Não sei porque tirei o telefone do gancho, há essa hora você está no trabalho. E quando você dissesse “alô”, o que viria depois? Talvez eu gaguejasse. Ou, talvez eu desligasse.É, talvez. Não sei explicar o que senti quando me contaram. Nada de lágrimas, você sabe que sou sutil. Na verdade, foi uma mescla de sensações. Todo mundo sabia, menos eu? Na hora meu coração acelerou, agora tá normal. Opa, acelerou de novo.
E agora? Nunca mais vou chegar em casa e me deparar com a tua cara fechada. E pior, nunca mais vamos dormir juntos, nós três: eu, você e a sua camisa velha do Ozzy. Aliás, você sorri enquanto dorme, sabia? E baba também. Ah meu Deus, por que eu não me joguei pra cima de você numa daquelas noites? Porque somos primos. Por que somos primos?
Juro, parte de mim quer olhar no espelho, dar um sorriso enferrujado e recitar: “que bom assim né”. Sorrir, sorrir e sorrir. É o que terei que fazer a partir de agora. Mas a outra parte não consegue. “Mentira, você sabe muito bem fingir!” – sussurra a sábia voz da insanidade, que não tem dono. É, fazer três meses de teatro quando criança foi de grande valia, me fez a rainha da ironia. Vou conseguir por inteira.
E se eu te chamasse para um café com bolo de cenoura? Poisé, peguei a receita na internet e deu certo, mas você não soube disso, né? Soube sim, eu te contei. Você disse que ia vir experimentar, mas não veio – que bolo. Com certeza você não lembra.
Sabe, antes de cobiçar você, eu cobiço coisas mais importantes que ainda me faltam. Agora, por exemplo, preciso de uma nova receita de bolo – não dos seus bolos. Preciso também de mais açúcar nesse café. Quem precisa de você, do seu mau humor, do seu autismo não acusado e da sua camiseta velha do Ozzy?
E enquanto eu e minha incompetência amorosa nem ficantes fixos arrumamos, você casa. HAHAHA alguém em algum lugar gargalha! Mas pensando bem, alguém nessa família tem que casar, copular, procriar, enfim, se render ao sistema.Você vai ficar chato, vai usar calças beges e camisetas de botão para trabalhar. Nos fins de semana usará pólos para ir à esquina comprar pão. Em casa vai usar um calção xadrez, que com o tempo vai furar e você nem vai perceber, vai continuar usando, até o calção virar pijama, como a gasta camisa do Ozzy. Você vai levar seus filhos nos almoços de família e pedir para que eu os segure. “Vai com a prima, vai”. Lindo. Só não se espante quando eles escorregarem do meu colo sem querer. “Opa, caiu o neném”. Confortante é o fato de que você vai engordar, ganhar saliências abdominais de homem casado, desses que passam o domingo vendo futebol.Ai um dia teu pinto não vai mais funcionar, e a graça do seu casamento deixará de existir.
E quanto a mim? Ah, eu vou conhecer o cara da minha vida; algumas tantas vezes ainda.
“Eu não deveria ter vacilado por tanto tempo com a vida”. É o que pensa enquanto o carro gira na pista, prestes a beijar o eixo dianteiro de um caminhão amarelo; um beijo mortal.Tudo gira, então ela pensa nos filhos, no marido, na mãe: “eles têm que se conformar, afinal, a vida é feita de perdas”.A colisão acontece. Barulho forte. Escuro. Fora do carro, ela sente uma dor terrível pelo corpo: “e eu que achava que a dor do parto só perdia para a que se sente durante a ânsia de romper o hímen”. Agora, sua vida é uma vela cuja chama flameja fracamente.
Chove. Do céu caem finos pingos de chuva que molham seu rosto, e que disputam espaço com o sangue carmim que desenha em sua face algo abstrato. Ela afasta os lábios com dificuldade, e permite que algumas gotas entrem pela sua boca que precisa sentir aquele gosto. “Por que foi mesmo que eu perdi o hábito de tomar banho de chuva?”, pergunta às suas recordações, enquanto se banha no centro do círculo formado por dezenas de curiosos que se aproximam. Nesse instante, ela ouve duas senhoras alarmarem: "Jesus! Olhem o rosto dela!!!".
