domingo, 9 de março de 2008

↕ sem título.

Ela está ali, contemplando-se há longas horas.
Se olha como se estivesse decifrando seu corpo, em busca de encontrar em seu rosto mais algum traço da mãe.
Então ela desiste e decide encarar a progenitora.
Quanto mais a olha parece que ainda está lá mirando o espelho do fim do corredor.
Os mesmos olhos, as mesmas mãos, a mesma boca.
Não vê o mundo da mesma forma que a mãe, nem aprendeu a agarrar as coisas sem deixar com elas caiam ou se esvaiam entre os dedos e nem tão pouco fala o que pensa com a mesma sutileza que a juventude materna um dia deve ter tido.
Como podemos ser tão iguais e ao mesmo tão diferentes?

E mais uma vez me pego diante do espelho.
Não é vaidade e sim o medo de me descobrir.
Descobrir mais uma semelhança ou outra diferença gritante.

Você se lembra daqueles dias em que tínhamos tudo e nada tínhamos?
Sim, e lembro de como fazia longas tranças em seus cabelos e ainda podia te ter no colo.
Tínhamos tudo e nada tínhamos.
Tínhamos uma a outra.
O que vou ser na vida?
Não importa, temos tudo e nada temos.
Temos uma a outra.

E o espelho ainda está lá.

sexta-feira, 7 de março de 2008

↕ A dor, o amor e o blues.

Gosto de gente doída. Talvez porque eu goste da dor. Talvez por isso eu goste de você. Talvez por isso eu goste do blues.
Ela, a dor. Você, o amor. Ele, o blues.
Inconcientemente todos fogem da dor ao mesmo tempo que a procuram sem cessar. Ridiculo não? O tempo todo a buscam. Eu não fujo, até simpatizo com ela.
Dizem que você só vai saber o que é o blues no dia em que souber o que é a dor.
E se a vida é um grande blues meu amigo, a dor é a essência. Só é possivel se sentir realmente vivo depois de sentir a primeira dor. O primeiro tombo, a primeira gota de sangue que escorre do joelho e desce até os pés, trilhando um caminho desenhado de vermelho. A primeira lágrima que molha teu rosto. O primeiro não!
Com o tempo você aprende que cair é fraqueza e chorar é tolice. Ou não, talvez viva e não aprenda nada.
Talvez por isso eu goste de você. Mas gosto muito mais da música em que você escarra a dor no meu colo. Gosto de você não por eu sentir amor, não mesmo, mas por sentir a dor, a sua dor que é tão minha quanto sua.
Amor, amor, de mãos dadas com a Senhora Dor. Cômico de dar dó! Fugimos dela, mas a procuramos durante a vida toda! A tal “alma gêmea”, a “metade da laranja”. Céus, queria um beijo na boca, agora!
Tolice talvez seja chorar lágrimas por ninguém e criar um escudo pra escapar da dor.

“Liberte-se-à, nunca mais!”
então agora lembrei do corvo, maldito animal do inferno, que apesar dos pesares, vive séculos e morre orbitando. O que isso tem haver com a dor e o blues? Talvez a relação entre tais equívocos é que, embora não possamos pressentir a morte e voar até o infinito pra morrer diante das estrelas, podemos sim viver a vida no embalo de um excitante blues.
Dizem que você só vai saber o que é um blues no dia em que souber o que é a dor, não é? Eu digo diferente: Você só vai saber o que é um blues no dia em que souber o que é o amor, a dor é o que te faz orbitar!
Mas eu não sou boa pra falar do que desconheço, por isso me calarei daqui a pouco, sem falar do amor.
Então não fale nada, acenda um cigarro e me beije, caro amigo.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

↕ Bagaços e Escolhas

Pegar o ônibus, que coisa mais intrigante! Parar num determinado lugar, e ficar ali esperando a locomoção que lhe levará ao seu destino. Como se na vida as coisas funcionassem assim: fique parado e alcançará! Se quer algo, corra atrás dele, caralho! Mas a questão é que ter que pegar o bendito ônibus, de certo modo lhe intrigou. Talvez pra quem faça isso freqüentemente, seja algo que passa despercebido. Como tantas coisas passam despercebidas, pelo fato de que são constantes. O amanhecer, o entardecer, o anoitecer, viver!
Mas quem sabe essa tamanha inquietação pelo simples fato de pegar um ônibus, seja porque a pessoa que vos escreve, não saiba pegar um ônibus. Levando em consideração de que vive numa cidadezinha de certo modo pequena, isso seria realmente difícil – como o difícil lhe atrai, muito mesmo – mas mesmo assim, tantas foram vezes que conseguiu a proeza de pegar o ônibus errado e ir parar na intitulada zona sul – mas isso é pano pra outra história.
Por não ser mestre em pegar ônibus, chegou no ponto antes do horário. Então está ali, sem ter o que fazer, sem saber o que fazer, com medo de se mexer, porque percebe que os estranhos lhe olham. E continua ali, com cara de pomba, olhando pro nada, com estranhos a sua volta, que lhe olham e olham. E ela ali, tentando fazer com que o seu poder de ler a mente alheia funcione, mas mais uma vez foi uma tentativa frustrada.
Dividir o mesmo metro quadrado com um estranho é realmente algo demasiadamente estranho. E nesse instante de extrema estranhice, a hipocrisia humana vem à tona. Ela continua ali, mas agora está fingindo olhar o meio-fio, ou as duas crianças sentadas nele, só para mostrar sua tamanha indiferença ao estranho que lhe mira. E se esforça para prestar atenção no empolgante diálogo das duas crianças magrelas e ranhentas:

Criança 1: Cadê a mãe?
Criança 2: A Mãe já vem, ela foi ali na lanchonete, tomá uma pinga!

