sábado, 6 de julho de 2013

Elogio da loucura

Ferreira Gullar tem dois filhos esquizofrênicos. Certa vez, Paulo, o filho mais velho, resolveu observar o vento. “O vento no rosto é sonho”, disse. Depois, perguntou ao pai se ele sabia disso. Provavelmente não sabia, mas aprendeu. O aprendizado virou poema:

“Ele entrava em surto/E o pai o levava de/carro para/a clínica/ali no Humaitá numa/tarde atravessada/de brisas e falou/(depois de meses/trancado no/fundo escuro de/sua alma)/pai,/o vento no rosto/é sonho, sabia?”.

Dias dezessetes me soam graves. Hoje, enquanto andava pela rua vazia, senti um vento cortante no rosto e lembrei dessa frase “o vento no rosto é sonho”. Eu não sabia disso, mas aprendi. Da mesma forma que, já faz um bom tempo, aprendi o quanto a poesia de Ferreira Gullar é verdadeira e íntima. O aprendizado veio de presente, das mãos mais lindas que já vi. O livro veio, por obrigação; depois, a desolação.

Eu confesso, nos dias de inverno permito afoita que ele me beije. Ele é insano, me beija e beija a todos. Depois segue sozinho, assim como eu. Hoje, por um instante, achei que Paulo tivesse razão, sim, o vento no rosto é sonho.

Toda manhã pela rua enquanto eu passo, meço a angústia que repousa leve, no orvalho das folhas verdes e brancas. Piso macio para que ela não desperte e não pouse densa no meu dia. Grito calada: “não sou daqui!”. Ninguém ouve. Então sinto o vento, o beijo mais uma vez; e percebo que somente a loucura deve ser elogiada. A minha, a sua, a de Paulo, a de Erasmo.

Mas louco é quem me diz que não é feliz. Eu sou, Paulo é, Erasmo era.

*Texto originalmente escrito em junho de 2009, carinhosamente reeditado em julho de 2013. 

sábado, 15 de junho de 2013

Dores do blues




“Gosto de gente doída”, escrevi aos dezoito. Parte disso ainda é verdade. Talvez por isso eu goste de você. Talvez por isso eu goste de blues. O certo é que todos fogem da dor, embora a procurem sem cessar. É uma mania inconsciente. O tempo todo a buscam e hesitam admitir. Eu não fujo, nem nego. Até simpatizo com ela, a considero necessária; desde que seja breve.

Dizem que a gente só sabe o que é o blues no dia em que conhece a dor – existe uma música mais ou menos assim. Mas se o músico tiver razão e a vida for realmente um blues cheio de versos, então a dor é a essência. Eu concordo. Só é possível se sentir realmente vivo depois de sentir a primeira dor. O primeiro tombo, a primeira gota de sangue que escorre pelo joelho trilhando um caminho carmim. Ou a primeira lágrima que molha o rosto – não aquela da infância, pedindo colo – aquela que mostra o quanto o mundo pode ser cruel.

Com o tempo você aprende que cair é fraqueza e chorar é tolice. Ou não, talvez não tenha aprendido nada disso. Talvez por isso eu goste de você. Gosto de você não por sentir amor, não mesmo, mas por sentir a dor, a sua dor; que é tão minha quanto sua. Afinal, é tolice  chorar lágrimas por ninguém e criar um escudo frágil para escapar da dor. É preciso aceitá-la, como uma amiga pouco cauteloza.  

“Libertar-se-à, nunca mais!”. Eis o corvo de Poe, animal maldito, que morre orbitando. O que isso tem a ver com a dor e o blues? Embora não possamos pressentir a morte e voar até o infinito para morrer diante das estrelas, fomos nós, homens, responsáveis por extrair da música muito mais que sonoridade. Blues é, puramente, sentimento.

Dizem que você só vai saber o que é um blues no dia em que souber o que é a dor. Eu digo diferente: você só vai saber o que é um blues no dia em que souber o que é o amor; a dor, garanto, é passageira. E  quando ela te visitar, não a ignore, ela te fará mais forte. Apenas tenha cuidado, garanta que ela seja breve.


