E lá do alto enxergamos a sorte de um dia termos estado do lado de lá; que hoje, ainda, é cá.
Enquanto isso...
O homem canhoto anda depressa pela rua dos ratos. Ele traz nos olhos castanhos um olhar tristonho e na mão esquerda uma pasta sem nenhum sonho. No seu peito cinzento há um coração que já nem bate direito, e cuja hipocrisia é a inquilina que mais cômodos lá habita. Seu terno azul carrega em um dos bolsos o peso da mentira que está alojada nas folhas murchas da sua consciência – ah, e como essa consciência pesa!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ao pecado de cada dia

Ah, se minhas pernas não fossem tão fracas, talvez esse martírio já tivesse partido sem que uma lacuna doesse e gritasse em todo anoitecer. Mas para que a sua partida seja consentida, o peso da consciência não poderia me fazer arquejar a cada manhã. Sim, preciso de você para andar, por isso – só por isso – o carrego com meus braços curtos de mulher miúda; em tamanho e em caráter.

A cada passo o cansaço aumenta, meu andar capenga e meu olhar despenca; lendo rimas autorais cada vez mais pobres e mirando os palmos de terra ímpares acima do meu ventre, lançados por mãos que nem saberão meu nome.

Sou ingrata, eu sei. Te desprezo e me condeno por precisar de você para prosseguir a estrada em lentidão complacente. Derramo o desprezo justo em você, que é tão atento, solicito, e que desperta do meu lado a cada nascer do sol – até quando esse não vem.

Oras, vai embora ingratidão petulante!

Encolhida em mim, inicio a minha rendição. Toda a minha sincera gratidão a você, que sem desleixo me ampara feito um par de bengalas desde que fui concebida: o pecado.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Novembros

Você já foi mais calma,
Mais amável,
Paciente.

Agora
Os prazeres
Chulos
Os dizeres
Nulos

Você já foi mais alva,
Mais afável,
Demente.

domingo, 18 de outubro de 2009

Desculpe, sou miope

Fingir candura é comum a cada passo da vida. Mas ser cândida sem querer ostentação é hipocrisia – tal proeza é digna somente de Cândido e seu otimismo chulo. É preciso saber servir a solidão com doses de sarcasmo e frieza, para assim enganar a morte de cada dia. E dar migalhas de ironia àqueles que têm gula e que vivem sob uma cegueira crônica – sustentados por uma miopia moral.

