Envelhecer. Chegar nessa etapa da
vida sem muitas limitações físicas e com a mente ainda agarrada nas lembranças.
Esse retrato com cores fortes, alegres, de céu azulado, também pode vir com a
plenitude encontrada no interior de uma casinha no meio do nada, sem telefone,
sem TV ou som de ambulância. Posso sentir o frescor da aurora nesse lugar. A grama
molhada pelo orvalho gelado e acolhedor. O pássaro bicando a terra ainda úmida pela geada fina da noite anterior. Como eu seria feliz se pudesse me despedir do
horizonte num lugar assim. Então saberia, prestes a dar o último passo, que
tudo valeu a pena, que o medo saiu derrotado e que o amor me fez triunfar pelos
anos. Só o amor sabe conduzir despedidas com sabedoria, mesmo que elas sejam inconvenientes
pela dor do adeus não dito. Talvez eu estarei sozinha, parada diante da porta,
mirando o pássaro de bico gelado. Nesse instante, ela pode vir de subido, me
levar tão rápido que deixarei o livro cair no chão. Ou, ainda, pode ser que ela
me surpreenda durante o sono. Mas, quem sabe, você e eu ainda estejamos juntos,
os dois grisalhos, com as hastes dos óculos contornando as rugas. Poderemos estar
na varanda, conversando em pleno silêncio. Então ela virá, cautelosa, sem
desfazer o nó das nossas mãos unidas. O outro lado ainda é reticências. Aqui,
no hoje, enquanto a morte ainda é devaneio certo, o principal desejo que
carrego comigo não está na ambição material. Terei sorte e alegria se alcançar
a dádiva de envelhecer.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Envelhecer
segunda-feira, 22 de abril de 2013
O ativismo pela revolução em “Terra em transe” e “Marighella: retrato falado do guerrilheiro”
A partir de 1964, a resistência ao sistema
ditatorial brasileiro inspirou canções, poemas e, numa mistura de audácia e
coragem, foi tema de filmes produzidos em pleno regime. É o caso de “Terra em transe”,
filme de Glauber Rocha, lançado em 1967, período em que o regime militar atuava
com agressividade, principalmente contra a liberdade de expressão. Mas entre
fatos e personagens de ficção, estão personalidades reais, que possivelmente
inspiraram os roteiros cinematográficos. Um desses nomes foi Carlos Marighella,
poeta filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCB), que chegou a ser
considerado o principal inimigo da ditadura brasileira. Assim, o ativismo civil
motivado pelo anseio em combater a ditadura está presente tanto em “Terra em transe”,
quanto no documentário “Marighella: retrato falado do guerrilheiro”, de 2001,
dirigido por Silvio Tendler.
Durante a ditadura, contestar era preciso,
mas quase impossível em virtude da censura e das represálias. Nesse cenário, o
Cinema Novo, as demais manifestações artísticas, assim como a imprensa
alternativa, foram mecanismos utilizados por intelectuais da época para
disseminar a resistência política. A subjetividade era a principal ferramenta
para transmitir tal posicionamento. “Terra em transe” é pura subjetividade,
ideologia e alusão. Retrata um país fictício, chamado Eldorado, que por vezes
lembra o Brasil. Por lá, articulações e manobras políticas garantem os
interesses de poucos, onde o povo continua convivendo com mazelas sociais como
pobreza e injustiça.
O filme de Glauber Rocha conta a história
de Paulo Martins (Jardel Filho), um poeta com ideologias revolucionárias, que
corta laços com o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran) e sua amante, Silvia (Danuza
Leão) – mulher que, ao manter uma relação amorosa com Paulo, simboliza a
máquina capitalista. Após o rompimento, Paulo passa a se dedicar a um jornal
independente, onde conhece Sara (Glauce Rocha) – personagem que representa o
desejo pela revolução e resistência política. Dessa relação com Sara, Paulo
passa a acreditar que a política é o único meio de ajudar a população, através
da eleição de um político popular: Felipe Vieira (José Lewgoy), eleito governador.
