terça-feira, 9 de setembro de 2014

Vagarosa


A lentidão tem me dado sustos. Não é o sopro vagaroso dos dias, esses correm depressa. O que me assusta e por vezes inquieta são meus reflexos e raciocínio. Ando esquecendo palavras, a pronúncia e a grafia. Leio, releio, encontro erros incomuns a mim. Estou vacilando no que faço de melhor e isso me tortura. Não é só na escrita, é na rotina, nos diálogos; histórias ficam pela metade, são assombradas pelo esquecimento repentino que surge e toma de mim o que me conduzia no instante anterior. Fico ali, inerte num vazio, sem ter como pedir ajuda, tentando reencontrar o que perdi no meio da neblina que de repente envolveu a minha alma. É como se alguém maior, mais forte, me puxasse pelo braço com firmeza enquanto ando pela rua distraída; no susto, vou ao chão. Estremeço. Pode ser uma fase, pode ser que amanhã não aconteça mais. Ou, quem sabe, seja o meu temor de nome alemão dando os primeiros acenos. Hoje, me vi novamente diante do erro, me apoiando no espasmo entre o meu estômago e o coração. Ai habita outra premissa, aquela de que todos estão sujeitos a erros. Então percebo que aceitar o erro é tão digno quanto reconhecê-lo. Mas essa leveza vem como um beija-flor que, sem saber, chegou e foi embora depressa, levando consigo o “keep calm” que eu usaria para encarar o rotineiro vacilar. Afinal, inconcebível é ser indiferente, ou até otimista, diante dessas visitas que, aos poucos, se tornam comuns. Por isso, tranquei a porta – a lentidão pode até forçar o trinco, insistir com ar dócil, mas não cederei. Mas e quando, depois de ensaiar um recesso, ela surge numa tola receita de bolo (de caixinha)? Fico ali, aceitando que não haverá bolo de laranja no café da manhã, amanhã. Suspiro. Há quem diga que todo mal pode ser anulado com uma boa noite de sono.  Acredito nisso. Que a condição de vagarosa se torne efêmera dentro de mim; e se dissipe, entre o sono e o despertar.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Entre estar e pertencer



Na cozinha, acomodada na cadeira que precisa de conserto, o segundo momento mais alegre do dia: anoitecer, com a cabeça vazia de trabalho, banho tomado, minha única preocupação é comer um pedaço de bolo de cenoura e tomar o meu chá. Já faz um tempo que peguei o costume de ligar o rádio enquanto me concentro em não cometer nenhum ato de gula extrema. Hoje, ouvi ao acaso uma daquelas mensagens de motivação que antecedem a Voz do Brasil. Um homem imitando Cid Moreira leu um trecho bíblico do livro de Mateus. O texto denota que basta uma fé do tamanho de um grão de mostarda para alcançar o impossível. Bonito. Indiferente de crer ou não, de ser cristão ou não, é inegável a beleza das histórias narradas na Bíblia. Nesse caso, um lembrete sorrateiro de que não há nada mais triste do que a desesperança. Mas evitá-la é tão difícil. “Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu”, aqui, na calmaria do fim do dia, Chico sussurra dentro da minha cabeça. Em momentos assim, a canção martela, vira enxaqueca. Mas o leão do meu eu, esse que tenho que matar todos os dias, está na distância entre os olhos azuis do menino que entrevistei essa semana – tagarela e inquieto para dar sua opinião – e seus pés embarrados, protegidos do chão por chinelos de dedo na manhã mais fria do ano. Não havia nenhum vestígio de tristeza naqueles olhos. Por quê? É o peso das meias que impedem as pessoas de sorrir? Lembro desse menino, vejo outro, aquele que vi dar os primeiros passos; e hoje dá lição. Meu irmão destinou parte do primeiro salário num jogo de cordas para o seu violoncelo. Talvez ele desconheça, mas está numa realidade paralela da juventude que pertence. Antes disso tudo – do Chico, do menino dos pés gelados, das cordas para violoncelo, do banho, do chá, da Bíblia, do devaneio – quando cheguei em casa do trabalho, um bolo de cenoura havia sido recém colocado no forno. Em cima da mesa, a bacia com o restinho da massa me esperava – um ritual que eu e minha mãe mantemos desde que eu era menina. Trinta e cinco minutos depois, pronto! No primeiro pedaço a acidez do dia ficou doce. Há uma distância feroz entre estar triste e pertencer à tristeza. Feroz porque entre uma condição e outra, paira a desesperança. Não há nada mais penoso do que uma vida sem esperança – sem fé em algo ou em si. Dias podem ser como a aquela canção, uma vida inteira não. Então eis o primeiro momento mais alegre do meu dia: é pela manhã, quando saio da cama, prendo o cabelo antes de ir pro banho e paro diante da janela: abro um pedaço da cortina e olho o céu; encaro o tempo, descubro o humor do amanhecer. Hoje, um tom avermelhado, um manto dourado nas bordas pelo sol sonolento que despertava, me dava bom dia como quem diz: recomece.   