Ela está ali, no meio da rua, esperando, esperando: “cadê a tal luz no fim do túnel?”, questiona. Ela não sabe, mas o que ela está esperando é que a vela se apague. Mas ela só precisa esperar mais uns três minutos, no máximo, pois embora a chama ainda emita calor, sua calidez está indo embora... 3, 2, 1... até que some. A falta de fé em si mesma foi o sopro de vento que apagou a vela.
Luiza acorda. Olha para o teto, para o marido, para o teto de novo. Ao olhar pela janela, para o céu, seus olhos congelam naquela direção. Sorri.
Sai da cama, pois às nove horas tem salão marcado. Está decidida: cortará os cabelos, bem curtos! “Então dirão: que lábios bem delineados, que olhar bonito ela tem!”.
Esse “pardal” certamente foi o dono do canto mais lindo da França. Quando me apresentaram Edith Piaf, meus ouvidos não faziam ideia da grandiosidade musical que estavam ouvindo. Hoje, me arrepio toda vez que a ouço: a menina que passou parte da infância cega, que cresceu num prostíbulo, e que se tornou uma das mais importantes vozes francesas; emocionando multidões, arrancando com suas músicas lágrimas daqueles que jamais choram e, principalmente, embalando amores até os dias de hoje.
Ela, assim como tantas mulheres, pecou por amar demais – entendam esse “demais” não como “quantidade”, mas sim como “intensidade”. Por isso, a presença de temas amorosos é frequente na maioria das suas canções, que abordam o amor em suas diversas nuances.Aqui no Brasil, o estilo musical de Dalva de Oliveira e Maysa Matarazzo se assemelham muito ao da francesa – Dalva me lembra Edith tanto no vocal como na aparência física.
E como não poderia ser diferente, o primeiro sucesso de Edith, datado de 1946, foi a belíssima La Vie en Rose, que fala justamente sobre o que escrevi na postagem anterior desse blog: o poder de renovação do amor, capaz de tornar a vida cor-de-rosa.
La Vie en rose
Quem não conhece Edith certamente já ouviu o seu “hino ao amor”, que ganhou interpretações da brasileira Maysa Matarazzo – que sempre declarou ser fã da francesa. Mas talvez o que você não saiba é que Hymne à l'amour foi escrita em 1949, após a morte de Marcel, o grande amor de Edith – aliás, o título da música foi destinado ao filme de cunho biográfico, lançado em 2007, intitulado como “Piaf - Um Hino ao Amor”.Voltando a Marcel: o boxeador representou para Edith duas faces da sua vida: o renascimento e a morte. E o sofrimento de Edith pode ser compreendido em cada verso da música, que para mim é a mais triste da cantora.
Hymne à l'amour
O último grande sucesso de Edith falava de perseverança e, principalmente, representou em sua vida o recomeço. Non, je ne regrette rien, foi lançada em 1960, três anos antes da morte de Edith, que na época estava doente, muito debilitada pelo uso excessivo de álcool, mas principalmente pela dependência de morfina (creio que ela tinha câncer, mas não tenho certeza). Todos achavam que ela não cantaria mais, mas Edith reapareceu, doente, fraca, mas com força suficiente para gritar a todos os seguintes versos: “Non... rien de rien... Non... je ne regrette rien! Ni le bien qu'on ma fait, ni le mal - tout ça m'est bien égal!”
Non, je ne regrette rien
Quer saber mais sobre ela? Ah, basta saber que ela nasceu no dia 19 de dezembro, e, como eu não me canso de dizer, somente divas nascem nesta data!
Há alguns anos passei a almejar, sem buscar, um verso simples e verdadeiro que resumisse o poder de renovação do amor. Dentro do meu vazio estava o conhecimento da existência deste poder, mas meus lábios haviam provado somente ensaios do seu gosto adocicado. Depois de alguns sóis, só, primeiramente descobri a estação do amor: a primavera. É, se o amor tivesse uma estação seria a primavera, pois nela tudo o que parece ter morrido outrora, nasce novamente, forte, intenso. E, principalmente, o que nunca brotou desperta pela primeira vez. Até a fé é capaz de renascer pelo amor. Quanto ao verso simples trajado de verdade? Este vem macio, ao som de uma gaita de boca, e pode ser lido nos meus olhos; na luz do sol que pinta com um sorriso cada amanhecer. E o sol, este sempre vem sagaz, e como o amor queima, inquieta e abrasa; mesmo que este tenha acabado de nascer e seus raios ainda sejam tímidos.
