quinta-feira, 9 de julho de 2009

08h28min

Desabafo

Domingo ele lançou sobre mim detalhes do seu dia, das peripécias da sua rotina. Disse docilmente que ficou em casa o dia todo por causa da chuva, se entorpecendo de café. E todos os dias ele faz isso. Ditos que vêm sem que eu solicite. Quer tanto saber de mim.
Quero a sua opinião bem sincera. Quero a sua por você o conhecer tão bem. Por já ter estado nos braços dele. E também porque a sua amiga já esteve. E agora, veja só, sou eu quem está. Afinal, sabemos como ele leva a vida intensamente. Por isso, só por isso, não me deixo levar. Tento não me apegar.

Conselho torto

Você está agindo certo. Não por ser ele, mas mesmo se fosse qualquer um e a situação fosse a mesma: é sempre bom ter cautela. Mas cautela não quer dizer "não viva". Eu queria muito te dizer: apaixone-se, permita-se!!! Talvez fosse o mais correto. Mas eu tenho medo, muito medo. Por isso, eu acredito que tu deve se manter assim, pelo menos por hora. Deixa as coisas seguirem o rumo do rio. No final a correnteza se encarrega de guiar os fatos para a costa mais terna. Mesmo que, para isso, seja preciso se debater em rochedos e vitimar algumas feridas.



Eis a viciosa e tortuosa repetição: Doravaaaaaaante Nietzsche!!!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

↕ Elogio da loucura

Paulo, o filho mais velho de Ferreira Gullar, é esquizofrênico – doença que o seu irmão mais novo também possuía. Certa vez, ao recém sair de uma crise, resolveu por bem observar o vento. Então disse ao pai que “o vento no rosto é sonho”. Ele perguntou se o pai sabia disso. Provavelmente não sabia, mas aprendeu. Aprendeu e fez um poema desse episódio.

Dias dezessetes me soam graves. Hoje, enquanto andava pela rua vazia, senti um vento cortante no rosto e lembrei dessa frase “ o vento no rosto é sonho”. Eu não sabia disso, mas aprendi. Da mesma forma que, já faz um bom tempo, aprendi o quanto a poesia de Ferreira Gullar é boa, intima. O aprendizado veio de presente, das mãos mais lindas que já vi. O livro veio, por obrigação; depois a desolação.

Eu confesso, nos dias de inverno permito afoita que ele me beije. Ele é insano, me beija e beija a todos. Depois segue sozinho, como eu. Hoje, por um instante, achei que Paulo tivesse razão, “sim, o vento no rosto é sonho!”.

Toda manhã pela rua enquanto eu passo, meço a angustia que repousa leve, no orvalho das folhas verdes e brancas. Piso macio para que ela não desperte e não pouse densa no meu dia. Grito calada: “não sou daqui!!!”. Ninguém ouve. Então sinto o vento, o beijo mais uma vez, e percebo que somente “a loucura deve ser elogiada”. A minha, a sua, a de Paulo, a de Erasmo.

Mas louco é quem me diz que não é feliz. Eu sou! Paulo é! Erasmo era!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

↕ Outra lira

É como disseram outrora, que a vida nos seus 20 anos "é uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas sem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço".


O espelho diz que envelheci. Cheguei aos 20 e tudo já havia acontecido. Aos 20, quem tivesse me conhecido três anos antes notaria o quanto eu havia envelhecido. Ganhei uma cor opaca, um olhar tristonho e uma ruga na testa que aqui não estava; daqui não sairá nunca mais. Tenho os pés calejados, a chuva queima e o sol envelhece.


Bem antes dos 20 foi quando comecei a transformar as pessoas em personagens. Cambaleando nas recordações, tecia suas histórias sem desenhar seus rostos. Creio que sem eles, meus personagens, eu não seria a pessoa que sou. Fico me imaginando daqui uns anos, sozinha, sempre carregando nas costas o peso de uma idade a frente daquela que tenho; me vejo e me entristeço.


Então, quando sinto frio os trago para perto de mim. Passo os olhos por eles, acaricio seus rostos, sinto seus gostos. Confesso, às vezes não consigo passar da décima linha. É como se eles nunca tivessem sido pessoas. É como se sempre tivessem sido meros personagens, desses dos livros de outros.


