O nascimento e o nome não virão na primeira linha. O ponto de partida deve ser uma lembrança; a primeira da infância, ainda nítida. Aos quatro anos temia a chuva. Achava que os pingos da chuva se transformavam em peixes quando caiam nas poças d’água – o pingo vinha do céu como uma pedra lançada, encontrava a água morna e, furtivamente, a deixava em pura agitação. Ainda hoje, essa lembrança desperta nos dias chuvosos, mas não temo, pelo contrário – ela emudece raios, pinta de azul o céu que do outro lado da janela insiste em trajar cinza. Essa lembrança quem me deu foi meu pai.
Pelo o que me consta, a vida começou no dia 19 de dezembro de 1989. No mesmo dia e mês, em 1915, nascia Edith Piaf, o pássaro francês. Não, eu não canto (sóbria), mas foi com mulheres como Edith que aprendi que a música – assim como a literatura – é capaz de eternizar histórias e servir, principalmente, como ferramenta de luta; seja em revoluções ou pela simples sobrevivência diária.
O tempo passou traçando datas, trazendo nomes, rostos, anos...
Folheando um livro, há alguns meses li a seguinte frase: “Você é muito medroso e com medo ninguém consegue escrever”. Mais uma vez Clarice Lispector veio até mim, desta vez me mostrando que com medo ninguém é capaz de viver. Por isso deixei o medo na primeira lembrança, nos jardins da infância.
Em pouco mais de setenta páginas, conheci um homem e uma mulher, ambos na mesma história. André e Dorine, embora seguissem o existencialismo como corrente filosófica, não praticaram os mesmos preceitos dos amigos Sartre e Simone. E é assim, versando o amor e o existencialismo que André Gorz narra os anos que viveu ao lado de Dorine.
De antemão, o que torna este romance fascinante é o enredo: renomado filósofo e jornalista austríaco (radicado na França), tem o primeiro romance publicado postumamente, após suicidar-se com a esposa, Dorine, em 24 de setembro de 2007. Eis o especialista em Sartre, teórico social e político, líder em Maio de 68, autor de diversos livros na área de sociologia e filosofia, divagando abertamente sobre o amor; e este vem ácido, nem sempre macio.
Engana-se quem espera ler uma história fúnebre, sobre uma mulher que convalesce e recebe efusiva veneração. Gorz não destina uma admiração desmedida a esposa, pelo contrário, a justifica todo instante; e convence, pois ao último ponto final do livro todos se tornam fãs de Dorine. Enquanto eleva a esposa, o autor revela fraquezas, narra uma série de martírios por integrar o enlace matrimonial e, principalmente, por inferiorizar aquela que deu sentido a sua existência.
Outra surpresa. A tão mencionada doença de Dorine toma forma somente nas últimas páginas do livro, não é o foco central da história; que também aborda vários aspectos socialistas. Mas, sobretudo, Gorz buscou mostrar como um amor amadurece e é capaz de “renunciar para se concentrar no essencial”. Assim, o autor biografado não mediu esforços para prolongar a vida da esposa – expõe um amor raro, invejável.
Carta a D é a história de uma relação amorosa que ora parece surreal, ora se torna palpável; é preciso sensibilidade no instante que as palavras encontram os olhos e, sobretudo, chegam ao coração. É um romance de um casal, como tantos outros, que enfrentou dificuldades financeiras, emocionais, ideológicas e até driblou a morte para permanecer juntos. O suicídio não foi uma atitude egoísta de quem temia seguir o carro fúnebre da esposa. Os dois escolheram morrer esperançosos, certamente de mãos dadas, crentes que adiante haveria um novo amanhecer.
Às vezes ele passa rápido pela cidade. Me abraça forte, fala do meu perfume, pergunta como estou. Silencia – deixa que eu acaricie seu rosto, o beije macio nos lábios. Depois segue lacônico pela estrada, sempre com as mãos vazias, sem bagagem.
Quiçá pudesse levar consigo minha saudade.
Quiçá a estrada travessa o trouxesse todos os dias para mim.
Se tratando de Clarice Lispector, suas protagonistas tornam-se tão ímpares que todo romance parece ser um monólogo. Não, não vou falar sobre Água Viva e sua protagonista sem nome nem rosto, que divaga sozinha ao vento. Falo de Joana, Lóri, Macabea e, principalmente hoje, da doce Virgínia, que protagoniza “O Lustre” (1946).