Muda voz do mundo oco e surdo que não ouve o som dos passos vagarosos, ecoado pelas pessoas que marcham nas ruas; em fila, clamando caladas por nula lição.
Apenas nós ouvimos. Eu sei que você, assim como eu, escreve em linhas incertas impulsionada pela certeza do saber. E em cada letra torna busca achar respostas; e desenha no papel um sorriso desbotado para digerir tanta hipocrisia.
Que astúcia do tempo é essa, que faz da ingenuidade cria sedenta da burrice? Quem é o maestro que ensaiou tão bravamente o coro das frases feitas? Quem pintou o mundo com uma cor assim tão triste?
A verdade, minúscula e insignificante, como um grão de poeira perante o interesse coletivo, quando cai em nossos olhos arranha, provoca incomodo, e nos faz cambalear diante dos fatos. Mas, por quê? É desse incomodo que provém o desfile de homens e mulheres; que lá fora seguem em passos lentos, vendados, em uma marcha sem fim.
Trajo luto, mas isso não impede que eu transforme a janela simples em luxuoso camarote, e de lá ouça doces melodias cantadas por pássaros sem cor, que nesta manhã de natal dividem a rua apenas com finos pingos de chuva - "a frescura das gotas úmidas". E amanhã será um novo dia, amanhã será mais um 26 de dezembro, e todos os votos de ontem serão esquecidos - junto com 1996, que baterá em minha porta somente ano que vem. Até lá!
Ensaio os traços de uma mulher melhor e a folha continua em branco. Justo agora recordo que a primeira palavra que aprendi a escrever foi “borboleta” (depois de "pai", "mãe" e "Camila" – é, meu segundo nome é esse ai, bem melhor que o primeiro, mas enfim). Não sei se exatamente por isso, sei apenas que desde criança tenho certo fascínio por borboletas. E são borboletas azuis que zelam pelo meu sono. Mas quem vive de fábulas? Atírias não são reais, por isso durmo só, ao relento!
Se minhas lembranças não ardessem como brasa e tampouco minhas palavras fossem espinhos, certamente eu chegaria a uma conclusão plausível dos passos que dei até aqui, sem sentir cansaço ou asco. E enquanto estou aqui esperando o tempo passar, o vento traz diante de mim a clareza, no colo de uma folha verde que rola lentamente pelo chão do verão, até tocar meus pés. No verde da folha está gravado com letras de forma: preciso de você, Deus. Tremo. Nesse instante inicio uma série de suplicas e confissões para o invisível:
“Firo, mas juro, não é proposital. Sou cruel, incrédula, mas sei amar, você sabe que eu sei. Mas se mesmo amando continuo ferindo, é porque preciso de você. Preciso que você volte a morar em mim, como quando eu era criança, mesmo que seja apenas para permitir que eu durma em paz. Mas para tê-lo como inquilino preciso ter fé, não é? Se a morada da fé é a esperança, então eu devo ter uma faísca de fé pulsando no meu peito, pois não sou desesperançosa. Agora, exausta, sentada diante de mim, não quero mais o desenho de uma mulher melhor. Quero, apenas, deixar de sentir o sopro gelado da dor”.
Acorde para os novos acordes! É muito gostoso ir num show de rock e ouvir as músicas dos seus ídolos da década de 60, 70 e 80, aqueles que estampam as paredes de quartos juvenis e capas de antigos vinis. Mas até que ponto esse resgate musical é bom? As vezes, esse preferência por covers atrapalha a aceitação do trabalho independente, que encontra pelo caminho o receio do público em receber o que é “novo”.
Leonardo e Giancarlo já subiram em palcos para tocar covers, mas viam que o público que cantava as músicas loucamente não aplaudia nem assoviava para eles, mas sim para as canções daquelas bandas que lhes serviram como referência.