Ainda somos aqueles personagens, vestindo novos trajes a cada linha lida, meu amor.

sábado, 16 de maio de 2009

Meu bem, você deveria saber que o som alto não abafa os gritos. Eles regressam quando o céu veste cinza. Como essa cicatriz rosada, que lateja em dias de chuva, alojada e saliente em minha pele? É. Aliás, acho essa sua cicatriz um charme só. Mas a questão é que você deveria comprar um gravador e largar esse cigarro. Isso de ter que anotar as ideias o tempo todo é ridículo. Isso vai te matar. O alzaimer precoce? O bombardeio de ideias que me assombram e inspiram e depois fogem? Os dois, mas principalmente esse cigarro e a bebida. Não finja se preocupar, vou morrer é de amor, não de cirrose! “Por” não, “de” amor. Morrer por amar demais, em excesso. Por ter tantas paixões, por colecionar dores. Por ser essa explosão de vida e sentimentos que no estio flamejam feito fogo, e que em seguida apagam e não mais acendem. Para com isso, não me venha com divagações baratas! Eu amo sim, por isso escrevo! Você deveria me ler mais, então saberia. Ler as histórias que não vivi, as coisas que não faria, os amores que não matei. Não, obrigado. Não gosto dos seus textos. Nem eu, acho que é essa desorganização toda que ainda não aprendi a controlar. Mas eu gosto de gente doída. Eu também. Você escreve porque tem medo. Com essa facilidade de esquecer e de mentir, escreve pra recordar. Mentir? De poeta e mentiroso, todo mundo há de ter. Se não têm, acreditam ter. E a gente acredita que têm. Exatamente, e ainda aplaude. Viva! Mas sobre você, digo que suas mentiras são somente pra si. Mente que é capaz de esquecer. Não! Sim, e escreve por ter medo de ser esquecida. Você quer é permanecer. Mas eu não lhe condeno pequena, afinal, quem não quer? Eu escrevo pra cessar a dor, e só! Não! Escreve pra não virar somente pó! Chega. Viu! E quanto aos gritos? Não os ouço, os leio. Enfim, eu acho que você tem razão, vou largar esse cigarro, um dia desses entro em combustão antes da hora e não terá ninguém pra guardar minhas cinzas ao pé da cama. Ninguém. Ah, já te contei a minha teoria sobre a invenção do twist? Não! Nem quero saber, por hora nada de dançinhas iê iê iê... Sejamos sutis e vamos brindar nossas insônias. Sutil é esse seu mau humor crônico, não sei porque perco tempo com você. É porque você me ama. Nunca! Enfim, acho que amanhã vai chover. Cicatriz filha da puta.

domingo, 10 de maio de 2009

O quarto é escuro. Nele, há uma mistura de suor e perfume doce no ar.


Ele a olha como se esperasse ver seu rosto. Ela não percebe, tem os olhos fechados. Ela está alerta a tudo o que acontece lá fora, nos diálogos vindos da rua. De repente ele diz: eu te amo. Depois sua respiração fica ofegante. Seu corpo é terno, quente. É tanta, tanta ternura meu Deus! Ela não responde. Poderia dizer que também o ama, ou que não sente nada, mas fica calada. Ele está trêmulo, torcendo para que apenas tenha pensado em dizer, ou que ela não tenha ouvido. Então ela compreendeu. Ele nunca a conheceria. Jamais seria capaz de conhecer tanta perversidade.


A ela compete jamais esquecer as fragrâncias. Dar corda na vida, permitir que seus ponteiros antecedam os segundos que se esvaem. Como um colecionador de perfumes.

domingo, 3 de maio de 2009

Deus!
Ainda que eu falasse a falácia dos homens.
Ainda assim você não ouviria.
Ainda assim você nada diria.

E se eu aprendesse, recitaria em coro, baixinho.
Então lavaria minh' alma com sua água santificada.
Num gozo oco, como a tua imagem.

domingo, 12 de abril de 2009

Despertei.
Vi um par de cegos, vagando no caminho que antecede os passos. Trajes rasgados, pés calejados; cegos prosseguiremos! E não adianta esbravejar, este é o nosso destino prévio. Mesmo assim, ainda é difícil ver seus olhos sem deles necessitar.
Ouço você me chamar, mas as palavras ecoam longe, como vindas em outra língua. Como um beijo lançado ao vento, que nunca vem.
Com a cabeça encostada no seu peito, descobri que lá um coração ainda bate, forte, intenso. Então entendi.
Adormeci.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

↕ Viço de outono

Ando só. Sempre pelas mesmas ruas, fitando as pontas dos pés. Da janela a vejo acenando pra mim. A vida. E eu apenas a assisto, calada.