E ela busca forças, sabe Deus da onde, não para perder tempo protestando e se indignando com pensamentos do tipo: aonde esse mundo vai parar? E sim para controlar a vontade súbita de atravessar a rua, ir até a lanchonete e se juntar à mulher e pedir uma dose da mais vagabunda e barata pinga. Mas certamente não lhe venderiam, porque sem decote tem cara de guria de 15 anos. E beber pinga numa tarde de segunda-feira, em plena luz do dia, não é coisa que se faça, porque um dia alguém hipócrita assim como ela, que, também como ela, segue os paradigmas de uma sociedade suja e hipócrita, lhe disse que beber, fumar e ouvir blues, é coisa de gente desocupada, que nunca conseguirá "ser alguém na vida" – se bem que "não ser alguém na vida" como Billie Holiday e Janis Joplin, lhe parece bem mais excitante, mas isso também é pano pra outra história – e como ela precisa ser alguém na vida! E principalmente porque perderia o ônibus, e não chegaria ao seu destino a tempo – tempo, olha você outra vez!
Quando algo foge da sua compreensão ou das suas mãos, ela tem esses momentos de inquietação e perturbação, em que, de certo modo, reflete. Esses momentos são breves, mas como tudo na vida, depois de espremer bem, junto com o bagaço sempre fica algo bom para escrever! “Por que eu vou falar, se eu posso escrever?”
Quinze minutos se passaram e ela ainda está ali, quando avista um ponto azul marinho se aproximando. Sobe no ônibus, e como a vida é feita de dias, e esses dias são repletos de bagaços e escolhas, vai para o seu destino, deixando pra trás a bebida, o cigarro e o blues. Mas eu lhe dou um desconto, não era sexta-feira após as 22 horas.





Acredite se quiser .: Não sou Fernando Pessoa, então não sou o que escrevo. Nem tão pouco me chamo Maria, as Marias que crio. Então não tente descobrir quem sou , o que faço, pois apenas dou vida, não conto a minha :)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

↕ Uma Vez é Única

O vento te acaricia e abraça. Não te pega no colo, mas se você fechar os olhos quem sabe consiga se sentir como a folha seca que dança e se exibe na tua frente, como se estivesse num salão no embalo excitante da voz do Morrison, enquanto alguém conduz teu corpo numa sintonia mutua e sussurra: “Hello, I love you. Won't you tell me your name?” E então você se pega pensando que para isso precisa de alguém que te guie e te faça rodopiar feito a bendita folha. Nunca se permitiu a ser guiada por alguém. Como nunca se permitiu a tantas coisas. Oh Deus, o quanto o clichê pode ser maravilhoso! Mas ser do contra sempre lhe pareceu mais conveniente. Nunca viveu as maravilhas que o “permitir-se” da música proporciona. Cautela e sensatez, suas amigas inseparáveis, que te paralisam e te impedem de rodopiar pelos salões do clichê. “Uma vez não conta, uma vez é nunca” – li isso certa vez em um livro. Eu, contesto! Pensar assim remete a idéia de que uma vez é nula porque as coisas se repetem, e que segundas chances são constantes e se multiplicam feito as gotas de chuva que caem do céu, o que não acontece. Chances são únicas, e não é com freqüência que batem na tua janela dizendo: “Hey baby, dê uma de Betty Balanço e vem com tuuudo!” E muito menos “te avisam quando for a hora”. Cara amiga Cautela, vá embora! Sei que essas coisas devem ser ditas com uma certa cautela, mas estou cheia de você, então sua partida é realmente necessária para que essa jovem moça permita-se sentir uma vez, ou quantas vezes quiser, o delicioso peso da consciência nas costas e uma mão grande em sua cintura que a transforme em uma folha de outono, no embalo ardente de uma noite de verão – olha o clichê Jozieli, tá aprendendo! E você senhora Sensatez, aumenta o som e dança conforme a música toca: “ Hello, I love you. Let me jump in your game.” Dance até se descabelar e aproveite o agora, porque o próximo segundo é incerto. É a maneira com que você se entrega e agarra as chances que te permite rodopiar numa dança ao som da sagacidade que sussurra: “Come on baby, light my fire!” Um estalar de dedos basta para que o tempo cumpra sua missão, e no mesmo estalar a vida se encarrega de encaixar as coisas. Piscou, já era! Simples e sutil, assim. Como o tempo passa diante de você depressa, dançando feito a folha que te mira. Dificilmente a mesma folha dançará pra você uma segunda vez. Uma vez é tão única, tão rara, que se torna incontável. Uma vez não conta, uma vez é única.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