*Texto originalmente escrito em março de 2008, reeditado em junho de 2013. 

terça-feira, 28 de maio de 2013

O caso da troca de versos (sem métrica)







Quem acompanha meu blog deve ter visto que em março publiquei uma crônica destinada ao escritor Getúlio Rui Palma. O texto estava escrito desde dezembro, protelei a publicação porque queria entregá-lo pessoalmente ao destinatário. Mas o ano começou do avesso e eu fiquei meses sem vê-lo. Até que publiquei a crônica que, eis a façanha da Internet, foi lida pelos filhos do seu Getúlio. Depois disso, o texto viajou, repercutiu, pessoas que eu não conhecia vieram até mim para falar sobre a crônica. Dia desses, o próprio Getúlio me ligou, avisando que me visitaria para entregar uma espécie de réplica. E a visita aconteceu, semana passada. Numa folha cuidadosamente dobrada, veio o que ele descreveu como “blogue artesanal”. Redigi o texto, respeitando cada vírgula – ele mesmo pediu para que o publicasse na Internet. Eis o carinho desse meu amigo, que tanto admiro e quero bem:


  “Para Jozieli Wolff
  
        O panorama do mundo atual, com a explosão populacional, assusta realmente: as sociedades são cardumes de piranhas que se entredevoram; impera o canibalismo.
          Hoje é perigoso viver.

Ela recém ultrapassou duas décadas de existência. É lugar comum dizer-se “tem toda uma vida pela frente”... mas, nesse caso, a certidão do cartório não acompanha a idade do crescimento mental.
          
Muito simples em seu estilo de vida, não tem atração por conglomerados humanos; porém, não foge da multidão por força de sua profissão: é jornalista. 

Trata-se da comunicadora Jozieli Wolff, atualmente em cargo de assessora de imprensa. Tem o talento da análise literária; senso crítico e analítico. E não lhe falta criatividade. Assim, será normal sua escalada e, de mera assessora, passará a ser assessorada. Eis a previsão. 

 Getulio Rui Palma – escritor.
Maio de 2013”.  

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Envelhecer



Envelhecer. Chegar nessa etapa da vida sem muitas limitações físicas e com a mente ainda agarrada nas lembranças. Esse retrato com cores fortes, alegres, de céu azulado, também pode vir com a plenitude encontrada no interior de uma casinha no meio do nada, sem telefone, sem TV ou som de ambulância. Posso sentir o frescor da aurora nesse lugar. A grama molhada pelo orvalho gelado e acolhedor. O pássaro bicando a terra ainda úmida pela geada fina da noite anterior. Como eu seria feliz se pudesse me despedir do horizonte num lugar assim. Então saberia, prestes a dar o último passo, que tudo valeu a pena, que o medo saiu derrotado e que o amor me fez triunfar pelos anos. Só o amor sabe conduzir despedidas com sabedoria, mesmo que elas sejam inconvenientes pela dor do adeus não dito. Talvez eu estarei sozinha, parada diante da porta, mirando o pássaro de bico gelado. Nesse instante, ela pode vir de subido, me levar tão rápido que deixarei o livro cair no chão. Ou, ainda, pode ser que ela me surpreenda durante o sono. Mas, quem sabe, você e eu ainda estejamos juntos, os dois grisalhos, com as hastes dos óculos contornando as rugas. Poderemos estar na varanda, conversando em pleno silêncio. Então ela virá, cautelosa, sem desfazer o nó das nossas mãos unidas. O outro lado ainda é reticências. Aqui, no hoje, enquanto a morte ainda é devaneio certo, o principal desejo que carrego comigo não está na ambição material. Terei sorte e alegria se alcançar a dádiva de envelhecer.  

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O ativismo pela revolução em “Terra em transe” e “Marighella: retrato falado do guerrilheiro”


A partir de 1964, a resistência ao sistema ditatorial brasileiro inspirou canções, poemas e, numa mistura de audácia e coragem, foi tema de filmes produzidos em pleno regime. É o caso de “Terra em transe”, filme de Glauber Rocha, lançado em 1967, período em que o regime militar atuava com agressividade, principalmente contra a liberdade de expressão. Mas entre fatos e personagens de ficção, estão personalidades reais, que possivelmente inspiraram os roteiros cinematográficos. Um desses nomes foi Carlos Marighella, poeta filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCB), que chegou a ser considerado o principal inimigo da ditadura brasileira. Assim, o ativismo civil motivado pelo anseio em combater a ditadura está presente tanto em “Terra em transe”, quanto no documentário “Marighella: retrato falado do guerrilheiro”, de 2001, dirigido por Silvio Tendler.