O dia nasceu preguiçoso, ou eu acordei como não deveria. O sol teima em não despontar entre as nuvens acinzentadas. De onde vem essa vontade doentia em se acuar, matar e morrer todos os dias? Talvez você pudesse ter me respondido em outro outono.

Já não lembro mais de um gosto que não seja aquele ácido, amante das suas últimas frases. Ora amor, ora ódio, ora desapego. Esse confronto me toma no colo e não me deixa andar. Segura forte, grosseiro, e não permite que eu aborde o estranho na rua e fale: “Vê, ela está acenando pra mim!”.

O som da bola de encontro ao chão empoeirado embala aquele adeus. É a fé que se despede mais uma vez. Antes de assassinarem a sua fé, essa capacidade de satisfação em pequenas coisas ainda era possível. “Como seria bom voltar a ser criança por apenas um dia. Ouvir a voz do pai mais uma vez, sentir sua mão forte, ver o sorriso da mãe, falar com as plantas. Perder todo esse peso alojado nas costas, e assim não mais arquejar no meio de uma canção,” pensou.

Mas a lucidez bate a porta...

Não pode perder o rumo, a carona, o viço. Ficar a mercê de fantasmas e de pernas que não são as suas, também não. E enquanto espera que ela se dissipe diante da janela, sonha e anda; calada e só.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

↕ Primeiro de abril

Lavei meu rosto, uma, duas, três, já não sei quantas foram as vezes. Em vão. A máscara continua aqui. Seu peso impede que eu durma em paz. Minto! Eu durmo em paz, mas é a paz de quem sabe mentir.

domingo, 29 de março de 2009

↕ Marços

Antes que cessasse a calma,


Calou-se a fala,

Mediu-se a falta


E a calma cessou


A fala cantou o pranto,

A falta virou insustentável


E então alguém tombou.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

↕ Perpétua

E de cegueira não veem a dor

No canto do mudo,

Bradando pro surdo

Que eu sou apenas mais um.


Sou apenas mais um

Desses que andam desalentados,

Fitando de canto,

Abafando o pranto,

Cantando pra não recitar.


Sou apenas mais um

Desses caminhando pro túmulo,

No meio do tumulto,

Rumo ao sul do pó,

Só.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

↕ Halellujah

O azul na base da chama o encanta! É um encantamento que lhe toma por inteiro, intensamente. Não tem nome, mas tem cor; é azul.

Então, com uma leitura ofegante em voz alta, sob a luz flamejante da vela dá por si com os traços do terno rosto alheio; sorrindo nos versos que acaba de recitar.

Céus, como ele deseja essa chama, sua brasa. Repete:

Me abrase.

Me perturbe.

Me abrace.

Como a voz póstuma escarrou em uma canção, “amar é atirar em quem te desarma”. E como o poeta disse outrora, “é ser fiel com quem te mata!”. E agora ele está aí, desarmado e fiel; em decomposição. Como aquela chuva que molha, mas na pele não é sentida. Como aquela música que nunca mais foi ouvida. Tudo não passa de dor consentida. Até que a vela apaga e o azul se dissipa; vira fumaça.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

↕ Janeiros

É como o vício que caminha do teu lado em um gingado lento, e você não vê. Afaga, beija, desarma. Feito um velho acuado, pele flácida, mãos encolhidas no par de bolsos do terno amassado; traz no fundo do peito somente carne crua e sabedoria.

Certa vez escrevi sobre um homem que andava por aí com os pés descalços, e que debochava das solas alheias, enclausuradas em veludo barato. Segundo ele, a estrada leva todos para o mesmo fim, sem distinguir o traje dos pés.

Hoje vou escrever sobre aquele velho ali, com as mãos nos bolsos e que não sabe ler. Não lê os sorrisos alheios para não ter que os retribuir. Foge dos rostos, dos cumprimentos; vive desatento perdendo pessoas por não atravessar a rua. Não foi treinado, por isso não sabe imitar o sorriso amarelo na sua frente, muito menos gesticular os lábios murchos e soltar, entre os poucos dentes que ainda possui, o som da hipocrisia.