↕ E Continuam Rezando

Lhe ensinaram a juntar as mãos e rogar, então você o faz. E reza, sem saber ao certo pra quem, mas continua rezando. Reza pela velha que revira o lixo enquanto fala sozinha. Mulher que nunca aprendeu a escrever o próprio nome. Nome que, aliás, já esqueceu há tempos. Reza pelas duas crianças, que se aproximam e dividem o lixo com a velha. Ainda não sabem escrever o seus nomes, e provavelmente nunca o desenharam com um lápis. E você, atrás do seu vidro fume, apenas olha. Se pergunta o porquê de tanta desigualdade, que divide e separa as pessoas tão brutalmente, com emoldurados vidros fumes. Você é surda e cega. Todos são surdos e cegos. E embora não fale sozinha como a velha do lixo, você fala, fala, mas ninguém te ouve. Ninguém te ouve, ninguém te vê. Quem sabe alguém ouça a velha. Quem sabe ela esteja apenas rezando, porque um dia lhe ensinaram a juntar as mãos e rogar, então ela o faz. E reza, sem saber ao certo pra quem, mas continua rezando. Mas esse alguém é surdo, e cego.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

↕ Pedaço de Papel

Ajoelhada sobre a terra ainda fofa, ela tira do bolso uma folha amassada e com as mãos tremulas, pela quietude exagerada do lugar, conduz o pedaço de papel em direção à lápide de mármore, que traz estampada a mesma foto que por tanto tempo ela guarda em segredo no fundo de uma gaveta. E então ela começa a ler, com dificuldade, pois as lágrimas que insistem em lhe cortar a face caem sobre o papel e borram a letra quase que indecifrável, de alguém que encontrou nas palavras sussurradas por um lápis, a forma de se libertar de um sentimento, por tanto tempo guardado em um coração infanti, e que agora se liberta desta prisão. Mas está condenado a passar toda a eternidade nas linhas desse papel amassado, porque a pessoa a quem este sentimento foi destinado, jamais saberá o quanto foi amado, pois conquistou um coração covarde, que nunca teve coragem de olhar em seus olhos e lhe dizer em vida, o quanto o amava. E agora que seus olhos estão selados para sempre, ela toma coragem e resolve ler uma carta que escreveu há tanto tempo e sempre adiou para o dia seguinte o momento em que ela a entregaria a ele. Até que de tanto esperar, um dia ele morre, e não haverá dia seguinte, pois agora ele está no fundo de uma cova fria em um cemitério sem vida, onde a única forma de movimento é um pedaço de papel, deixado por uma moça que de tanto esperar viu seu coração sendo enterrado mesmo não estando morta. E o papel, conduzido pelo vento de uma tarde triste de outono, dança entre os túmulos, feliz, pois traz junto de si a chave das algemas que por tanto tempo acorrentaram um coração, que aos poucos está deixando de bater e que vive somente a espera do momento em que se juntará ao seu amor e finalmente dirá o quanto o ama, e dessa vez não precisará de nenhum pedaço de papel.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

↕ Você

Quase meia-noite, e Ela sente um frio nas pernas somente pelo fato de saber que este dia está, mais uma vez, chegando. Só Deus sabe como ela odeia esse dia. Tantas foram as vezes que teve que dormir aos soluços, engolindo o choro para se fazer de forte. Ela está lá, embaixo do relógio da igreja da praça, contando os minutos restantes, sentada no chão, ao lado de uma árvore. Ela olha ao redor, e se irrita com a inquietude das pessoas que passam sem cessar. Porém quando resolve olhar bem diante de si, vê você. Ela se pergunta o porquê daquela perda que lhe deixou um buraco imenso no peito. Mas hoje ela faz uma pergunta nova: Porque merece você?
Porque ela te merece, você sabe? Na sua frente está uma menina da mesma idade que a sua, com os mesmos medos e sonhos. Vocês cresceram próximas, mas não juntas. Se encontraram no apogeu da puberdade, e estão virando mulheres, juntas. A menina que brincou de bruxa e fada com ela na terceira série, está ali, diante dela, passando frio, e enxugando as suas lágrimas. Há tantas horas vocês estão ali, sentadas no chão, dividindo uma com a outra medos e anseios. De todos os Natais que já teve que enfrentar, aquele certamente foi o menos doloroso. Pois embora tenha perdido muito, muito foi o que ela ganhou na vida. Ganhou anjos terrestres. Ganhou alguém como você. Uma grande amiga.




domingo, 13 de janeiro de 2008

Não Sei ao Certo Dizer


Não sei ao certo dizer. É o que está escrito incontáveis vezes, no papel que minutos atrás estava em branco. Ela faz perguntas em pensamento, e as respostas saem rabiscadas com aquela sua letra torta: Não sei ao certo dizer. E ela não se cansa, e continua: Quem é você que mora dentro do espelho? Por que me olha desse jeito? Não sei ao certo dizer. O que nos faz vivos? O que nos mantêm aqui? Não sei ao certo dizer. E então se pega de mãos dadas com a esquisitice que sente enquanto respira. Que dorme e acorda do seu lado. Ela teria que parar de respirar para essa esquisitice ir embora? Não sei ao certo dizer. Em meio a tanta sandice, sente aquela incontrolável “leveza do ser”, que passa e volta. Coisa chata, repetitiva, feito sessão da tarde – ela odeia rever o mesmo filme. Mas é uma sensação boa, que a faz sentir-se viva. Como é bom estar viva! E continua a se perguntar quem é a estranha que lhe persegue nos espelhos. A resposta é a mesma. Não sei ao certo dizer. Afinal, o que a faz viver, e o que a mantém aqui? Não sei ao certo dizer. Sabe apenas que para continuar viva precisa achar tais respostas, pois se na vida vence o mais apto – Darwin o sabichão da grow – então é bom encontrá-las, e rápido. Afinal, somos “canibais de nós mesmos” – o poeta vive, pelo menos pra ela! Porque que a gente é assim? Não sei ao certo dizer. Agora lembra de uma frase que leu certa vez em um livro, que dizia o seguinte: “Pior do que cometer um assassinato é roubar o direito de alguém nascer.” Sábias palavras de quem mesmo? Não sei ao certo dizer. O que nos faz vivos? O que nos mantêm aqui? Quando essa esquisitice largará a minha mão? Quanto tempo ainda tenho na teoria darwiana? O que nos faz canibais? O que nos faz roubar direitos alheios? Porque eu não me canso desses garranchos? Quem é a pessoa que vejo quando me olho no espelho? Não sei ao certo dizer.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