Leonardo é guitarrista e até entrar na Le Socian, passou por outras duas bandas patobranquenses. E foi justamente da junção dos seus gostos musicais com as referências dos outros três integrantes da banda, que ele encontrou o prazer em tocar o rock independente. “O prazer de ser independente, de tocar no underground, é saber que quem está ali, está por que quer ouvir a SUA música”.
Juntamente com os companheiros da banda, Leonardo, assim como tantos músicos regionais, encontra dificuldade em conseguir reconhecimento na região. “A produção independente em si não traz sérias dificuldades. Mas como a cena autoral da região não é nada favorável, o músico tem que ter pulso firme e realmente saber o que quer, para investir sua grana na gravação de demos”. A Le Socian possui dois demos (em www.myspace.com/lesocian). O primeiro possui 11 músicas próprias, e ainda a versão “sociânica” de Hey Bulldog, dos Beatles, tocada de trás para frente. Recentemente a banda lançou o segundo demo que, segundo Leonardo, “está mais maduro, não tem mais tanta bagunça, tem mais responsabilidade, mais foco, temos um estúdio decente para ensaios - que nós mesmos fizemos”.
A banda existe há dois anos e possui Diego da Cruz no vocal e guitarra, Leonardo Fantinel na guitarra, João Faccio no vocal e baixo, e Christhian David na bateria. “Somos um quarteto formado por pessoas com estilos diferentes, uns mais ecléticos, outros nem tanto. Logo as influências vão de Tim Maia à Sepultura”. Quem for ao show da banda irá notar referências que mesclam entre Audislave, Led Zeppelin, Morphine, Nirvana, entre outros.
Giancarlo possui 14 discos gravados e cerca de 50 músicas de sua autoria disponíveis na internet (confira aqui: www.myspace.com/giancarlorufatto ). Gian é para quem gosta de Bob Dylan, de Ryan Adams, de Nick Drake, de Jeff Buckley, de Tom Waits, e por ai vai. Sua peculiaridade em descrever situações pitorescas do cotidiano, dá forma a belas canções, que vão do drama à sátira bem dosada.
O primeiro disco de Giancarlo, o “exagerado Lo-fi dreams” como ele mesmo o intitula, foi gravado em 2004. E Giancarlo o produziu sozinho, quando ainda morava em Coronel Vivida, cidade onde nasceu e visita nos feriados, se não sua mãe enfarta. Em 2007 começou a fase mais produtiva de Giancarlo, fase que ainda não cessou. “Eu vendi a guitarra, comprei um violão, uma gaita de boca e um manual chamado ‘Como ser Dylan em cinco passos’. Tarantino diz que costuma medir a qualidade de seus filmes através deste manual, eu apenas concordo e digo “ok”. Seguindo o manual da compulsão – digo Dylan – gravei uma dúzia de discos”.
Em 2009, o rapaz solitário em cima do palco ganhou companheiros, e sente o gosto do reconhecimento. Agora, Gian está ganhando os bares curitibanos com a Hotel Avenida, banda fruto de parcerias musicais realizadas entre Gian e Ivan Santos (da banda curitibana OAEOZ). Os dois trabalharam em algumas composições em 2008, e da sintonia e da vontade em divulgar as músicas feitas a quatro mãos, chamaram outros músicos curitibanos e montaram a Hotel Avenida, que, aliás está sendo bem recebida pela critica paranaense. “Experimente o google para ver que não estou mentindo, muito”, risos. A banda possui dois EPs, que podem ser baixados no endereço: www.myspace.com/hotelavenida
Os músicos independentes, atualmente, representam a maior parte da produção musical no Brasil. A música independente apresenta maior proximidade com publico, já que as músicas são disponibilizadas na internet na maioria das vezes gratuitamente e, principalmente, com uma freqüência maior de lançamentos. Essa facilidade de comunicação e difusão dos arquivos de música beneficiam o artista independente, tornando viável a existência das bandas que seguem esse gênero sem o suporte de marketing de uma grande gravadora.
