Mostrando postagens com marcador livro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Mansfield Park: um olhar feminino sobre a cegueira moral


Quando a leitura é conduzida por Jane Austen, os cenários são ao mesmo tempo comuns e singulares.  Isso se dá pela proximidade entre os enredos dos seus livros, na temática, na época, na sociedade inglesa descrita com minuciosidade e maestria através da sutileza feminina presente no texto; tanto nas personagens quanto na autoria. Mas engana-se quem espera livros compostos por lamúrias de “mulherzinha”. Jane Austen consegue abordar muitas nuances da sociedade e do íntimo dos indivíduos de maneira crítica; e evidenciou essa capacidade em Mansfield Park, obra de 1814. 

Seguindo a corrente dos mais aclamados e conhecidos “Orgulho e preconceito” (1797), “Razão e sensibilidade” (1811) e “Persuasão” (1818), ao compor os habitantes da propriedade campestre denominada Mansfield Park, situada não muito distante de Londres, Jane Austen mostrou o íntimo de uma família inglesa burguesa. Contudo, em vez de atribuir um ou dois sentimentos como atenuantes da história, em Mansfield Park a autora consegue reunir todas as atitudes capazes de serem abrigadas no coração pulsante de jovens primos que, no auge da adolescência, suscitaram paixões e decepções num círculo familiar que se viu diante de impasses ideológicos, imprudências e escândalos.

O livro traz como personagem principal a tímida – e por vezes insossa – Fanny, que aos nove anos é levada para morar em Mansfield Park, propriedade dos tios Bertram; solidários a má sorte financeira da família da sobrinha. Em Mansfield Park, Fanny cresce ao lado dos quatro primos, do tio e das duas tias, sendo inserida numa realidade bem diferente da que encontraria na casa dos pais, tendo acesso a conforto e boa educação. Porém, embora tenha compartilhado o mesmo teto que os primos desde a infância, por muito tempo Fanny não foi tratada como igual. 

A posição inferior imposta a Fanny dá lugar a coibição exagerada que a menina carrega nos ombros, o que a impede de ter um peso decisivo na trama, como se espera de qualquer protagonista ativa e forte de Jane Austen. Chega-se a crer que Fanny está em segundo plano, alimentando uma paixão inalcançável pelo primo Edmund. Mas Jane e Fanny surpreendem. Na medida em que a história avança, compreende-se que Fanny não precisa esbravejar para que sua figura seja notada, tampouco para que sua personalidade, inteligência e ações influenciem o rumo da história que genuinamente passa a girar em torno dela.

Jane Austen realmente consegue surpreender – reitero aqui a surpresa – porque não permite que o leitor insinue o desfecho da história até que ela o apresente. Então, a autora se mostra ousada, pois além de explorar a mesquinhez alheia com a maestria anunciada nos livros anteriores, em Mansfield Park ela também aborda o casamento entre primos de classes sociais distintas e a traição conjugal – lembrem-se, os temas denotam em uma sociedade conservadora e aristocrática no início do século XIX; eis a ousadia de uma mulher que vence barreiras pelo simples ato de fazer literatura e de, através dela, expor os pormenores de uma sociedade aparentemente sem deformidades morais.

Com Fanny, Jane Austen rompe todo e qualquer preconceito social, pois essa protagonista se mostra superior às primas cujo discernimento e bom senso deveriam sobressair diante da menina frágil e de origem humilde; que alcançou estima graças ao caráter distinto da burguesia representada pelas senhoritas Bertram.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A mulher do viajante do tempo: um amor atemporal



Antes de mais nada: sim, é um bestseller. Confesso que a leitura sugerida por uma amiga foi adiada durante dias, em que o livro emprestado ficou ignorado. Até que um “por que não?” desprendido de preconceito me apresentou um livro emocionante.  “A mulher do viajante do tempo” (2003), livro de estreia da americana Audrey Niffenegger, conta a história de um casal atípico. Henry viaja no tempo. Clare aprendeu, desde criança, a lidar com a ausência e a presença dele.

Henry não tem controle sobre as viagens que faz. Se teletransporta para o passado e para o futuro sempre que algo perturba seus ânimos. Foi assim que apareceu pela primeira vez a Clare; ela com seis anos, ele com trinta e seis: “É difícil ficar para trás. Espero Henry, sem saber dele, me perguntando se está bem. É difícil ser quem fica”, revela Clare, dando início ao livro. Nessas idas e vindas, Henry a viu crescer, se tornar mulher; permanecendo mesmo depois de ter partido: “Odeio estar onde ela não está, quando não está. No entanto, vivo partindo, e ela não pode vir atrás”, compartilha Henry.

Audrey Niffenegger conduz um diálogo entre os sentimentos e impressões de Henry e Clare, narrando a história através de duas vozes. Não há somente desordem cronológica neste livro. As páginas apresentam muito, muito amor; seja na incessante e angustiante busca de Clare por ter um filho; nas visitas de Henry ao passado para ver a mãe que morreu; na procura pela cura de Henry; ou quando Henry perde a única coisa que o acalma e o impede de viajar descontroladamente: a capacidade de correr.

Do início ao fim, “A mulher do viajante do tempo” mostra que o tempo não existe, é uma convenção; e através dele um amor pode sim durar para sempre, vencendo o passado, o presente e o futuro.  


p.s: Leia o livro antes de assistir ao filme. Ouça a canção Travelin' On, de Norah Jones (abaixo).