domingo, 8 de junho de 2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Sobre cartuns, Voltaire e o tempo

“Pega um cd pra mim no porta-luvas?”. Puxei a portinha e lá dentro um laço roxo enfeitava, de um jeito singelo, o que indicava ser um presente. Hesitei, olhei pra ele como quem questiona: “É pra mim?”. Ele acenou que sim, era. Peguei, reconheci um livro do Voltaire e um cd, coletânea de Vinicius e Toquinho. No dia anterior, eu completara 20 anos. O presente de aniversário estava no meio de um pedaço de papelão decorado com recortes de cartuns, desses publicados em tirinhas de jornal. Não foi o presente, foi o embrulho meio artesanal. Tudo cortado e colado minuciosamente. O imaginei escolhendo as histórias, as recortando e colando uma a uma, até se tornarem um mosaico. Quem era ele, alguém que mal me conhecia e já demonstrava tanto carinho e entrega por mim? Quase cinco anos depois, ainda o reconheço.


terça-feira, 4 de março de 2014

A fotografia, a guerra e os livros


No meu caso, os livros nunca vêm à toa. Sempre condizem com algum aspecto que vivi - quase sempre abordam o que vivo no momento em que os leio. Os que trazem alguma lição, volte e meia regressam aos meus dias. Foi assim com "A insustentável leveza do ser". O livro aborda diversas questões existenciais, não é difícil se reconhecer no mundo de Milan Kundera, tampouco relembrar alguma passagem vivida por Tomas e Tereza. Ter o lido durante a faculdade, justo quando o fotojornalismo começava a me fascinar, foi ainda mais enriquecedor. Através de Tereza, o livro retrata a representatividade do jornalismo e da fotografia em momentos de conflito. O cenário é a Primavera de Praga, mas Kundera revisita o início do fotojornalismo e nos lança à história, rememorando que os primeiros registros do gênero ocorreram na cobertura da Guerra da Crimeia (1853-1856).

Mas essa passagem voltou a ser atual: os olhos do mundo estão na Ucrânia, onde os conflitos prometem se intensificar e a guerra anuncia revisitar as ruas da Crimeia. Ontem, enquanto folheava um jornal catarinense, uma foto mostrava militares e civis dividindo o mesmo espaço – uma mulher atravessava a rua com uma criança, talvez mãe e filho, enquanto meia dúzia de militares bem armados preenchia a via. O título da matéria era “Rússia mostra armas e dialoga”. A sensibilidade de uma foto pode sim dispensar o texto, é a pura verdade. Dias atrás, outra imagem me chamou atenção: na Síria, pedestres desviavam de corpos em uma calçada, na tentativa de seguir ou forçar a rotina – enquanto no ar predominava o cheiro da guerra.

Há um mapa da Ucrânia na biografia que Benjamin Moser escreveu sobre Clarice Lispector – desde que li esse livro, a Ucrânia ficou mais próxima de mim.  Hoje, imagino o que Clarice diria, ao rever uma guerra semelhante a que fez sua família fugir do país no inverno de 1921, buscando refúgio no Brasil. Diria, com o R pesado: “quando escrevi que viver não é vivível, era sobre isso, menina: guerra, fome, covardia”.

Engraçado, Milan Kundera inicia "A insustentável leveza do ser" com a seguinte indagação: "O eterno retorno é uma ideia misteriosa e, com ela, Nietzsche pôs muitos filósofos em dificuldade: pensar que um dia tudo foi vivido e que tal repetição ainda vai se repetir indefinidamente! O que significa esse mito?".

Ouso responder: significa que a ignorância humana se renova, na medida que permanece imutável. A guerra é o único feito onde podemos generalizar, sem medo de cometer equívocos; a trivialidade dos motivos sempre serão os mesmos – as cicatrizes na alma das vítimas, na alma do universo, também. É possível sentir tudo isso, em uma única foto.

Minha admiração aos correspondentes de guerra, que tornam o fotojornalismo humano, sensível e visceral.

sábado, 1 de março de 2014

Passageiro



Essas viagens a São Lourenço do Oeste, percurso de 30 quilômetros, apesar de curtas conseguem ser exaustivas. Ao menos uma vez por semana faço o trajeto que, ironicamente, me leva ao estado vizinho de Santa Catarina. Hoje, assim como em todas as quartas-feiras – dia da semana em que a empresa de água mineral em que trabalho me envia para o oeste catarinense – eu, preso num corpo sólido, conduzido por uma mente vazia, queria evaporar. O calor e o terno são os principais responsáveis pela fadiga e falta de entusiasmo. Preciso de férias.


Mal entrei no ônibus e já comecei espirrar. Cheguei cedo.  O relógio marcava 08h10 e o ônibus deveria seguir viagem por volta das 08h20. A antecedência sempre foi proposital. A tática objetiva escolher o melhor lugar, de preferência do lado direito, não muito atrás, não muito na frente – baseando-se em estatísticas, saber quais são os lugares mais seguros para ocupar num ônibus em caso de acidente em rodovia é uma questão de sobrevivência.  Outra vantagem é que ninguém senta do meu lado. Gosto de deixar a barba por fazer nas quartas-feiras, de exibir meus óculos Ray-ban e de usar o fone e ouvido, assim espanto a hospitalidade interiorana.