↕ Encontre e Enxergue

O que há em você? Esqueça o reflexo do espelho e tente se olhar de um jeito novo. Olhe aonde os olhos alheios não alcançam, e nem podem cuspir suas sentenças - medíocres são os olhos alheios, então cuidado! Olhe dentro de si, encontre e enxergue. Pasme, mas a grande maioria das pessoas não enxerga, nem ao menos procura encontrar, o que tem guardado dentro de si. Escondemos dos outros, e de nós mesmos. Feito uma pérola que se esconde dentro de uma ostra no fundo do oceano, ou como uma borboleta em sua crisálida. A sutil diferença é que a pérola não sai espontaneamente da ostra, ela fica a espera que alguém o faça, e se liberta. Já a borboleta precisa se libertar para sobreviver, porem, o faz sozinha, se alguém abrir o casulo ela morre. Seja um pouco pérola, um pouco borboleta. Liberte-se como se fosse algo vital, e arranque, nem que seja a força, o que você tem guardado, por tanto tempo escondido, dentro de si. Mas o faça por você, não se deixe guiar pelos mesmos olhos alheios do inicio deste breve texto. Encontre, se encontre! E você verá o quão valioso é o que está dentro de você, esperando a hora exata para se libertar. Você precisa somente enxergar!

sábado, 5 de janeiro de 2008

↕ Saudade Existe

“Saudade existe pra quem sabe ter”, é assim que a música toca, literalmente. Hoje, no meio de uma conversa ouvi a seguinte frase: "um escritor é muito mais foda que um pintor, escultor, ou qualquer outro artista". Não, não me considero uma escritora, mas tenho certeza que um dia serei, e você que lê essas linhas sem nexo, lerá ou conhecerá alguém, que já terá lido um livro meu. É apenas mais um dos meus alcançáveis sonhos. Afinal, "sonhar não custa nada!” O mesmo sonho que te faz traçar um caminho a se seguir, pode ser o seu pior inimigo. O sonho traz a tona a saudade adormecida – sonho, que traz saudade adormecida? oloco meu! Sim, agora me refiro ao sonho de fato, aquele resultante do ato de dormir. Sonhar permite que você visite lugares incríveis, e reveja pessoas ausentes. Puta que o pariu, tantas foram às vezes que passei um dia inteiro mal, pelo fato de voltar a lembrar de coisas, não esquecidas, mas lembranças que estavam ali, quietinhas, e que agora voltaram para atormentar o sossego do dia sucessivo ao sonho em questão. Porém, confesso que por diversas vezes rezei antes de dormir para sonhar com alguém. Sentir o cheiro, ouvir a voz. Melhor, sentir aquele abraço! Sonhos permitem tais mentiras. Me pego sem saber se é melhor sonhar, e sentir fantasias medíocres, ou não sonhar, e viver com a sola dos pés em contato com o chão. Tudo isso é resultante da saudade. Acredito que uma vida sem saudade, é uma vida que não foi vivida. Perdas e ausências são necessárias, como algo vital para qualquer pessoa. Dores emocionais são o que faz você lembrar que está vivo, por isso elas existem e acorrem, com certa freqüência. Uma pessoa que não sabe ter saudade, nunca teve alguém que marcou a sua vida, e certamente nunca foi uma página marcada no livro da vida de um outro alguém. Existir apenas por existir, sem deixar lembranças nem saudade. Esse é o meu maior medo. E enquanto escrevo esse texto, vejo o rosto da pessoa que me disse a frase citada no inicio, aquela da importância de um escritor. Uma pessoa que eu conheci há bem pouco tempo e mora longe, e irá partir. Uma partida prevista, nada de surpresas desagradáveis. Não sei o que é pior, a separação consentida, ou aquela inesperada, no caso a morte – quantas dúvidas Jozieli! A questão é que seja da forma que for, deixará saudade. Em tão pouco tempo alguém pode sim, fazer você sentir saudade. Isso é maravilhoso! Isso faz você se sentir vivo. Provocar e sentir, saudade. De fato, saudade existe pra quem sabe ter. Mas acima de tudo, saudade existe pra quem sabe viver.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