Imagino Clarice dizendo “Que demora, Virginia”, com sua língua presa e seu R arrastado: “Que demorrra, Virrrrgínia”. Demorou para quê? Para cortar o cordão umbilical; soltar a mão da infância; perder o júbilo pela família; esquecer o lustre do velho casarão. Demorou demais. Passou a maior parte da vida temerosa. Até que, diante de uma esquina, ao se ver insustentavelmente leve e prestes a ser livre, distraiu-se e deixou-se atropelar. Agonizou na rua, perante estranhos; partiu sem saber que deixava um coração partido.
Com ela, Clarice quis mostrar que uns conseguem andar sozinhos, trilham sua estrada sem sentir dor. Outros são mais vagarosos. Virginia foi assim – a menina que passou a infância querendo sair da fazenda e, já moça, sentia-se infeliz por dividir um apartamento consigo mesma e por se ver deslocada no epicentro da agitação de uma cidade pulsante; aquela dos sonhos juvenis.
Mas Virginia, sem muito esforço, penetra em você. Assim como as outras personagens de Clarice, esta pecou por amar demais. Vicente, eis aqui o nome do homem em questão. Mas ela não é todo amor. Com e sem ele, Virgínia nos lança, maciamente, doses de inquietação e questionamentos. Torna o futuro um lugar incerto; que em cima de uma gangorra, pende entre o lado seguro e o leviano.
No entanto, o que de início veio macio, aos poucos se torna perturbador; pra quem lê e pra quem escreve. Acho que por isso Clarice tratou de assassiná-la. E pra quem não sabe, a alternativa “atropelamento” foi inaugurada por Virginia (Macabea morreria, também assim, somente em 1977). E assim morre Virginia, sem despedida, apenas inundada de esperança, projetando um futuro bom.
Difícil tentar desvendar Clarice e suas personagens. As mulheres de suas histórias se misturam a autora e a você, leitor, que sempre vai pensar que está lendo uma autobiografia – de Clarice e, porque não, sua. E então você lê e relê páginas e páginas absorto, condenando-se por se identificar com tamanha inquietação. Fascinante essa capacidade de Clarice, em nos fazer pulsar, em nos fazer estremecer e, principalmente, nos questionar. Em “O Lustre” ela dá os primeiros passos para o que viria a fazer ao longo de toda sua obra. E o fez com muita maestria.
Os pássaros somem do céu conforme nos distanciamos da infância. Quando se é criança o céu parece ser muito mais movimentado por pios capazes de fazer despertar – alguns rouxinóis até morrem por amor, dizem.
A garoa veio furtiva, mas deixou no ar aquele cheiro gostoso de terra amançada pela chuva. Dia desses me deparei com alguém que não tem olfato. O que é pior, ser Grenouille ou não sentir odor algum? É certo que memória olfativa é inferior à visual, mas cheiro emite vibração, sensualidade, marca momentos e sentimentos que fazem o coração pulsar forte. Mas tem gente que evita. O que faz alguém evitar essas sensações? É a insistência em pensar.
Fugi delas como quem evita a consciência e suas verdades. Durante meses passei por inspirações nulas, indignas de uma frase no papel; sempre em branco, feito poeira de frustração que invade os olhos. Roberto jamais entenderia isso. Para ele basta que meu vestido esteja bom e o batom em boa tonalidade. Ainda aqui, nesse banco úmido, espero pelo homem que escolhi; encaro o silêncio dos pensamentos como a melhor rota de fuga.
Pelo céu, um pássaro voava maciamente. Mas Alicia não o viu.
Glauber, confesso, permiti que as flores murchassem! Você ao menos sabia que era a reencarnação de Castro Alves e morreu feliz, por ter vivido mais do que Che Guevara. E eu? O máximo que consigo é uma catarse literária onde abstraio a melancolia dos autores que leio; e só. Talvez seja verdade que escrevo contos bacanas sobre uma tal de Clarice sem rosto, mas fora issosou apenas “uma nuvem de saia”, que cultivou por muito tempo um ramalhete de incertezas vermelhas – que agora estão mortas.
Um dia me disseram que o tempo é amigo daqueles que não têm pressa. Mas eu não temo a pressa – a mesma que agora me pega, enquanto corro para não perder o ônibus que me levará para o lugar de partida. Aqui, já sentada, olhando os carros passarem em movimento do outro lado da janela, me alegro por ouvir Beatles na rádio da cidade, em plena tarde de uma quarta-feira qualquer – a mesma alegria oca que senti ao admirar um manequim nu numa vitrine quase vazia.