A firmação da música independente, a escassez de novidades e a produção de material apelativo pelas gravadoras, possivelmente contribuíram para o avanço da crise existente no setor fonográfico mundial. No entanto, “o que está em crise não é a música em si, mas sim a indústria musical. E isso é ótimo para o artista independente”, salienta Leonardo.
E se a música independente é uma das causas da crise fonográfica, Noah acredita que ela pode ser, também, a solução para ela. “Talvez as gravadoras tornem-se grandes distribuidores de material (como de fato já é o modelo de negócio de algumas delas – a Tratore, por exemplo). Outra possibilidade parte do fato de que o CD cada vez mais se mostra obsoleto como suporte físico. Dessa forma talvez as gravadoras explorem outros produtos de bandas de destaque, como o mercado de vinil, material mais interessante e menos ‘commoditizado’ que o CD e que tem experimentado um certo aquecimento nos últimos tempos é um exemplo.”
Leonardo parte do mesmo pressuposto que Noah, e aposta, ainda, no download pago. “A pirataria sempre vai existir, mas a tendência é se acabar com os CDs. Tenho bons motivos para crer que o download pago vai se transformar, em pouco tempo, na forma mais eficiente de se ganhar dinheiro com música”.
Marketing ou pirataria “O que hoje é marketing, amanhã é pirataria”, a frase foi dita por Leonardo, ao se referir à uma realidade: não existe um mercado estabelecido de arquivos de música no Brasil. Com isso, os trabalhos independentes são veiculados e acessados sem nenhum tipo de controle, o que, muitas vezes é intitulado como pirataria. Existem algumas iniciativas de empresas e sites para mudar essa realidade, mas para Noah, nenhuma dessas iniciativas são realmente representativas. “Creio que enquanto não alcançarmos um modelo de loja virtual viável a pirataria ainda será um problema. No caso da música independente, geralmente os músicos encaram os arquivos disponibilizados na internet como a verdadeira fonte de recursos para suas bandas, pois é a divulgação das suas músicas, uma ponte para tornarem-se conhecidos e realizarem shows”.
O músico Giancarlo diz que todo disco independente é meio disco pirata. Para ele, a pirataria também auxilia na divulgação do seu trabalho: “eu adoraria passar numa banquinha e ver um disco meu pirateado, me pouparia trabalho, saca? Nos anos 90 era assim que as bandas testavam sua popularidade”. E ele ainda satiriza: “a crise fonográfica existe para artista popular, não para caras como eu”.
Olá pessoal! Nas minhas próximas postagens falarei sobre a música independente. Nesta matéria, que será dividida em três partes, tive o auxílio de três pares de olhos atentos (e ouvidos aguçados), cujos donos possuem uma característica em comum: saciaram a sede por novidades quando descobriram a maneira independente de fazer música. Sendo assim, eu, Noah Mera, juntamente com os músicos Giancarlo Ruffato e Leonardo Fantinel, a partir de agora contaremos um pouco sobre essa forma de fazer música que está mudando a cena musical no Brasil – e, modestamente, na região Sudoeste do Paraná. Ok, a matéria pode ser retroativa para alguns, pois já foi postada no site patobranco.net, mas como diz minha sabia consciência: "Jozi, se for para pecar, que seja pelo excesso e não pela falta!".
Nadando contra a corrente Músicos independentes mudam a maneira de fazer e ouvir música no Brasil
Eles compõem as letras e melodias. Antes de gravarem as músicas, compram dúzias de CDs virgens e o papel para imprimir o encarte desenhado por eles. As músicas são gravadas no estúdio que antes era o quarto de hóspedes e hoje com isolamento acústico feito com caixas de ovos, hospeda guitarras, baterias, cabos, amplificadores, microfones, etc. Para vender os CDs divulgam o trabalho em sites, blogs e no “boca a boca”, tudo isso unido à criatividade e disposição na hora dos shows. Quem são eles? Eles são os músicos independentes, músicos que não estão ligados a nenhuma gravadora, que passam longe do gosto massificado e que, através de seus acordes, estão mudando a cena musical do Brasil.