↕ Escolhas e Mudanças

O metrô passa, ou seja lá o que for o meio pelo qual você deve embarcar pra seguir o seu caminho. Ele passa, você sobe ou fica ali, à deriva. Escolhas, malditas são as escolhas. O que você deve escolher para chegar a tal lugar. O que você deve usar para se chegar aonde tem que chegar. Não é preciso ter nenhuma bola de cristal de merda para saber certas coisas do futuro. Como dois mais dois sempre será quatro, ou como a morte é inevitável. Ou ainda como certas escolhas estão diretamente relacionadas com mudanças necessárias na vida de qualquer pessoa. Afinal, somos sim "metamorfoses ambulantes”. Caso fosse o contrário, o tempo seria inútil, e a vida seria apenas um amontoado de bactérias, alojadas num ser estirado no sofá, em frente a uma tevê. Mudanças fazem parte do sistema vital do ser humano. Até as borboletas tem suas crisálidas abertas, para que, o que antes era lagarta, possa se libertar do casulo. A crisálida seria uma espécie de metrô. O tempo dentro do casulo, é como o tempo passado a bordo do meio que o leva a tal escolha, que o leva a mudança inevitável. É necessário embarcar, mas é essencial largá-lo na hora exata, ou as oportunidades vão embora, sem dar adeus. Como uma borboleta que voa pra longe, até que seus olhos a perdem de vista, para sempre.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

↕ E Então Foi Natal...

Eu passo na rua, e dou de cara com uma menina, talvez mais nova do que eu na época dessa foto, sentada no chão pedindo esmola. Uma menininha linda, diga-se de passagem. Muito breve foram os segundos que a mirei, mas foi o tempo sufiente para ela, com toda sua inocência, olhar para mim, com seus expressivos olhos negros de amendoas, e soltar um doce e singelo: oi! Talvez haja algo em mim que transmita confiança necessaria para tal acontecimento. Um simples oi. Quem sabe, ela acredita em Papai Noel. É natural, pais acreditam que está no "seu papel" iludir os filhos com fantasias idiotas. E então ela não perde a esperança, e acredita. Afinal, acreditar não custa nada, não é? E então ela acredita no tal velhinho, o mesmo que não lhe trará presentes, o mesmo que a deixa ali, no chão. Um simples oi, que não me sai da cabeça. Enquanto eu continuar vendo coisas assim - o que ainda irá acontecer diversas e diversas vezes - desculpem, mas não conseguirei dizer "Feliz Natal", sem sentir um forte e incontrolável asco que me embrulhe o estômago. Talvez a Jozieli de 13 anos atrás fosse capaz de tal proeza. Eu, não.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

↕ O Adeus

O vento morno de uma tarde de primavera, sem cerimônia alguma, insiste em lhe bagunçar o cabelo, – convenhamos, o cabelo dela já é bagunçado. Algumas pessoas passam indiferentes. Outras, porém, arriscam olhá-la. Ela, com sua mania equivocada de achar que pode ler pensamentos alheios, decifra: “Ela deveria jogar fora aquele livro e ler uma revista Capricho, pra ver se descobre um milagre do tipo: "Descubra-Como-Domar-a-Sua-Juba-de-Leão”. Ela não se importa, e continua no seu Jogo-de-Perguntas-e-Respostas. Se bem que quase nunca encontra as tais respostas. Ela se pergunta quais são as chances de uma outra pessoa, em qualquer outro lugar, sentir a mesma rajada de vento que lhe arma as madeixas. Uma entre quantas centenas? Milhões? Nenhuma! Tudo isso é um jogo de hipóteses sem sentido. Aonde já se viu perder tempo pensando em tamanha sandice. Perder tempo pensando em algo que nem se pode ver. De fato ela não tem o que fazer. O mesmo vento que a toca, guia a coluna de pássaros, que enfeitam o céu cor-de-rosa do entardecer. Não consegue identificar a cor de cada um – óbvio. Suspende a leitura, e fica ali, olhando para o céu. “Um leão, sentado no banco da praça, com um livro na mão, olhando para o céu”. De repente, sentiu-se imensamente triste. Como se o que estivesse vendo, fosse um adeus. Pássaros que voam sobre a sua cabeça, em marcha seguindo para algum lugar. Um adeus. Naquele instante, ela desejou com todas as forças sair dali voando, entrar no final da fila e ir sem rumo pra qualquer lugar. Apenar ir, pra outro lugar. Quem sabe o vento a encontre, quando ela tiver partido. “Um leão voador”. As pessoas, embora diferentes, tão iguais. Continuam passando, seguindo o rumo de suas vidas medíocres. E ela se pergunta se há alguém nesse instante vendo os mesmos pássaros, sentindo o mesmo adeus que lhe aperta o peito. A resposta não veio. Um calafrio. Sensação estranha. Ela continua olhando. Até que o último pássaro foge do seu alcance. E ela volta-se para o livro. O seu último livro.