sábado, 10 de outubro de 2009

João de Paula, o registro da vida com imagem e poesia há 50 anos

Quando a fotografia alimenta a alma
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“A inspiração gira por aí. De repente ela passa perto de você como se fosse uma borboleta: se você pegar pegou, senão ela vai embora”. A frase é do fotógrafo e poeta João Maria Alves de Paula, artista que sempre buscou inspiração na natureza e andou com a câmera fotográfica pendurada pela alça no pescoço, registrando momentos únicos, alegrias e tristezas, por mais de 50 anos.
João de Paula nasceu em 13 de julho de 1935, em Lagoa Vermelha, no interior do Rio Grande do Sul. Em 1954, o jovem com então 19 anos, descobriu a fotografia no exército e lá mesmo começou a tirar e a vender as primeiras imagens capturadas por uma objetiva. Ao sair do quartel, em 1955, João fez um curso por correspondência e aprendeu suas primeiras técnicas fotográficas. Mas aprender a fotografar de forma quase autodidata gerou alguns episódios curiosos: “fotografei um filme inteiro, abri a máquina, tirei o filme e olhei contra a luz para ver como as fotografias haviam ficado... imagine! Claro, queimei o filme inteiro”, risos.
Chegada em Pato Branco
Os livros pelas estantes de sua casa e a máquina de escrever empoeirada dividem espaço com as centenas de fotografias que compõem um cenário nostálgico. Ali, João de Paula digita seus poemas e através de suas fotografias relembra a sua e a história de Pato Branco. Tendo como companheira uma memória que não falha, João lembra com exatidão o dia em que chegou na cidade e as dificuldades dignas de todo início de vida nova: “ cheguei aqui no dia 15 de fevereiro de 1965, e me instalei muito mal. Achava que ao chegar aqui eu já ganharia dinheiro. Que ganhar dinheiro coisa nenhuma! Foi passando o tempo e tive que vender até minha máquina para poder sobreviver”, recorda.
A ajuda veio literalmente do céu! Foi a nevasca que atingiu a cidade de Pato Branco em 1965 a responsável pela ascensão profissional de João de Paula. Na época, ninguém na cidade sabia fotografar neve, inclusive ele. Mas ao ver pela janela o chão tomado pelo tapete branco, João correu para seus livros e encontrou o que precisava: “Li que para fotografar neve o obturador deveria estar regulado na velocidade 250 e o diafragma na abertura 11. Após regular a minha máquina, regulei outra, a de um Frei que era muito meu amigo. Ele ficou desconfiado porque o diafragma estava muito fechado, não entendia que embora o céu estivesse escuro, a neve refletia a luz, por isso, ao deixar o diafragma aberto as fotografias estouravam”, explica. “Eu vendi tanta fotografia naquele dia que sai do anonimato. Até então eu era o João, o João – Ninguém. Depois daquele momento eu fiquei conhecido, ai não me faltou mais trabalho, até agora que resolvi parar de fotografar”.
O cotidiano pato-branquense em cada clique
Com a objetiva voltada sempre para os detalhes, João de Paula conseguiu registrar fatos curiosos e históricos de Pato Branco, pois como fotógrafo vivenciou várias faces da profissão, atuando do foto-jornalismo até à fotografia artística.
Uma das fotos mais conhecidas de João de Paula é aquela que registra o momento exato em que um raio atingiu a cruz da torre da Igreja Matriz São Pedro Apóstolo. Toda tempestade que se aproximava, João, que na época morava nas proximidades da Igreja Matriz, colocava sua máquina no tripé e ficava na janela da cozinha esperando o raio. “Quando consegui a foto eu quase caí de costas no chão, foi um susto tremendo. Eu fiquei eufórico para ver o resultado na manhã seguinte, tanto que naquela noite quase não dormi. No outro dia, quando revelaram o filme, eu tive na mão uma fotografia sensacional”.
Para a professora e historiadora Néri França Fornari Bocchesi, a história de Pato Branco foi registrada graças às lentes de João de Paula. “O João é uma figura importante em Pato Branco, porque ele não é um fotografo comum, ele enxerga aquele pormenor que o outro não vê e isso o diferencia dos demais. E, como ele registrou o cotidiano de Pato Branco por 50 anos, consequentemente registrou a nossa história”, frisa Neri.
Quando cliques viram versos
Outra face artística de João de Paula é a poesia. O fotógrafo desenvolveu uma facilidade curiosa em associar poesia com fotografia, pois passou a criar poemas baseados nos cenários de suas fotografias. E foi justamente para o aniversário de 15 anos de Pato Branco que João fez seu primeiro poema para homenagear a cidade.
“Ele é uma pessoa de uma sensibilidade muito grande, porque além de fotografo ele é poeta. Esses são apenas algun, de uma série de dons que ele tem”, ressalta a professora Néri, que foi a responsável pelo ingresso de João na Academia Patobranquense de Letras.
Traços do tempo
“O que é a natureza da gente? O que o mundo e o que o tempo fazem com a gente?”, me pergunta João de Paula. A resposta não veio. Há cerca de quatro anos, João de Paula, aos 75 anos, resolveu se aposentar. Atualmente, vive com sua esposa, seus livros, suas fotografias e com as abelhas que começou a criar no quintal da casa longe do centro da cidade. “A gente fica velho, não suporta mais música alta, agitação, barulho de criança, correria. Então resolvi para Não tenho mais o mesmo pique de outros tempos, como quando eu passava a noite toda acordado em pé numa festa fotografando, por exemplo”, revela.
João, que não se rendeu à fotografia digital, trabalhou sempre com câmeras analógicas, passando, às vezes, horas para revelar uma foto. “Eu me sentia emocionado toda vez que a imagem começava a surgir na minha frente na hora da revelação”, lembra.
Além de diversas premiações nacionais, ele tem fotografias aceitas em exposições internacionais, em países como Chile, Costa Rica, Itália e República Tcheca. E, embora sua trajetória artística seja longa e composta por vários prêmios, João de Paula também já sofreu com a falta de reconhecimento, realidade digna de tantos outros artistas locais. Atualmente, suas exposições, tão raras, dificilmente chamam a atenção da população, que normalmente se volta a outros tipos de lazeres. “A cidade de Pato Branco até agora não valorizou a grande figura humana e a grande figura artística que é o João de Paula”, desabafa Neri.
E o que a fotografia pode representar para um homem que por 50 anos, registrou ângulos da vida real com imagem e poesia? “A fotografia me deu duas coisas: me alimentou o corpo e a alma, ou seja, foi tudo para mim!”. Quando o ponto dessa frase foi desenhado no papel, agradecimentos foram dados, o bloco e a caneta devidamente guardados. Ao me despedir, dei as costas à nostalgia e a um homem grisalho, parado no portão da sua casa, com lágrimas nos olhos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Interrogação