É esse vício que anda do teu lado, lhe aperta forte o ombro e o faz parar; te afaga, te beija, te desarma e o principal, te salva.

Amanhã escreverei sobre o homem que não sabe ouvir. Outro sortudo! Mas adianto que sobre cegos e surdos, eu prefiro os descalços.

sábado, 31 de janeiro de 2009

↕ Feliciana, a infeliz

Por Jozieli Wolff e Ketlyn Lourenço:
as cobras.

O fato:

Ela namorava com ele porque o amava; ele namorava somente para ter uma foda fixa. Ela não sabe disso ainda, então, por favor, não comente. Cicatrizes não devem ser mexidas, para que não vaze de dentro delas os gritos que permanecem calados; em forma de líquido corrosivo, lágrimas.


Quem contou? Você? Eu posso ouvir seus gritos! Vou ser breve, prometo:

Feliciana, a infeliz, é uma manteiga derretida, parece viver em uma eterna TPM. Ironia ter um nome que remete felicidade; é tanta tristeza que poderia ser poeta caso soubesse fazer versos.

Nossa triste protagonista sempre teve poucos amigos. Desde a infância, fase em que era uma garotinha acima do peso – eliminemos os eufemismos, Feliciana era obesa – ela sempre esteve longe de ser a bonitinha, que todos cobiçam um pedaço. Naquela época – ela não entendia se por padrão estético ou pelo simples prazer da chacota – seus amigáveis colegas a chamavam de “baleia feliz”; e o ritual se repetia todo santo dia.


Baleia Feliz?

“Feliz”, óbviamente, vinha do FELICIANA que lhe penduraram no pescoço antes mesmo de nascer; “baleia”, para nós que a conhecemos é mais óbvio ainda, mas para você que não a conhece, vamos descrevê-la 15 anos atrás para que nos possa entender: Andar capenga, pernas roliças, óculos – estes com lentes grossas e armações tão grandes que lhe tomavam metade do rosto – e bochechas rosadas, bem salientes.

De olhos fechados vê novamente a cena que presenciou por tantas vezes quando criança: “Baleia feliz, baleia feliz, baleia feliz”, a frase gritada num coro maldito; entre a orquestra sem instrumento estava Antônio. Este, com nome de poeta, era a paixãozinha de Feliciana – aquela que todo mundo tem e que nos assombra por anos durante a infância – e também era o dono do “baleia feliz, baleia feliz, baleia feliz”, mais grave daquela roda, que tinha em seu centro uma gordinha banhada em lágrimas.


Por que choras a noite?

Feliciana, demasiadamente infeliz, 22 anos, jornalista recém formada, desempregada. Disse que está indo viajar, não sabe pra onde. Traz na mão direita uma mala furada; em seu interior há uma infância traumática, um namoro fracassado e uma constante ausência – do pai que perdeu, do avô que não conheceu, do bisavô que dizem ter tido... ausência da lembrança de um homem que lhe estendesse a mão e dissesse, “eu te amo” – em vez de “baleia feliz”.


Outro fato que ela ainda não sabe:

Seu namorado está lhe traindo. Isso ele faz constantemente, mas agora está fazendo com uma loira gostosa, e em breve mandará Feliciana à merda. Mas continuemos com o combinado: por favor, não comentem!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A vida calada canta; como a índia, descalça, em cima do rochedo à beira-mar. Tem no canto dos lábios um sorriso, contido, que encanta. Lhe rogo em coro uma prece com pressa: diante de um espelho, meu apelo é pelo seu zelo. Não abandone o peito de quem lhe quer bem. O que fazes já foi feito. Como efeito semeou no mesmo peito um fruto, já mordido. Doce como um beijo, mas que apodrece a cada dentada. Então, meço no vento o tamanho do seu pranto, e canto.

domingo, 25 de janeiro de 2009

“De posse de uma única frase feita, diga quem sou eu. Você é alguma coisa, que não precisa de coisa alguma.”