As produções independentes são anteriores ao punk, mas foi no gênero que essa forma de fazer música se intensificou – no desejo de romper a cultura dominante nos Estados Unidos, na década de 1970. Há exceções, mas o punk tradicional caracteriza-se pelo uso de poucos acordes, o que auxiliou na disseminação de uma das filosofias do gênero musical, a do “faça você mesmo” (do it yourself). E o que isso interferiu na música independente? Essa filosofia punk incentivou o surgimento da música independente, pois prevê que qualquer um pode se tornar um músico, compositor ou cantor e, porque não, produzir seu próprio álbum sem o dedo das gravadoras.
Em 2004, Giancarlo Ruffato gravou sozinho o seu primeiro disco. Desde então, já foram muitas as músicas compostas e os corações partidos. O músico que nasceu em Coronel Viviva e que há quatro anos mora em Curitiba, atualmente possui uma banda independente, e usa assiduamente das possibilidades ofertadas pelas internet para divulgar o seu trabalho. “Aprender a lidar com a internet é meio como tatear no escuro, uma hora você tem de acertar alguma coisa mesmo que isso signifique rachar sua cabeça. Blogs, boca a boca, vale tudo! Mas uma boa sacada ajuda a ganhar uns pontos e encurta o caminho entre você e o público”, revela. No ritmo verde e amarelo As grandes gravadoras atingiram o público no Brasil a partir dos anos 1950, quando a Bossa Nova trouxe a poesia musicada para a casa dos brasileiros – principalmente através da televisão. Em seguida, na década de 1960, os Festivais de Musica Popular Brasileira revelaram grandes compositores e intérpretes nacionais, dando espaço às chamadas “canções de protesto” – que refletiam o momento político e social que o país passava na época. A televisão ajudou consideravelmente para que a MPB se tornasse o mainstream (massificada, aderida pela maioria da população) da época. Foi um período digno dos ideais de Policarpo Quaresma, em que a música brasileira passou por um processo de valorização, o que Oswald de Andrade talvez chamasse de “antropofagismo musical”.
As gravadoras se firmaram devido aos avanços técnicos, bem como pela expansão e massificação oportunizados pelos meios de comunicação, que contribuíram para solidificação de um monopólio da produção e da “preferência”, musical no país. “Acho que esse pessoal que dita as tendências acabou criando tantos rótulos e, ao mesmo tempo padronizando a música em geral, que os ouvidos das pessoas já estão começando a saturar. É aquela velha história, se você passa muito tempo fazendo determinada coisa, ou você vicia, ou você enjoa”, frisa o musico Leonardo Fantinel, 20 anos, que há pouco mais de um ano atua na cena independente de Pato Branco e junto com a sua banda enfrenta os desafios de romper velhos paradigmas.
Assim como aconteceu com a Bossa Nova e com a MPB, para a difusão de qualquer tendência, seja artística ou comportamental, os meios de comunicação exercem significativa influencia, pois são a ponte que media os produtos ao público e dita o maistrein. “A maioria esmagadora das pessoas já se deixou levar pela indústria musical”, reforça Leonardo. Contudo, nem todo mundo gosta “do que todo mundo gosta”. “No final de 1999, senti a necessidade de novidades musicais fora da grande mídia, já que a música mainstream do final dessa época não me agradava, então descobri a música independente”. Relembra Noah Mera, sócio de uma livraria da cidade e, como revela Gian que é seu amigo “é um ótimo consultor musical”.
Noah divide o consumidor em duas nuances: a apreciador e o passivo. Para ele, “o apreciador de música, este é curioso, que procura música de qualidade e que o surpreenda. Este encontra na música indie uma maneira de satisfazer esta necessidade. A postura mais passiva, do consumidor ocasional que não importa-se com a qualidade da música, um mero pretexto ou complemento em ocasiões sociais – este é o alvo das grandes gravadoras”.
O gênero independente despontou no Brasil na década de 1980, um pouco antes de Noah descobri-lo, e teve o seguinte cenário: músicos clamavam pela renovação da música brasileira, insatisfeitos com a produção em série de canções apelativas, produzida para o pronto consumo. E o protesto se deu em forma de canções. Era o início de uma nova tendência na hora de fazer música, trazida até a costa por aqueles que decidiram nadar contra a corrente.