↕ Deixar de Amar

“Até que a morte nos separe, meu amor.” Literalmente, quanta sandice! Não generalizando, mas na maioria dos amores intitulados eternos, o amor acaba antes mesmo que um dos lados reumáticos estique as canelas. É, a vida é realmente cruel. O cruel na verdade é deixar que a vida, ou a morte, separe um amor. Eu conheço pessoas que continuam amando seus parceiros, mesmo depois da visita da senhora Morte. Estranho? Não, eu diria raro. E é assim que as coisas deveriam ser. Não me refiro a empalhar o defunto e deixá-lo na sala sentado na poltrona com a tevê ligada, como se o coitado fosse um zumbi. Me refiro ao fato das pessoas acharem justificativa para tudo, nesse caso colocar o peso todo nas costas da morte. A morte é inevitável, e é uma das poucas certezas que temos sobre o futuro. A morte não é cruel, ela é necessária. Uma ponte de transição. É fácil dizer isso quando ainda não morreu – HAHAHA, faz-me rir com tamanha idiotice, Jozieli! Ou mais fácil quando nenhum de seus amores platônicos ou romances efetivos, partiu dessa para melhor. Já tive perdas, já chorei e já quis morrer, melhor, explodir o mundo – que o Pentágono não tenha conhecimento destas últimas palavras. Nunca perdi um amor, apenas nunca tive um. Melhor não ter do que perder. É incrível a facilidade das pessoas em se intitular apaixonadas, completamente entregues ao amor verdadeiro. Santa hipocrisia. Mas voltemos à morte que separa os tais “Amores-Eternos”. Ela não deveria separar amores. Também não sou tola nem hipócrita a ponto se dizer que é possível manter contado com alguém depois de morto via uma conexão celestial, ou infernal. A morte separa, embora não devesse. O hilário é que as pessoas a usam como justificativa. Antes mesmo dela chegar, já estão a chamando. Somente os corajosos continuam amando mesmo com a chegada da morte. Somente os insanos e dementes amam, sem se preocupar com a morte, pois apenas amam enquanto estão vivos. Corajosos, insanos e dementes. Pois quem ama tem que ser corajoso o bastante, insano ao extremo e muito, muito demente! O amor é isso: raro e insano. “Como pode alguém ser tão demente, porra-louca, inconseqüente e ainda amar?” – sábio Cazuza. Eu mesma diria de outra forma: Como pode alguém ser tão demente, porra-louca, inconseqüente e deixar de amar?

↕Último Despertar

Seu sono foi interrompido pelo choro que ao longe perturbava e invadia seus sonhos. Era um choro abafado, intrigante e curioso. Sem nem perceber, já estava em meio ao corredor, com a face iluminada pela luz da lua que havia passado entre as finas gotas daquela chuva de outono, e que invadindo através da janela, quebrava a penumbra daquela triste noite, que reforçava ainda mais a escuridão e a melancolia que tomavam conta do velho casarão.Não havia nada que pudesse lhe tirar a estranha ligação que a guiava em direção a aqueles gemidos. Sem saber ao certo porque, reconhecia aquele pranto, e sentia as mesmas lágrimas choradas até então por um desconhecido, lhe cortarem a face, como que um pressentimento de que estava prestes a descobrir algo que mudaria toda sua existência, e que tudo o que havia aprendido e visto até aquele instante, de nada mais valeria, porque, sem nenhuma resposta, sabia que não iria mais precisar do seu passado e o futuro seria incerto para sempre, a partir dali. Todos esses pressentimentos e esses estranhos sentimentos a assustavam e a deixavam ainda mais perturbada.Na medida em que se aproximava dos gemidos, a chuva que antes era calma e serena, agora, estava forte e abafava ainda mais aquele pranto. Mas mesmo assim, pôde perceber que havia varias pessoas e não apenas uma como no inicio, e que enquanto uma se destacava pelo angustiante pranto, as outras murmuravam baixinho, como uma platéia, que de camarote, não queria interromper o espetáculo.Já avistava a opaca luz que vinha da capela, e a alguns passos de descobrir o que tudo aquilo significava, o choro que antes era abafado e contido, agora estava prestes a ser interrompido por um grito de dor e melancolia. Foi no exato momento em que se pode ouvir um assustador e agudo grito de NÃO, que segundos depois, foi repetido por ela como um eco, que ao se deparar com aquela cena, não teve outra reação se não dizer NÃO. A sutil diferença é que ao contrario do primeiro grito, o seu não foi ouvido por mais ninguém, além de si própria.Ao chegar à porta da antiga capela, se deparou com sua mãe debruçada em cima de um caixão desesperada aos prantos, molhando com suas tênues lágrimas o mesmo vestido que ela havia ganho semanas antes, e que pretendia usar no natal.Foi correndo até o caixão. Esbarrou no irmão que do lugar não se mexeu, passou entre os conhecidos e os desconhecidos, mas ninguém a viu. Gritava por ajuda, pedia explicações: “Mamãe, mamãe, o que houve?”... “Eu estou aqui não chores”. Era inútil, ela não existia mais.Estava em pé, ao lado da mãe, olhando perturbada aquela cena. Ficou olhando para si mesma dentro do caixão por um longo tempo. Estava pálida, tinha nas mãos entrelaçadas em cima do ventre, uma flor branca. Os finos fios dourados do seu cabelo haviam perdido a cor. Seus olhos agora selados por toda a eternidade, jamais voltariam a ver o nascer do dia seguinte. Ela não lembrava de nada, não sabia como, nem porque havia morrido, era apenas uma menina de 16 anos, que ao acordar no meio de uma noite qualquer, percebeu que nunca mais haveria pôr-do-sol.Ela se tornou uma alma esquecida, e tudo o que havia aprendido sobre inferno e céu, não fazia sentido algum, pois ela continuou vagando pelos cômodos da casa, para sempre. Talvez o paraíso fosse lá, ou o purgatório.Os dias foram passando, no inicio ela pegava alguém em algum canto da casa lamentando a sua ausência, e aquele pranto daquela última noite se repetiu incontáveis vezes, mas com o tempo se tornou cada vez mais raro, e as lembranças da sua existência foram desaparecendo com os anos, da mesma forma que seu rosto perdia a nitidez e ganhava uma cor amarelada, no retrato preso na parede da sala. Às vezes parecia que ela nunca havia existido. As pessoas seguiram suas vidas sem ela, o que a frustrava de tal forma que um dia cansou de tentar fazer com que alguém a ouvisse ou a visse. Ela demorou, mas entendeu que era inútil, pois você não vê o que não lembra e você não ouve o que já esqueceu.Os anos seguiram a lei do tempo. Todos morreram, todos. E ela nunca entendeu porque somente ela estava condenada a passar toda a sua eternidade na velha casa, que hoje é habitada por outra família, e ela sabe que virão outras e outras, tão iguais e tão diferentes desta e das que já moraram em sua casa. Ela também sabe que todos a deixarão e somente ela restará, pois todos a sua volta a deixam sozinha.Quem sabe um dia ela não desperte de um sono profundo com um choro perturbador de sonhos, e talvez tudo não tenha passado de um longo e triste pesadelo, e ela poderá usar o vestido no natal como havia planejado, e quem sabe fazer tudo aquilo que sempre desejou. Mas ela nunca mais adiará os planos por muitos dias, já que estes podem nunca vir a chegar, pois quem sabe este poderá ser o seu “último despertar”.