O sol ferve lá fora; admiro os gestos mecânicos das pessoas que teimam em negar que trazem no peito “um coração de carne, que sangra todo dia”, como dizia Saramago. “Dizia”, triste pensar em dizer “dizia”. Sei que quando sair desse ônibus azul, vou andar pela ruazinha arborizada que antecede minha casa e ali, em passos lentos, vou abocanhar o sol; o mesmo sol que em instantes irá se pôr. Mas como diz aquele que abocanha meus seios: “pare de regar as flores da incerteza”. Foi ai Glauber, nesse dia, que finalmente entendi o que somente a voz do amor seria capaz de me mostrar: a incerteza é a única flor que não merece ser regada. Por isso Glauber, confesso, deixei que essas flores murchassem!
O currículo havia sido entregue há semanas. Depois dele veio a entrevista (trágica); a quarta nas duas últimas semanas. É bem verdade que se a chamavam é porque algo de bom havia de ter no currículo insosso da foca – você ai, que não transita no universo jornalístico, saiba que aqui o substantivo “foca” vira adjetivo e designa a pessoa (corajosa e sem juízo) que conseguiu terminar o curso, o recém formado.
Avisto a casa e juro mais uma vez que “essa será a última vez que irei até lá”. O receio em visitá-la pesa mais do que a leveza da sua presença grisalha. Ela mora longe, no alto de uma colina; tomada pelo tapete esverdeado que dá lugar a uma árvore que, sozinha, zela pela humilde casa de madeira que um dia foi azul.
Finalmente cheguei. Bato na porta... silêncio. O som de passos macios no assoalho capenga da casa aos poucos começa a se aproximar. Ela aparece, me olha, como se quisesse enxergar minha alma – depois suspira. Então, estende suas mãos em direção aos meus ombros, me abraça forte e se apresenta: “prazer minha jovem, me chamo Felicidade”.
Entro. Aquele seu olhar de quem está diante de uma estranha foi insuportável. Queria poder gritar que ela me conhecia, que me viu crescer e que por diversas vezes já me visitou – que zelou por meu sono, que me fez sonhar. Mas a desordem se aquieta dentro de mim; reflito e percebo que é natural que ela não me reconheça, afinal, há tanto tempo não venho lhe visitar.
Me calo, a deixo falar. Reparo nos seus traços, tão similares aos meus. Os olhos cansados, a face flácida de quem um dia já foi bonita. A mobília está no mesmo lugar – parece que estive aqui ontem. Na parede, aquele mesmo quadro antigo com a figura de um belo casal. De novo: aquele mesmo quadro antigo, que quando eu criança me prendia por horas, continua aqui – e o meu fascínio por ele também. Ela percebe que estou longe, com os olhos fixos no quadro, então fala: “hoje você entende que eu moro num quadro assim – me deixe pintar o seu”.
Parti. Sai do alcance dos seus olhos e sei que novamente sofrerei para sempre por isso. Então olho para trás, avisto aquela casa e juro, mais uma vez, que nunca mais irei até lá.
“Você gosta de viver?”, pergunto, antes que ela suma no corredor escuro. Ela se volta para mim: “Você gosta de respirar?”. Eu estava ali, mais uma vez, preso na sua teia invisível; incontáveis vezes lançada em mim, por aquele par de olhos amendoados. “Gostar não gosto, apenas respiro... oras, respiro porque preciso”. Ela gargalha, mas não é de alegria, é de raiva: “Você respira porque é covarde”. Covarde soou vagarosamente pela sala, e veio até mim como uma bofetada no meu rosto; com o rrrrr arrastado da sua língua prrrrresa. Finalmente ela some no corredor; sinto alívio. Minutos depois, ela volta com um pedaço de bolo de chocolate e uma xícara de café, os coloca na mesa de centro e diz, ríspida: “Coma! Essas suas olheiras são indícios de que você não está se alimentando dirrrreito”. Uma tensão pousou na sala e sem pedir licença sentou entre nós. Aquela frase foi o mesmo que dizer “quando estávamos casados, ao menos você comia direito”. Senti um leve instinto fraternal, uma faísca de zelo e amor. Mas foi um sopro de vento que se dissipou assim como veio, brevemente. Garfei o bolo como quem garfa a coragem, e me arrisquei: “Você me acha covarde?”. Ela acende um cigarro, o traga lentamente. Enquanto me responde, deixa que a fumaça escape entre seus lábios: “Covarrrrde sim senhor. Mas sempre achei o medo o pior dos seus defeitos”.Não hesitei, nem relutei... ela tinha razão. “Por isso você nunca deixou de ser um escritor de gaveta, pois com medo ninguém escreve nada”. De repente, uma sombra atravessa a sala rapidamente. “Seu apartamento agora tem ratos?”. Ela me contou que há tempos as folhas de hortelã nos armários deixaram de afugentá-los e que não se incomodava com a presença deles. Foi ai que tive a infeliz ideia de acrescentar um: “Sorte sua é que os ratos não inventaram um veneno contra pessoas”. Ela ficou em silêncio, e após uma profunda tragada soltou: “Erro seu. Eles lançam sobre nós o pior dos venenos: o medo”. Silêncio. Tomei o café, comi o bolo, ela acendeu outro cigarro e andou vagarosamente até a janela. “Você me perguntou se eu gosto de viver... sabe qual é a resposta?”, me questionou como que questionando a lua. Continuei calado. Seus olhos estavam mais firmes que nunca; estavam mareados de certeza: “Como você mesmo diz, gostar eu não gosto; no meu caso, vivo porque temo o que posso encontrar no outro lado da vidraça”. Me despedi. Ela me levou até a porta. Enquanto esperávamos o elevador, ela me beijou maciamente nos lábios e disse: “Venha me visitar mais vezes, e continue usando esse tom de azul, ele lhe cai bem”. Fui para casa embaixo de uma garoa fina, sentindo uma estranha sensação de nudez.