Durante a ditadura, contestar era preciso, mas quase impossível em virtude da censura e das represálias. Nesse cenário, o Cinema Novo, as demais manifestações artísticas, assim como a imprensa alternativa, foram mecanismos utilizados por intelectuais da época para disseminar a resistência política. A subjetividade era a principal ferramenta para transmitir tal posicionamento. “Terra em transe” é pura subjetividade, ideologia e alusão. Retrata um país fictício, chamado Eldorado, que por vezes lembra o Brasil. Por lá, articulações e manobras políticas garantem os interesses de poucos, onde o povo continua convivendo com mazelas sociais como pobreza e injustiça.

O filme de Glauber Rocha conta a história de Paulo Martins (Jardel Filho), um poeta com ideologias revolucionárias, que corta laços com o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran) e sua amante, Silvia (Danuza Leão) – mulher que, ao manter uma relação amorosa com Paulo, simboliza a máquina capitalista. Após o rompimento, Paulo passa a se dedicar a um jornal independente, onde conhece Sara (Glauce Rocha) – personagem que representa o desejo pela revolução e resistência política. Dessa relação com Sara, Paulo passa a acreditar que a política é o único meio de ajudar a população, através da eleição de um político popular: Felipe Vieira (José Lewgoy), eleito governador. Contudo, Vieira se mostra um homem fraco, manipulável e, embora tenha vencido as eleições à presidência do país, renuncia o cargo em virtude de um Golpe de Estado realizado por Porfírio Diaz, que almejava “a ordem imposta pela força”. A história também traz um magnata da comunicação, Júlio Fuentes (Paulo Gracindo), que usa a sua emissora de TV para transmitir informações políticas de acordo com interesses financeiros.

Difícil não associar a abordagem de “Terra em transe” com a história política do Brasil. Em 1930, um Golpe de Estado garantiu a Getúlio Vargas a presidência do país, derrubando o então presidente eleito Julio Prestes. Em 1964, outro golpe destituiria João Goulart do cargo de presidente do país, dando início a uma ditadura militar que duraria 21 anos. Sabe-se que durante o período ditatorial brasileiro na década de 1960, os veículos ligados a grande imprensa não contestavam, tampouco denunciavam as ações do regime – atitude guiada pela censura prévia ou, talvez, por interesses econômicos. Também não é incomum em nossa história a inserção na política de pessoas contrárias ao Estado – fica a dúvida se essa inserção se deu pelo desejo de justiça social ou pelo anseio de poder. Assim como Paulo, Carlos Marighella também era poeta e se engajou em ações de resistência política contra a ditadura militar. Chegou a ser eleito deputado em 1946, permanecendo na câmara até seu mandado ser destituído, assim como ocorreu com todos os eleitos pela sigla do PCB, em 1948.

O documentário sobre a vida de Marighella mostra o engajamento do “mulato baiano” no comunismo, bem como a sua vida na clandestinidade, já que seu nome estava na lista dos procurados pela polícia. Depoimentos da esposa, Clara Charf, colegas e partidários do PCB remontam sua trajetória política na “extrema-esquerda”. O filme retrata a sua participação nas ações do PCB para derrubar o regime militar na década de 1960, bem como durante o Estado Novo. Também aparece o seu posicionamento diante a luta armada engajada pelos movimentos de resistência – alguns dizem que Marighella teria sido contrário, outros alegam que ele foi a favor.

Todavia, o documentário também evidencia que a luta armada – promovida por membros da esquerda e inserida nos movimentos estudantis – realizou ações pontuais, emblemáticas, como o domínio da Rádio Nacional e o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Porém, essas mobilizações não ganharam representatividade política, tampouco conseguiram intimidar o governo.  Assim, “Marighella: retrato falado do guerrilheiro” mostra que a organização e a força do Estado, principalmente a partir do AI-5, instaurado em 1968, conseguiram coibir as ações de resistência estimuladas pelo partido comunista. Como resultado, nasceu o sentimento de conformidade diante a situação política e social do país.