↕ As Paredes

Quando as paredes estavam em pé, o lugar foi uma espécie de pavilhão onde aconteciam velórios. Há doze anos atrás, uma menina pálida de cabelo dourado e longo, levemente cacheado nas pontas descia de um carro e se deparava com as mesmas paredes, até então inteiras. As paredes eram fortes, gigantescas perante Ela. Ela temia, não queria entrar, mas foi inevitável. As paredes estavam em pé, Ela desmoronava. Chovia, ventava, o dia não poderia ser mais triste. Talvez se o céu estivesse azul, e pássaros dançassem nele, as coisas teriam sido menos difíceis. Mas seria uma hipocrisia. Ela não entendia direito o que estava acontecendo. Tinha viajado horas e horas e estava exausta. Seus olhos amendoados estavam sem o brilho. E em breve o cabelo perderia a cor, e a sua palidez se tornaria mais forte. Ela sabia que as coisas mudariam, que as coisas tinham mudado nas últimas horas. Sabia que lembraria daquele dia para sempre, e sabia também que teria que fingir que tinha o esquecido, se quisesse ser forte. Ela tinha que ser forte. Buscar força em um lugar até então, desconhecido. Nesse dia ela aprendeu que as coisas se perdem. Nesse dia ela aprendeu que as perdas geram mudanças.. Doze anos mais tarde, ela volta no mesmo lugar. Se depara com as mesmas paredes, só que agora desmoronadas. Ela esta de pé. Venceu o tempo, aprendeu a se esconder quando quisesse chorar e lembrar daquele dia. Encontrou a força e a guardou, a cultivou. Ela mudou. As paredes mudaram. Ela esta em pé. As paredes desmoronaram.

↕ Ela Jurou

Num sonho, Ela lhe deu a flor, que era a última. Ela jurou nunca mais voltar lá. Enquanto Ela seguia o mesmo caminho, a brisa do vento batia em seu rosto. Vento morno, sensação de uma insustentável leveza. Cabeça baixa, olhos que miravam o chão. As folhas secas dançavam na rua entre os seus pés, como se estivessem felizes pelo seu retorno. Lembrava do caminho, da mesma forma que lembrava do sonho que não foi seu. Ela jurou que nunca mais lembraria. Ela jurou que nunca mais sonharia. Tudo em vão, pois por mais que repudie, o sonho dorme e acorda ao seu lado. Todas as noites, Ele sempre está lá. Há algum tempo, Ela jurou que nunca mais o deixaria passar a noite, ao seu lado. Mas quem pode decidir o que sonha? Na tentativa de manipular seus sonhos, tentou não sonhar com sonhos alheios, pois acreditava que se não sonhasse, não lembraria. Acordaria todas as manhãs e não olharia para o lado. Não o veria, o esqueceria. Ela jurou que nunca mais lembraria do sonho. Dias e dias, Ela conseguiu. Ela esqueceu o sonho. Porém, em uma manhã ao despertar em sobressalto, Ele acordou do seu lado. O sonho, o mesmo. A flor, a mesma. A rosa branca que Ela um dia, lhe deu. “Essa era a última flor”, foi o que Ela disse. A flor que era a última, vem seguida por um beijo. O último beijo. Ela jurou que nunca mais sonharia. Mas quem pode decidir o que sonha? E Ela sonha. E continua jurando, em vão.