Aquela foi a última vez que a visitei, antes daquela manhã de dezembro, em que me ligaram do hospital dizendo que Clarice havia cometido suicídio; exagerou nos calmantes, um dia antes do seu aniversário, como quem quis imitar Florbela. Engraçado, até hoje trago comigo o peso de uma viuvez que não me pertence, afinal, já estávamos separados há doze anos. Mas todos os dias lembro daquele seu “covarrrrrde”; e não faço nada para tirá-lo de mim.
Tá com tempo pra um café? Tempo(?), essa fazia tempo. Na verdade não, mas adoro café e esse crachá tá me pesando no pescoço. Queria falar umas coisas com você. Pode falar. A gente pode continuar assim? Assim como? Assim, fazendo um diálogo na mesma linha. Ah, claro... Quem se importa? Na verdade muita gente se importaria. Não, mas eu digo: “quem de nós dois se importa?” Ah, se é assim... nenhum.
Me diz uma coisa, tu já se sentiu próxima da loucura assim__________? "Loucura", não de chegar a experimentá-la, mas de conseguir vê-la e entendê-la. Tipo, ver as borboletas azuis e negras, mas não tocá-las? É. Já. Poisé, eu tô assim há algumas semanas. Eu entendo, tem até um livro que fala disso, que na verdade os loucos são os mais lúcidos, “Elogio da loucura” é o nome. Aliás, sempre achei que o Arnaldo escreveu “Balada do louco” por causa desse livro “mas louco é quem me diz que não é feliz”. E o Machado abordou isso, ironicamente, em "O Alienista". Ok, vai ver eu entendi esses livros da forma errada... chega, parei. Para, eu gosto disso em você. Mas sabe, a questão é que eu me sinto a pior pessoa do mundo vendendo o tempo da minha vida por dinheiro! Quer ver, eu cheguei a anotar pra te mostrar... guardei no bolso, espera_______________. Aqui está:
"Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido." - Dalai Lama
Li isso e fiz um texto mega niilista hoje. Tá bem, eu sei, eu sou um porre com esse papo de niilismo né, mas fazer o que se eu me divirto escrevendo e argumentando sobre assuntos como se eles fossem de importância vital, sendo que a importância deles é ínfima. A verdade é que somos céticos demais, lúcidos demais. É, com uma loucura tão próxima a gente se sente menos sozinho no mundo. Nossa, essa frase é de quem? Qual? Essa que você acabou de falar. Ué, é minha. Bem, eu acho que é. Na verdade, eu não me considero louco sabe. Eu me considero consciente dentro da minha estupidez. __________________ você tem um cigarro? Não pode mais fumar aqui. Ah é, agora tem mais isso. Tá vendo aquele cara sentado sozinho no outro lado da rua? Claro que sim, não sou míope. Quando você olha pra ele, você se sente bem ou mal? _________________ não sei. Pois eu meu sinto bem pra caralho! Na verdade, quando vejo alguém sozinho me sinto acompanhado. Por isso nos damos tão bem, porque pintamos os nossos céus da mesma cor. Que bonito isso... E que cor é? Azul? Não sei... Azul é feliz né? É, pensando bem acho que azul é meio feliz. Mas, de qualquer forma, tem que ser azul_________________. Não sei, ainda acho que azul não soa bem.