Olhos expressivos, poses compostas, detalhes visíveis, traços modestos, porém, marcantes. Pode ser um grão de areia ou uma folha seca de outono repousando no chão. Seus improvisos são acompanhados pelo seu incauto e pela sua enorme distração. Mesmo sendo uma incógnita adora achar respostas. Seu fascínio pelo escondido e pelo irreal têm a função de uma ponte. Esta que a conduz para o seu encanto pela aquarela de uma quimera, pincelada por mitos e deuses que a assanhavam quando criança - que volte e meia vêm para um chá. Uma meiguice enjoativa remando na pureza de um rio poluído. Sua existência pode ter sido um pecado prazeroso, sem gozo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Diálogo avesso

- Você tem que entender que eu não sou eterna.

- Eu sei, mamãe. Lutar pela sua eternidade, ou pelo “para sempre” das coisas, é uma guerra que eu nunca quis para mim. Prefiro uma realidade triste, que a tolice de uma esperança falsa.

domingo, 20 de setembro de 2009

Duas versões sem versos

I


Você tem a alma de um passarinho e eu falo com gatos. Eu sonho contigo, sonho que acordo do seu lado. No sonho, você me olha com ternura e diz “o que foi?”. Então eu acordo e você não está aqui. Mas você já ouviu essa história, atenta. Esperei uma resposta, mas seus lábios não disseram nada. Você baixou os olhos, ficou olhando para a xícara e depois rio um riso abafado. Queria poder te ver todos os dias, ter coisas interessantes para te dizer. Ao menos eu te faço sorrir. Fico imaginando mil e uma formas de chegar em você, mas me falta coragem.


Queria não ser tão covarde.


II


Se a morada da alma é o peito, então o meu peito tem como inquilina a alma de um pássaro. É, eu tenho no peito a alma de um pássaro e você fala com gatos. Se a alma morar no coração, a minha estará ao relento, pois dúzias de sonhos tomam meu coração por inteiro. Por isso, não queira ficar, guarde esse amor e não prenda a minha alma de passarinho. Eu só quero o seu café. Ouvir suas histórias e reparar no desenho da sua boca. Ficar horas sentada diante de ti, procurando a ilusão que mora no fundo de cada xícara vazia, e nada mais.


Queria não ser tão covarde.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Entre chuteiras e bengalas

A posição de ter que torcer por algum time foi mais uma das quais anulei na infância. Tal opção perdura até hoje e creio que assim continuará - e os motivos não cabem aqui. O Brasil é o país do futebol e dos times idosos: hoje, dia 16 de setembro, o Grêmio faz 106 anos; no dia 12 de outubro, o Coritiba irá comemorar o seu centenário. Vale postar essa matéria que fiz para os 95 anos do Palmeiras, comemorados em agosto desse ano. Aqui ficam os meus parabéns, aos senhores de bengalas.



Posso perder minha mulher minha mãe desde que eu tenha o meu

PALMEIRAS!


Quando Arnaldo Batista, Sérgio Dias e Rita Lee escreveram e musicaram os versos de “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha o Meu Rock And Roll”, certamente não imaginaram que a frase viria a calhar no meio de uma entrevista sobre times de futebol e, ainda, que o Rock and Roll em questão daria lugar para o Palmeiras. Tal adaptação pode parecer sandice, ou até mesmo injuria para alguns. Mas assim como existem aqueles apaixonados por música, há aqueles apaixonados por literatura, dança, teatro, cinema e futebol – nada fora do comum, ainda mais quando se vive num país intitulado como sendo “o país do futebol”. É a pluralidade cultural que bate a porta; aceitá-la e convidá-la para entrar é fundamental para viver em harmonia: voála, eis a receita para viver em sociedade.


Por trás dos óculos e do ar sério está um jovem “apaixonado pelo Palmeiras”, como ele próprio se define. Vinicius Augusto Muceno é apenas mais um entre tantos jovens brasileiros que trazem no peito a paixão por algum time de futebol desde a infância. Ele, que tem 24 anos, torce pelo Palmeiras desde 1992: “quando eu tinha sete anos, passei a torcer pelo time ao assistir uma partida contra o Vitória”, conta. Mas foi no ano seguinte que a paixão começou. “Em 1993 o Palmeiras conquistou pela segunda vez o Campeonato Paulista e, também, o Brasileirão, com jogadores como Edmundo, Edílson, Evair, Zinho e Vanderlei Luxemburgo como técnico”, justifica Vinicius, todo orgulhoso.


Por que o Palmeiras?