Tudo seguia bem – note o verbo no passado. Quando dei por mim, sentado ao meu lado havia um senhor alto, magro e grisalho, com aspecto de doente. Apesar do calor, ele usava uma boina de inverno, bem surrada, que exalava um cheiro desagradável de suor e cabelo molhado. Sem hesitar, nem se importar com a minha indiferença, perguntou:


- Você vai pra Chapecó, rapaz?

- Não, vou pra São Lourenço do Oeste.

- Ah sim, perto de Navegantes.

- Não, Navegantes é no litoral – lamentei: se não tivesse corrigido o velho, a conversa poderia ter encerrado ali!

- Tem parentes em São Lourenço, rapaz?

- Não. Viagem de trabalho.

- Qual é teu nome?

- Alberto.

- E o sobrenome?

- Fianco. Albero Fianco.

- Você não tem cara de Alberto. É alemão ou italiano?

- Os dois. Como todo mundo por aqui, tenho um pouco dos dois.

- Eu sou bugre! – disse todo orgulhoso. E continuou: meu pai era gaúcho, do Rio Grande o Sul, tchê.


Ele falava tão alto que eu tinha a certeza que todo mundo no ônibus prestava atenção no diálogo – que me tinha como parte integrante na condição de vítima.


- Já você, rapaz, então é alemão da Alemanha! – Disse isso e sorriu, meio zombeteiro. Um curto silêncio antecedeu o próximo espasmo em forma de divagação.


- Já perdi três pessoas da minha família. Estão mortas. Uma delas, meu filho. Mataram o meu filho, sabe.


Senti a voz do homem tremer antes de prosseguir. Como se num esforço mortal, continuou; o que nessa altura já era um monólogo.


- Mataram o meu filho, na frente daquela boate chamada Aquários. Meu filho era capoeirista, faixa preta no karatê, ninguém ganhava dele na luta. Uma vez veio até um rapaz de Curitiba lutar com ele. A luta foi na praça, meu filho venceu. Mas uma noite ele estava parado na frente da boate, com a namorada dele. Chegou um homem e atirou no meu filho. Matou o meu filho. Eu sei que esse homem hoje tá puxando brasa pro capeta! – ficou quieto, em seguida completou: Meu filho era tão bonito, tinha o cabelo comprido, até os ombros.


Nesse momento todos os passageiros ouviam a história sem disfarçar. Quando o ônibus ganhou os primeiros movimentos, o homem soltou a última frase da viagem: “Vamos com Deus, que a virgem Maria proteja a nossa viagem”. Disse com fervor, com intenção de ser ouvido por todos. Depois disso, dormiu. 


E eu, enquanto processava a história toda, me sentia insustentavelmente confortável, leve com o calor do sol que invadia a janela e tomava o meu assento. Aos poucos, o calor ganhava intensidade enquanto dançava no asfalto quente, fazendo meu rosto arder.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Aurora do recomeço



Entre as façanhas da natureza, o que mais me intriga é a aurora de cada amanhecer. Muito mais que assisti-la, ser acariciada por ela todos os dias é o que nos torna otimistas diante do mundo. Com ou sem a luz do sol, ela vem – e literalmente não teme tempo feio. De efeito, é capaz de resgatar um instinto inconsciente em cada um de nós: o de recomeçar.

Gosto de pensar que o amanhã, embora travesso e incerto, ao menos enquanto escrevo essas linhas me traz a certeza de “autre chance”. Quem disse que uma vez é única e incontável estava certo, mas não se pode limitar-se diante a arbitrariedade do momento súbito.

Por vezes, é difícil receber a luz incômoda do amanhecer. Os olhos doem, preferem o conforto da escuridão do sono, enquanto os pés calejados sustentam a alma que padece. Pois bem, estamos naquele dia em que “a gente se sente como quem partiu ou morreu”. Não sou avessa à melancolia, até acho que seja necessária. Mas é preciso garantir que sua visita seja breve, de intenção genuína – cujo propósito seja apenas acolher a alma, não consumi-la. 

Pergunto: é preciso ser janeiro para trajarmos nos olhos a vontade do novo, de novo? Oras, “faceboquiar” louvores à vida só vale quando o frescor efusivo vira atitude. E não é o ano que tem que mudar, é você – e o processo é permanente, constituído por hábitos diários. 

Sejamos por inteiro apenas amor! De começo, basta aceitar a visita da aurora que, se fosse gente, seria uma senhora com cheiro de colônia de avó e diria coisas singelas, feito aquelas mulheres que não alteram o tom da voz e, nem por isso, deixam de ser ouvidas. 

Aurora, nome bonito para designar à alguém. Mas você pode personificar a sua. É só reconhecer que a cada novo e revisitado amanhecer, há a virtude de tentar de novo e poder fazer diferente. É possível até, quem sabe, rever aquele adeus.

Um ano cheio de auroras a você, que chegou até aqui.