Nas palavras de Marighella, “o conformismo é a morte”.  Essa falta de esperança diante o autoritarismo da ditadura, criticada por Marighella, também atingiu o personagem Paulo em determinado momento de “Terra em transe”. Glauber retratou a mesma juventude que galgava por mudança, agora desmotivada, onde mil notícias amargas definiam o mundo e, da adolescência, só restava a dor, em que a poesia perdeu o sentido e as palavras se tornaram inúteis*.

Os filmes também possibilitam o questionamento quanto ao posicionamento de seus protagonistas. Há o momento em que é difícil decifrar se as atitudes de Paulo foram em prol do povo ou motivadas por egoísmo.  Também fica a dúvida se Marighella queria o fim do regime ditatorial ou o início da ditadura comunista.   

Todavia, Marighella faleceu em 1969, dois anos após o lançamento de “Terra em transe”. Talvez tenha assistido ao filme, bem como a cena em que Paulo morre, em um tiroteio, enquanto dirigia um fusca. Marighella morreu praticamente da mesma forma; foi baleado dentro de um fusca. Ambos, o personagem de Glauber e o ativista real, foram vítimas da ideologia que tentavam combater.  


* Frases retiradas de diálogos do filme, em forma de citação indireta.


domingo, 14 de abril de 2013

Contradições de mim versus o medo de Kant



Um, dois, três, quatro. A contagem avançou, chegou ao vinte e três. Tenho vinte e três anos e a sensação de trazer nos ombros o peso agridoce de uma vida sessentista.  Logo, soa bastante contraditório não saber de onde vem o medo que emudece a minha força. Sou fraca, ainda. Esqueci o aprendizado da menina que conheceu a dor da perda aos sete anos. De lá para cá, vi muito mais do que deveria, é verdade. Li o que pude, menos do que gostaria. Mas os livros não me ensinaram a vencer o mundo lá fora. Tampouco o medo.

E nesse porto que define a vida, experiências e pessoas vêm e vão. Somente os outros partiram, eu permaneci no mesmo horizonte. Ainda vivo na cidade em que nasci. Não fui estudar numa capital, me formei aqui mesmo. Não possuo um diário de bordo dos lugares que conheço dos filmes. Tremo ao atravessar ruas muito movimentadas. É, tenho a síndrome do interior – leia “interioR”, com érre meio puxado, pois aqui também se fala “leitê quentê”. Mas, ainda assim – limitada pelas ruas de uma única cidade, pelos mesmos rostos, pelos mesmos sons – me sinto uma viajante do mundo.

A síntese é que aqui – na cidade com nome de ave de penas alvas – presenciei a plenitude e o caos do meu eu. Afinal, o caos é o prelúdio da plenitude – esta que, assim como a maresia, costuma imperar depois da desordem. Não vejo como fuga do ideal optar por viver a vida inteira no mesmo lugar. Talvez jamais terei um par de chaves em uma cidade com mais de 500 mil habitantes. Mas que culpa tenho eu, se sinto medo do mundo que penso conhecer? Se em boa parte do tempo sou feliz aqui, onde vejo o pôr-do-sol mais lindo do mundo? Conheço o mundo, sim, embora pouco saí de uma cidade que nem cinema possui. Eis mais uma contradição. Explico: É especialidade dos livros, descrever mundos.

Mas isso pouco importa. Conhecimento acumulado não tem utilidade se desconheço o ser que habita a minha consciência. Kant me entenderia: “Do ponto de vista do medo, ninguém é forte o suficiente”. Vai ver ele também temia as pessoas, por isso não saiu da sua cidade natal. Eu, particularmente, temo as pessoas. Falsidade, cegueira, ambição, cegueira. Mas um dia, quem sabe, serei um pássaro. Verei num voo pleno o que daqui, de dentro da minha alma, não consigo perceber. Então não haverá mais medo, só saudade.



Escrito ao som de: Feito pra acabar, Marcelo Jeneci.