“A principal característica do Palmeiras é a raça, pois ele é um time que não se entrega fácil”. É por essas e outras que Vinicius escolheu o time paulistano para torcer. E quando indagado sobre o motivo de não optar por um time paranaense, Vinicius tem a resposta na ponta da língua: “na época em que comecei a torcer pelo Palmeiras, ali na década de 90, os times de expressão que existiam no cenário nacional eram os dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo”, explica o torcedor paciente, para a quase-jornalista-totalmente-desentendida-de-futebol.


Nessas quase duas décadas em que torce pelo time, Vinicius destaca a semifinal da Copa Libertadores da América de 1999, como sendo a partida mais emocionante do Palmeiras. “O Palmeiras jogou contra o Corinthians, a partida foi para os pênaltis e o ‘santo’ Marcos pegou o pênalti do Marcelinho Carioca”, salienta eufórico. Na ocasião, com o placar final de 4x2, o Palmeiras se classificou para a final contra o Deportivo Cali, no qual foi Campeão da Libertadores daquele ano. “Jogar contra o Corinthians dá à partida um clima tenso. Mas vencer dele tem sempre um gosto especial”, satiriza o fiel torcedor.


O rapaz sério e um tanto tímido do início da entrevista, deu lugar a um Vinicius desbocado e sorridente, que em poucos minutos teve uma sessão gratuita de nostalgia palmeirense. No entanto, esse sorriso não veio de graça, foram necessários 95 anos de história e uma bagagem repleta de títulos para que ele tomasse o rosto de tantos outros Vinicius espalhados pelo Brasil. “Eu alugaria a minha mãe para assistir uma partida do Palmeiras”, risos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cartola, o mundo é um moinho

"A sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi mocidade perdida."

A vida clama pelos versos do Cartola:



Corra e olhe o céu
Composição: Cartola / Dalmo Casteli

Linda!
Te sinto mais bela
E fico na espera
Me sinto tão só
Mas!
O tempo que passa
Em dor maior
Bem maior...

Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia
Aaai!
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia...

Linda!
Te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só
Mas!
O tempo que passa
Em dor maior
Bem maior...

Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia
Aaai!
Corra e olhe o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Romeus e Julietas

“E eu sei que o amor é uma coisa boa”, já dizia Belchior. Se Elis concordou e cantou essa frase incontáveis vezes, eu que não vou discordar. Apenas lembro que o amor também é uma tragédia. E convenhamos, tragédias amorosas existem a pencas e nos mais variados gêneros. As terminadas em suicídio acontecem desde que Shakespeare deu vida a Romeu e Julieta, lá no século XVI. Ou, desde que incrementaram os juramentos das cerimônias de casamento com a fatídica indagação: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?". Ah ta, você não acredita que esse sermão surreal seja levado a sério? Pois acredite, vou contar duas histórias para você.


Tenho em mãos uma foto de um casal que tirou de letra o juramento-de-pé-de-altar. No retrato em preto e branco, retirado de um jornal, ambos beiram os 40 anos. Ela estampa um sorriso largo. Ele, um riso contido e um olhar sonhador, camuflado atrás de um par de lentes redondas.

O casamento do maestro britânico Edward Downes e da produtora de tevê, Joan, durou 54 anos (voála). Edward com seus 85 anos, nas costas arcadas, não conseguiria viver sem Joan, que, beirando os 74 anos, tinha um câncer terminal no fígado e no pâncreas. Nas mãos ela trazia uma receita com os dizeres: você tem poucas semanas de vida. Após se envenenarem, os dois morreram de mãos dadas.


Agora, imagine passar anos lutando contra uma doença que não é sua? E que tal encontrar inspiração para escrever um livro em homenagem àquela que motivou essa luta? Foi exatamente isso que o escritor austríaco André Gorz fez. Antes de cometer suicídio junto com a esposa, André escreveu "Carta a D. - História de um amor". O livro, como o próprio título sugere, é uma homenagem a Dorine, a companheira com quem André partilhou a vida por quase 60 anos.

Dorine foi vítima de um erro médico que ocasionou uma doença degenerativa. O casal vivia em retiro na tentativa de amenizar os efeitos da doença. O trecho a seguir, muito usado para divulgar o livro na época em que foi publicado no Brasil, salienta bem o amor de André por Dorine, e mostra docemente os traços da doença: "Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e se mantém bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu te amo mais do que nunca".

Até que, em setembro de 2007, o casal foi encontrado morto – ambos “repousavam”, um ao lado do outro. “Nós dissemos com freqüência que, se por um absurdo tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos". E assim foi.