Faz frio, e não congela só os ossos, mas também o espírito. Os pingos finos de chuva batem na janela; é a tortuosa tentativa de lhe lembrar, sem beijos nos lábios, que você não está sozinho. Enquanto a cidade dorme você está aí, usando apenas uma luva. E me pergunta – como num mantra sussurrado infinitas vezes no cálido lóbulo da minha orelha – o seguinte: “De posse de uma única frase feita, diga quem sou eu?" .

Silêncio. Um tênue odor de café e cigarro invade o lugar. Café e cigarro só perdem o posto de “par perfeito”, para o seu par de luvas caramelo – que deixou de ser um par. Você não se deu conta disso e ainda está aí, dentro dessa quietude que acalma e acalenta. Todos continuam calados e a dormir.

E me pergunta qual foi a última vez que deixou que algo abrasasse as suas mãos. Certamente foi na véspera de perder a sua luva esquerda. Repare, um que era feito de dois, nunca mais é o mesmo quando sozinho.

A quietude é quebrada pelo som que o cigarro emite enquanto queima. Faíscas e cinzas do cigarro embalam a valsa que a lua insiste em não dançar. O café acaba, o cigarro apaga, você ainda não. Você não é feito de faíscas, tampouco de cinzas. Deixemos isso para o cigarro que se desfaz entre os seus longos e finos dedos.

Gargalha! De olhos fechados se vê como um caminhante noturno; que embora estático está indo embora. E em marcha, se distancia cada vez mais das enojadas frases feitas. E enquanto todos sonham, você acorda. E sonha, quando acordado.

Falta pouco para o sol nascer. Nesse instante você se dá conta que é alguma coisa. Alguma coisa sem frases feitas, sem cinzas, nem faíscas. E no mesmo compasso em que o frio lhe abraça e acaricia sua palidez, eu lhe digo meu amigo: “Você é alguma coisa, que não precisa de coisa alguma”.

Mas trate de comprar um novo par de luvas. Suas mãos estão tão frias, e vazias. Mas por favor, mude de cor, nunca gostei de caramelo!


p.s: A versão original deste texto foi postada não lembro quando, nem me esforcei para lembrar. Não que agora esta esteja melhor, mas enfim, meia dúzia de vírgulas não farão falta. É como tecer a própria vida. Cabe aprender a fazer isso com os pontos finais. Reticências jamais!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Disse-me coisas loisas. Sinceras, escondidas na penumbra da nudez, vestida. Rir de si, e rir de outrem, faz um tanto quanto bem, eu sei; mas adianto que quando em demasia dá fadiga, tardia nostalgia. Oh, que dia! E nada da coisa. Pincele um rosto terno e feliz na minha lousa, e sorria. Que coisa!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Qual seria o primeiro degrau para embrutecer uma alma? Calma! Dito que a muralha de pedra que lhe inclausura no peito a letargia tem como essência a inconstância. Explico: É a inconstância , constante, de querer escapar de onde se está, na cobiça, mesquinha, de ser o manto do céu que cobre o outro. Somos humanos, desatentos da tamanha sorte que temos em apenas estar. Cegos demais para ver que sempre há um sol se pondo; se não cá, lá.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Meu bem, você deveria saber que a bebida entorpece o corpo mas não cessa toda a dor, e que, principalmente, o som alto não abafa os gritos. Eles estão aí, como aquela cicatriz que lateja em dias de chuva, alojada em você, saliente na sua pele, para sempre. Por isso, não há motivos para se fechar como um leque.

domingo, 4 de janeiro de 2009

↕ O homem sem brasão


"Seu olhar era úmido e doce; emocionado. Imponente e indecifrável."


“Por Deus, nunca me vi tão só”. É o pensamento que me distrai e faz com que as minhas vistas cansadas desviem as linhas do livro que ganha meu colo, e encontrem os nossos portarretratos amarelados, religiosamente enfileirados na estante do canto da sala quase que totalmente escura. Você sempre dizia, “Se não render algum escrito ou uma boa foto, então não foi vivido, foi em vão!”. Acho que era uma busca sua, incessante, pela ânsia de vida; num peito que só tinha cólera. Mas só eu a via assim, talvez por ser como você; talvez.