Contudo, Vieira se mostra um homem fraco, manipulável e, embora tenha vencido
as eleições à presidência do país, renuncia o cargo em virtude de um Golpe de
Estado realizado por Porfírio Diaz, que almejava “a ordem imposta pela força”.
A história também traz um magnata da comunicação, Júlio Fuentes (Paulo Gracindo),
que usa a sua emissora de TV para transmitir informações políticas de acordo
com interesses financeiros.
Difícil não associar a abordagem de “Terra
em transe” com a história política do Brasil. Em 1930, um Golpe de Estado garantiu
a Getúlio Vargas a presidência do país, derrubando o então presidente eleito
Julio Prestes. Em 1964, outro golpe destituiria João Goulart do cargo de
presidente do país, dando início a uma ditadura militar que duraria 21 anos. Sabe-se
que durante o período ditatorial brasileiro na década de 1960, os veículos
ligados a grande imprensa não contestavam, tampouco denunciavam as ações do
regime – atitude guiada pela censura prévia ou, talvez, por interesses econômicos.
Também não é incomum em nossa história a inserção na política de pessoas
contrárias ao Estado – fica a dúvida se essa inserção se deu pelo desejo de
justiça social ou pelo anseio de poder. Assim como Paulo, Carlos Marighella
também era poeta e se engajou em ações de resistência política contra a
ditadura militar. Chegou a ser eleito deputado em 1946, permanecendo na câmara
até seu mandado ser destituído, assim como ocorreu com todos os eleitos pela
sigla do PCB, em 1948.
O documentário sobre a vida de Marighella
mostra o engajamento do “mulato baiano” no comunismo, bem como a sua vida na
clandestinidade, já que seu nome estava na lista dos procurados pela polícia. Depoimentos
da esposa, Clara Charf, colegas e partidários do PCB remontam sua trajetória
política na “extrema-esquerda”. O filme retrata a sua participação nas ações do
PCB para derrubar o regime militar na década de 1960, bem como durante o Estado
Novo. Também aparece o seu posicionamento diante a luta armada engajada pelos
movimentos de resistência – alguns dizem que Marighella teria sido contrário,
outros alegam que ele foi a favor.
Todavia, o documentário também evidencia
que a luta armada – promovida por membros da esquerda e inserida nos movimentos
estudantis – realizou ações pontuais, emblemáticas, como o domínio da Rádio
Nacional e o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Porém, essas
mobilizações não ganharam representatividade política, tampouco conseguiram
intimidar o governo. Assim, “Marighella:
retrato falado do guerrilheiro” mostra que a organização e a força do Estado,
principalmente a partir do AI-5, instaurado em 1968, conseguiram coibir as ações
de resistência estimuladas pelo partido comunista. Como resultado, nasceu o sentimento
de conformidade diante a situação política e social do país.
Nas palavras de Marighella, “o conformismo
é a morte”. Essa falta de esperança
diante o autoritarismo da ditadura, criticada por Marighella, também atingiu o
personagem Paulo em determinado momento de “Terra em transe”. Glauber retratou
a mesma juventude que galgava por mudança, agora desmotivada, onde mil notícias
amargas definiam o mundo e, da adolescência, só restava a dor, em que a poesia
perdeu o sentido e as palavras se tornaram inúteis*.
Os filmes também possibilitam o
questionamento quanto ao posicionamento de seus protagonistas. Há o momento em
que é difícil decifrar se as atitudes de Paulo foram em prol do povo ou motivadas
por egoísmo. Também fica a dúvida se
Marighella queria o fim do regime ditatorial ou o início da ditadura
comunista.
Todavia, Marighella faleceu em 1969, dois
anos após o lançamento de “Terra em transe”. Talvez tenha assistido ao filme,
bem como a cena em que Paulo morre, em um tiroteio, enquanto dirigia um fusca.
Marighella morreu praticamente da mesma forma; foi baleado dentro de um fusca.