Quando penso nesses dois casais fico oca. Uma brancura infinita toma a minha mente, feito a cegueira leitosa do Saramago. É como se um leque fosse aberto diante de mim, lançando impressões no meu rosto; elas estão na palma da minha mão, mas eu não consigo segura-las, pois elas dançam, se multiplicam feito uma praga e fogem do meu alcance a cada abrir e fechar do leque. A cada uma compete a missão de zombar de mim, ao som de curtas risadas. Opa, delirei.

Delírios a parte, encaremos os fatos: o amor é responsável não por todas as mortes, mas sim pelas mais belas – a morte pode ser bonita. E enquanto houver a morte, haverá o amor, que continuará cometendo constantes homicídios e suicídios. Afinal, quantas vezes você já matou e morreu por amor? Quando se permite amar, todos têm uma alma felina e bem mais que sete vidas. Eis o “amor fati”.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Paranoia

Isso não vai passar, vai ser sempre assim. Sofro de lucidez crônica, por isso navego numa busca constante. Busco pra continuar viva. "Sete horas da manhã, levanta e vai buscar a conquista do dia", é o mantra que recito calada todas as manhãs, exceto aos domingos e nos feriados - domingos e feriados foram feitos para o ócio, e o ócio não merece maquiagem, tampouco buscas incessantes. Buscar o quê? E depois que eu alcançar o que tanto busco? Continuo buscando. Dia desses leram minha mão e, numa quiromancia menos leiga que a minha, disseram num sotaque nordestino, sem nenhuma sutileza: “isso não vai passar, vai ser sempre assim”. Então me aquietei. É, em vez de entrar em desespero, fiquei tranquila. Verdades as vezes vêm com tapas na cara, mas depois trazem um calorzinho digno de dias mornos, mesmo que no céu não haja sol. O sofrimento é opcional. Houve um tempo que essa minha lucidez tinha um caráter paranoico. Essa paranoia brotava sem cerimônia pelos meus poros - principalmente em periodos de mudanças hormonais dignos de todo mês. A paranoia foi embora e deixou a consciência critica. Desde então, não durmo. É uma consciência critica que não me deixa dormir. Explico: Eu, aquela do nome ruim, sofro de lucidez crônica, logo, sofro de insônia. Por favor, não confundam minha lucidez com paranoia.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Por que brasileiro faz folk mas não faz pop?

Sou apaixonada por MPB. Aqui no Brasil tivemos bons intérpretes e bons compositores, principalmente em meados dos anos 60, como pôde ser visto a partir dos Festivais de Música Popular Brasileira. Mas nada como um bom compositor que também é um bom musico; o conjunto da obra. Foi justamente por isso que em 1967, o terceiro festival passou a permitir que os próprios compositores interpretassem as suas músicas – antes disso, os interpretes não podiam cantar composições próprias. Mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – surgiu no Brasil antes dos festivais, pois eles começaram a despontar lá em meados dos anos 50, com a efervescência da Bossa Nova. Mas não vamos entrar numa discussão mais apurada sobre – outro dia sim, hoje não.


Hoje no Brasil tem gente interpretando e compondo MPB ainda (belissimamente, diga-se de passagem), enquanto o samba aparece com pouca representatividade e clama os tempos do Cartola. E tem até gente tentando fazer folk. Rock e afins tem às pencas. Em contra partida, aqui não existem artistas pops ( tem os que acreditam ser, revelados em programas de televisão, e que aprendem a produzir torturas auditivas, mas esses não contam). Tirando raras exceções (como, por exemplo, o Lulu Santos, que se não fosse brasileiro talvez tivesse sido celebridade mundial do gênero), por que é que brasileiro não sabe fazer música REALMENTE pop? Não sei.


Ai ouço Paulinho Moska, e fico na duvida se ele é pop ou MPB. Meu inconsciente diz: ele é foda, então pode ser as duas coisas. E ele é isso: o casamento do pop com a MPB. Lindo.

Acho que pra quem nunca o ouviu antes (e não pensem que ele é guri, pois já tem lá seus 40 anos), deve começar pelo álbum + Novo de Novo (2007). Baixe a parte I aqui ó, e a parte II aqui ó. Depois corra atrás da discografia dele, porque vale a pena.


Repetindo: mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – é de certo modo “raro”. Principalmente depois dos mestres da década de 50 e 60. Dessa “nova geração”, iniciada ali na metade da década de 80, até meados da 90, só me encantei realmente (numa seleção masculina) por Renato Russo, Zeca Baleiro e Paulinho Moska. Agora a trupe ganha mais um integrante, Fernando Anitelli e seu rosto de palhaço.


Opa, tem assunto ai pra um mês inteiro, me calei.