O dia era fosco e irritante, mas você insistiu, falou uma dúzia de palavras de chantagem, que caíram da sua boca doces, e como era de costume, cedi. Eu sempre fui inclemente, nas coisas e nas pessoas, mas sobre você, em você, eu acreditava. Aquela sua mansuetude misturada com ardor; aquela infinita melancolia dividindo espaço com a sua inquieta e exaustiva explosão de vida e alegria. Mas era o seu olhar, insano, que me envolvia na sua teia.

Depois de passearmos de barco pelo Sena, chegamos ao Louvre. “Monalisa, Monalisa, Monalisa”, dizia enquanto saltitava feito criança. Pena a manhã estar nublada, o sol daria a seu cabelo aquele tom dourado que iluminava seu rosto e a deixava mais linda. Mas antes de entrar no museu e começar o espetáculo que iria ser, e foi, ver os seus olhos brilhando e suas mãos soando de emoção ao se deparar com artefatos do Egito e com obras-primas dos seus heróis, deveríamos cumprir seu ritual e fazer pose para mais uma foto.

Você com aquele seu jeito desbocado e ar de mulher culta, ganhava qualquer um; e isso sempre me matou de ciúmes. E não foi diferente; um asiático de mãos dadas com uma branquela de olhos azuis, após algumas instruções sobre como funcionava a câmera, tirou a foto para nós. A pirâmide de vidro ao fundo - foto clichê de qualquer turista que vá a Paris - nós dois abraçados, o que era algo desproporcional, pois mesmo de salto alto o máximo que você atingia eram os meus ombros; você, radiante, com 29 anos e eu, desengonçado, um pouco a frente na idade, estávamos em nossa lua de mel. Na foto, esta que seguro entre as mãos, seu olhar era úmido e doce; emocionado. Imponente e indecifrável.

Nunca achei que fossemos envelhecer juntos. E o quanto tudo mudou. A casa antes agitada se tornou escura e os móveis empoeirados. O quintal há tempos não é cuidado, e as árvores que nele habitam estão velhas, secas e com as raízes quase que sem vida, como eu. O azul esverdeado da fachada da casa, há tempos não possui cor alguma.

Nossos livros, os velhos e antigos livros, enfeitam a estante junto com nossos vinis, mas já esqueceram o que é ser apreciados por alguém. Meu bem, perdão, eu perdi a agulha da sua vitrola e ainda não mandei arrumar. Sei que preciso cuidar das nossas coisas, cuidar de mim, mas acho que não irei fazer nenhuma nem outra. Mais uma vez, perdão.

Embora eu já tenha esquecido de muita coisa, não é só nos álbuns de fotografias que a nossa história está eternizada; ela permanece inteira na minha memória. E se eu fechar os olhos consigo ver aquele “seu olhar úmido e doce; imponente e indecifrável”.

Nos últimos anos suas mãos estavam tão cansadas. Seu rosto flácido e os cabelos que antes eram volumosos e escandalosos, não passavam da altura do ombro, e perderam a cor. Porém, você continuava linda!

Quando fecho os olhos a noite, esperando que a morte venha me buscar, sinto um leve peso sobre mim. Nesses instantes tenho a impressão de que você está ali, dormindo em meu peito sobre meus pêlos enquanto eu, com zelo, lhe protejo. Parece que a qualquer instante você vai me chacoalhar e dizer, “Hora de acordar!”. Sentará na cama com as costas nuas, colocará o chinelo e andará pelo quarto enquanto seu cabelo dividido ao meio cobre seus seios, “Hora de acordar, já disse!”. E então eu balbucio baixinho, “Volta pra cama.” Mas você não vem. E agora a casa está vazia, mas o teu cheiro continua aqui.






Vamos (eu e eu mesma) esclarecer uma coisa


- A pirâmide do Louvre começou a ser construída na década de 80, se não me engano (confira no google essa informação porque um engano meu é algo quando muito possível). Sendo assim, um casal como o descrito a cima, com uns 60 ou mais anos nas costas, pela lógica, em visita de lua de mel ao Louvre, não teriam nenhuma foto da pirâmide, pois está nem existia nas décadas de 40, 50. Então imaginem que isso tudo é uma projeção do futuro de um futuro casal (adoro redundâncias, acho uma graça). Ou imaginem o que quiserem. Ou não imaginem nada (afinal, para alguns pensar cansa). Ou leiam o texto anterior, ou feche isso e leia um livro do Machado, que é bem melhor (beeeeeem melhor).