Ambos, o personagem de Glauber e o ativista real, foram vítimas da ideologia
que tentavam combater.
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Glauber Rocha,
Resenha; Terra em transe; Marighella
domingo, 14 de abril de 2013
Contradições de mim versus o medo de Kant
Um, dois, três, quatro. A contagem
avançou, chegou ao vinte e três. Tenho vinte e três anos e a sensação de trazer
nos ombros o peso agridoce de uma vida sessentista. Logo, soa bastante contraditório não saber de
onde vem o medo que emudece a minha força. Sou fraca, ainda. Esqueci o
aprendizado da menina que conheceu a dor da perda aos sete anos. De lá para cá,
vi muito mais do que deveria, é verdade. Li o que pude, menos do que gostaria. Mas
os livros não me ensinaram a vencer o mundo lá fora. Tampouco o medo.
E nesse porto que define a vida,
experiências e pessoas vêm e vão. Somente os outros partiram, eu permaneci no
mesmo horizonte. Ainda vivo na cidade em que nasci. Não fui estudar numa
capital, me formei aqui mesmo. Não possuo um diário de bordo dos lugares que
conheço dos filmes. Tremo ao atravessar ruas muito movimentadas. É, tenho a
síndrome do interior – leia “interioR”, com érre meio puxado, pois aqui também se
fala “leitê quentê”. Mas, ainda assim – limitada pelas ruas de uma única
cidade, pelos mesmos rostos, pelos mesmos sons – me sinto uma viajante do
mundo.
A síntese é que aqui – na cidade
com nome de ave de penas alvas – presenciei a plenitude e o caos do meu eu. Afinal,
o caos é o prelúdio da plenitude – esta que, assim como a maresia, costuma imperar
depois da desordem. Não vejo como fuga do ideal optar por viver a vida inteira
no mesmo lugar. Talvez jamais terei um par de chaves em uma cidade com mais de
500 mil habitantes. Mas que culpa tenho eu, se sinto medo do mundo que penso
conhecer? Se em boa parte do tempo sou feliz aqui, onde vejo o pôr-do-sol mais
lindo do mundo? Conheço o mundo, sim, embora pouco saí de uma cidade que nem
cinema possui. Eis mais uma contradição. Explico: É especialidade dos livros,
descrever mundos.
Mas isso pouco importa.
Conhecimento acumulado não tem utilidade se desconheço o ser que habita a minha
consciência. Kant me entenderia: “Do ponto de vista do medo, ninguém é forte o
suficiente”. Vai ver ele também temia as pessoas, por isso não saiu da sua
cidade natal. Eu, particularmente, temo as pessoas. Falsidade, cegueira,
ambição, cegueira. Mas um dia, quem sabe, serei um pássaro. Verei num voo pleno
o que daqui, de dentro da minha alma, não consigo perceber. Então não haverá
mais medo, só saudade.
Escrito ao som de: Feito pra acabar, Marcelo Jeneci.
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Crônica,
Immanuel Kant
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Saludos Amigos: um retrato generalizado da cultura brasileira
O brasileiro ganhou cordialidade e astúcia na representação do cinema
americano com o papagaio José Carioca, que apareceu pela primeira vez no filme “Saludos
Amigos”, animação produzida pela Disney em 1942. Mas há equívocos na
figura do brasileiro apresentada no filme, considerando que a produção limita e
generaliza a essência de um país rico em pluralidade cultural e étnica.
Saludos Amigos é um filme bonitinho, engraçado, aparentemente
destinado ao público infantil. Nele, Pateta e Pato Donald visitam países como a
Bolívia, Chile, Argentina e Brasil. Mas havia um propósito: o mundo estava em
guerra e a representação do Brasil, bem como a produção de filmes com temas
latino-americanos, era motivada pela “política da boa vizinhança”. Era uma
tentativa norte-americana de atrair aliados e reverter a crise econômica que os
EUA adquiria em virtude da Segunda Guerra Mundial. De acordo com o professor
doutor Antônio Teixeira, que pesquisou o tema, “a intenção era promover,
através do cinema, uma aproximação com os países ao sul da fronteira [...]” (2009,
79).