↕ Olhos Expressivos e Insanos

Olhos negros, expressivos e insanos. Expressivos, pois transmitem esse ar de observador nato, que você é. Seus olhos, falam por si só. Diante deles, as palavras tornam-se dispensáveis. Insanos porque, convenhamos, insanidade é o que você vê o tempo todo. Insanidade é o que nós vemos, é o que nós vivemos. Olhos refletem como um espelho o que vemos, e o que vivemos. Pois bem, sendo assim faço jus à primeira frase: seus olhos são expressivos e insanos. Olhos que condenam e contemplam. Tantas foram as vezes que esses olhos me condenaram. Tantas foram as vezes que esses mesmos olhos, me contemplaram – essa última muito mais que a primeira! Há quem afirme que uma conversa “olho no olho” é capaz de transmitir confiança e sinceridade, pois os olhos mostram verdades. Eu concordo! Mas para dois pares de olhos se encararem, requer muita coragem – ou seria, insanidade? Afinal, se os olhos são a janela para a alma, como dizem, sabe-se lá quais surpresas se escondem nos olhos alheios. Corrijo, não, não é questão de coragem, e sim confiança. Para dois olhares se encontrarem e permanecerem unidos, requer confiança. Sendo assim, depois de muito recuar, encarei seu olhar. O deixei cruzar diante do meu, e ali ficar. No instante em que olhei no fundo dos seus olhos, encontrei algo inestimável, encontrei um grande amigo.

↕ O Tempo Que Eu Preciso



Crises existenciais me acompanham como cócegas nos pés, desde menina. E ontem, no meio de mais uma dessas intermináveis crises, lembrei de um fato curioso. Há algum tempo, a irmã de uma guria, que na época era minha amiga e que hoje em dia nem converso mais, a não ser semana passada quando a mesma passou por mim na rua e me soltou um belo sorriso frouxo e amarelado, e um “oi” quase que vomitado. É incrível como as pessoas passam pela nossa vida, e não deixam nenhum vestígio. É raro as que permanecem. Então, voltando à reflexão do inicio, a irmã da guria do sorriso amarelo, estava beirando os quinze anos. Ela me disse a seguinte frase: “Ih, daqui a pouco chego aos dezoito. O tempo voa, que você nem vê!” Eu, com oito anos na ocasião, sonhava em usar sutiã, tinha nojo de beijo na boca, queria ser professora e não via a hora do tão almejado quinze. Pensar nos quinze anos, provocava um certo brilho no olhar. Quanta tolice!! É, quinze anos é algo esperado para qualquer guria. Sei lá o porquê, mas só sei que é assim. Bem no fim, o tal quinze chegou e passou rápido! Parece que foi ontem que a tal frase “ o tempo voa” foi dita. Isso assusta, né? As coisas passam rápido, a vida passa rápido. Você acorda sem ter certeza se vai dormir. Às vezes algo insignificante, segundos, pode mudar o rumo da sua vida! Só quem já teve perdas, acho, pára pra pensar o quanto o tempo é curto. Sim, nunca me recuperei da tal perda paterna, talvez seja por isso que eu possuo uma leve perturbação – muito leve, quase imperceptível, diga-se de passagem! A intenção desse texto não era escrever nada biográfico, era na realidade para refletir. Refletir o quanto o tempo é de fato muito curto, passa rápido e não espera ninguém. Mas espero, sinceramente, que daqui uns 10 anos, eu esteja escrevendo outro texto, talvez com os mesmos medos, aflições e cócegas existenciais, mas com alguns dos meus mais singelos sonhos já em mãos: uma mesa entulhada de papeis, em uma redação de uma revista semanal de grande circulação; uma bela casa no mato, com uma lareira e árvores, muitas árvores; um laboratório fotográfico; já ter ido para a África fazer um documentário; já ter escrito algum livro; já ter ganho algum prêmio Esso; e por fim, conseguir retribuir tudo o que a dona Lucia já fez por mim nessa curta vida. E beirando os dezoito, eu espero apenas uma única coisa da vida: que me dê o devido tempo, que eu preciso!

↕ Ela é Minha Vida



Ouvir a seguinte frase: “você é minha vida", deve ser no mínimo bom. É, somente bom, sem nenhum exagero ou maços de cabelo arrancados devido a uma declaração dessas. Para muitos, parece tolice dizer que um outro alguém é "a sua vida". Como podemos jogar nos braços de outro, todo o peso destinado e referente somente a nós mesmos? Contesto, isso é pura inveja e egoísmo. Afinal, como é bom fechar e olhos, e no meio da escuridão ter alguém a quem se pode, sem medo de pestanejar, ceder sua própria vida! Nem todos têm essa sorte. É, eu chamo de sorte. Acredito que uma vida possa parar, ou acabar com a ausência de outra. É incrível como as pessoas são dependentes umas das outras. Hitler até já fez experiências sobre isso. Algumas pessoas tornam-se a essência de outras, como algo vital para a sua sobrevivência. Amor materno, eu diria, é assim. Talvez seja o único amor capaz de tal proeza. Por isso podem até me intitular: tola. Jozieli, a tolice em pessoa! Admito, resumi minha vida a um metro e meio, da fisionomia materna. Digo com todas as letras : “ela é a minha vida”. Convenhamos, ceder seu próprio ventre, e ainda ver estampado no intruso inquilino, traços expressivos e temperamentais, até então únicos e exclusivos seus, isso é vida! Desde criança, quando algo vai além da sua própria capacidade de entender ou resolver, solta-se o grito, e em um tom exagerado, fala-se: MÃÃÃÃÃE! Ah, não sejam hipócritas, todo mundo já passou por isso. Recorrer à mãe, ou seja lá quem for a tal figura materna, quando algo foge do controle. Isso é sinônimo de proteção, amparo e amor incondicional. A quem mais poderia eu, entregar minha valiosa vida? Somente a ela, Mãe.