Parece que a gente tem uns 60 anos sabia? Não sei, geralmente as pessoas com 60 tomam chimarrão e jogam canastra. Não ficam sentados na calçada escolhendo a cor dos seus céus. É... Odeio chimarrão. E canastra? Canastra também. Você percebeu que quando eu tomo o rumo da conversa ela fica absolutamente desfocada, sem nexo e desinteressante? Não acho desinteressante. Que alívio _________________. Tenho que ir trabalhar, você viu meu crachá? Não, acho que você colocou no bolso. Verdade. _________________ azul escuro! Quê? O céu, nosso céu _________________azul escuro me parece aceitável. Azul escuro então? Concordo, azul escuro.
Te olho no espelho, nas fotografias de anos atrás e fico pasma com a sua frieza: como você conseguia sorrir daquele jeito? Eu sei, hoje, aqui, a expressão mais forte que consegue é o suspiro de cansaço, aquele que vem toda noite quando o sono está prestes a entrar. O sono entra sem cerimônia, afinal, já é de casa – senta confortavelmente no sofá da sala, e de lá, enquanto assiste putaria e toma café, zela por seus sonhos. E quando amanhece, você permite que o sono leve consigo seus sonhos, numa malinha preta de couro barato. O destino: a casa amarela de uma senhora grisalha chamada Covardia. Por isso há tempos suas lembranças não têm sonhos; nem sonhados, nem infundados.
Por quê? Para justificar você usa frases repetidas e aplica nas feridas doses incalculáveis de martírio, mesmo sabendo que elas fecham, reaparecem e depois partem novamente, como o sono com seus sonhos.
Ah sim, voltemos às fotos com sorrisos estampados: são do tempo em que você era apaixonada pelos morangos que seu pai plantava no quintal. Você não lembra, mas ele guiava suas mãozinhas para que o fruto fosse colhido da maneira devida, “você corta aqui ó, dois dedos acima do solo”. Hoje, seus dois dedos equivalem a um, e os morangos mofaram.
Você precisa aceitar o fato de que somos, eu e você, como uma árvore de vinte anos: que começará a morrer antes mesmo que os primeiros sinais de fraqueza contornem os traços desse corpo cansado. E esse corpo miúdo perdeu o viço naquele dia em que você os deixou partir: os sorrisos e os sonhos.
“Colo o rosto no seu peito para te ouvir pulsar.” Deitada no peito dele, lembra de quando era criança e costumava juntar umas cinco peças de roupa, o urso preferido, e depois de organizar cuidadosamente a “mala”, chegava na sala, olhava para os pais e dizia “to indo embora!”. E saia, correndo e gargalhando pelo quarteirão, até ser alcançada pelo pai. A cena se repetiu incontáveis vezes na infância; impulsionada pela ânsia, até então discreta, de ficar só. Mas ela nunca foi muito longe, e com o tempo passou a correr em círculos pela trilha do mundo, forjando rastros para quem pela estrada passasse e se pusesse a segui-la. Nunca permitiu ser guiada - até aqui. A mudez da solidão se tornou sua única companhia; que lhe via pura, nua, de um jeito que ela nunca se mostraria voluntariamente – não era tímida nem pudica, temia a nudez porque ela sempre vinha por último e era a dona da palavra final.
Já se passaram alguns minutos que os dois estão ali, num absoluto silêncio. Ela traz uma flor no cabelo porque não pode ganhar as que estão no caule. Olha cada detalhe do rosto dele – “Quero eternizar o seu olhar. Por isso o fotografo, emolduro, e coloco a fotografia num bidê dentro de mim”, balbucia para si mesma. Ele tira do bolso uma fita K7, entrega para ela enquanto diz: “eu vou te mostrar que as coisas podem ser diferentes, só me deixa... me dê tempo para que eu possa te guiar”.
Logo em frente havia uma árvore, forte, firme, com galhos longos e que assistia tudo. No verão anterior essa árvore possuía um galho que fazia uma enorme sombra no lugar onde eles estavam. Mas o galho não está mais lá, deve ter sido podado, ou apenas quebrou. Hoje o sol ilumina esse lugar.
Não há nada pior do que o vazio de uma folha em branco. Por isso, enquanto escrevo sobre eles, me pergunto se devo apressar os passos e esboçar logo o final feliz dessa história. Então, percebo que ele virá em sopros, e eu posso levar a vida inteira para alcançá-lo.
Mas hoje eu tenho um bom guia; e o anseio de ir embora repousa nos jardins da infância.