Os quarenta minutos do filme são narrados, na maior parte do tempo, em
espanhol. O idioma muda quando o Brasil começa a ser descrito, inclusive a
trilha sonora é tipicamente verde-amarela: “Aquarela do Brasil”, cantada por
Aloysio de Oliveira e “Tico-tico no fubá”, na voz de Carmem Miranda, conduzem
as coloridas cenas.
No entanto, apesar da homenagem, fica evidente a superficialidade
midiática empregada ao retratar a cultura brasileira. O ponto de partida é o
Carnaval, em que o filme mostra a tradição da festividade, ilustrando a
narrativa com imagens de belas mulheres, alegres e adornadas pela
caracterização carnavalesca. Ao mesmo tempo em que valoriza o Carnaval, o filme
anula e até mesmo impede a transmissão dos valores de outros aspectos culturais
do Brasil.
Um exemplo acontece na abordagem da cultura da Argentina através dos
costumes gaúchos; em nenhum momento o filme aborda que a região sul do Brasil,
inclusive no Uruguai, também há a cultura gaúcha, com traços bastante similares
a dos “hermanos” argentinos. Essa falta de aprofundamento ao descrever certas
culturas transmite a representação equivocada de outras identidades, inclusive,
o “descaso com particularidades dos povos retratados revela a tendência de se
valer de generalizações e ideias preconcebidas”, pontua Teixeira (2009, 79).
Personagens e personalidades
O retrato do povo brasileiro está no papagaio Zé Carioca. O personagem
é caracterizado com o trejeito do “malandro” que mora no morro, gosta de samba
e não dispensa o terno, chapéu e o guarda-chuva. Zé Carioca representa o
“jeitinho brasileiro” e o “homem cordial”, termos descritos por Sergio Buarque
de Holanda que dão traços a um Brasil, bem como a um Rio de Janeiro, que nas
telas do cinema estatudinense aparece como um lugar hospitaleiro, alegre, uma
“terra de sensualidade e licenciosidade”, conforme descreve Antônio Teixeira (2009,
79).
Pato Donald, por sua vez, é o típico americano: um turista que se
deixa guiar pelo espírito festeiro de Zé Carioca, brasileiro que leva o amigo
“gringo” para o samba e para beber – literalmente “encher a cara”. Essa é a
visão americana do Brasil, que “representa mais do que qualquer outra nação
retratada, a essência da visão que Hollywood tem da América Latina como fonte
de puro espetáculo, exuberância rítmica e espontaneidade carnal” (SHAW, apud, TEIXEIRA: 2009, 83).
O filme termina com as sombras de Pato Donald e Carmem Miranda
dançando no Copacabana Palace – o que reforça a visão de “puro espetáculo” e,
principalmente, a popularidade da cantora brasileira enquanto ícone feminino da
época, cujos traços sombreados são facilmente identificados.
Ao retratar o Brasil através dos simbolismos presentes na figura de Zé
Carioca, Saludos Amigos revelou ao mundo mais uma criação de Walt Disney, um
americano que sem conhecer a cultura do país estimulou a fatídica generalização
– fruto do entusiasmo pela alegria e inconsequência de uma pseudo-identidade
brasileira. A intenção de Walt
Disney certamente foi a melhor – dizem que ele visitou o Brasil e se encantou
pelo país. Mas o papagaio que virou ícone, divulgou para outros países a imagem
de um Brasil criado pelos princípios americanos. Sessenta anos depois, ainda
tentamos desvincular esse rótulo generalizado – ou não.
REFERÊNCIAS
TEIXEIRA, Antonio João. O cinema hollywoodiano e a representação do
“outro”. In: LEANDRO, José Augusto (org). História, arte e cultura: livro II.
Ponta Grossa: UEPG/NUTEAD, 2009. Disciplina 2, p.50-97.
Assista Saludos Amigos, aqui:
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