“Nos demais, todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito.
Mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração".
Maiakóvski.
Tateia os rastros deixados na areia usando a alma como bengala. Fecha os olhos para tentar enxergar lá no escuro o que antecedeu cada passo dado. Sorri. Um pouco mais de açucar no café dessa manhã talvez amenizasse os rastros tortos às suas costas. Vento no rosto, os braços abertos como quem espera um abraço. Abraça o vazio, olha para cima, para o Mar...
O mesmo vento que a toca, guia maciamente a coluna de pássaros que enfeitam o céu cor-de-rosa do amanhecer. Então, no vazio de si mesma, precisa conversar com o Mar, ouvir uma resposta dissipar duramente no seu peito que se vestiu de rocha. Balbucia: como posso me perder agora se é ele quem me tira do escuro? Sim, no início tombei com as suas palavras, mas agora é insustentável!
Pergunta se há alguém nesse instante vendo os mesmos pássaros, sentindo o mesmo adeus que lhe aperta o peito. A resposta não vem. Continua olhando o azul que antecede o caminho dos pássaros, até que o último foge do seu alcance.
É da sua vocação para a ironia que zomba da vida, dos feitos e efeitos tão banais. Gargalha! Ousará permitir-se, mesmo sem saber nadar. E pela primeira vez chegar sem querer partir. E pela primeira vez “ser toda coração”.
Macabéa nunca havia escutado da boca alheia tantas conjeturas positivas, mas naquele dia em poucos minutos foi metralhada por um futuro bom! Tão bom que lhe deixou desorientada, vitimada por uma sensação digna do consumo demasiado de doses etílicas – e olha que ela nunca havia tido um porre. Ah, ela estava apaixonada pelo seu futuro e pelo esposo estrangeiro prometido pela cartomante falante, e de passado duvidoso, que trajada de sinceridade e pesar confessou: “acabei de ter a franqueza de dizer para aquela moça que saiu daqui que ela ia ser atropelada”. Grata pela sorte de não ter um destino doloroso como o da moça sem nome e de funeral marcado, a nordestina de Clarice Lispector, após ouvir a doce previsão, deu as costas ao passado e as mãos a morte: foi atropelada. Sim, foi realmente uma surpresa castigada pela agonia.
Mas eu não a condeno! Quem nunca sentiu uma pontinha de vontade em ter o futuro desvendado na palma da mão, numa quiromancia torta feita por uma dessas ciganas atarracadas de novela? Ou ouviu falar de uma amiga que fez uma mandinga e acabou conseguindo o amor da sua vida? E de pessoas que procuraram nas forças ocultas as respostas para os seus problemas? Ingredientes inusitados e receitas infalíveis não faltam. Vale tudo! Vela preta de sete dias, pena de galinha, cachaça, roupas íntimas e óleo de rícino. “Simpatia boa é aquela que dá trabalho”, ao menos é o que pensa uma pseudo-bruxa muito conhecida de Pato Branco. Vai saber...
O fascínio do homem por esse tipo de prática ocorre desde os primórdios e é decorrente dos mistérios e projeções de sociedades antigas, que criavam lendas ou mitos para explicar fenômenos que não compreendiam. Isso pode ser evidenciado em sociedades como a grega e a egípcia, que usavam mitos para explicar fenômenos da natureza.
Hoje a busca se dá por vários motivos, mas também é motivada pela insatisfação dosada que grita por respostas. E quando tais respostas não são encontradas no meio em que vivemos, o jeito é aderir às crenças vindas de outras culturas. Por exemplo, em algumas localidades, o fogo, a água, a terra e o vento são considerados elementos de veneração - culto que iniciou no momento em que o homem passou a andar em grupo, como pode ser visto no filme A Guerra do Fogo, de Jean-Jacques Annaud.
Mas ai vem a deturpação...Não generalizando, mas com a popularização de algumas superstições, os valores ganharam outros significados. Devido ao comportamento massificado, intensificado na sociedade após a industrialização, essas características, que até então eram somente místicas, passaram a adquirir novos valores e significados: muitas vezes mercantilizadas, foram condicionadas de acordo com padrões culturais que cada sociedade possui.
Enfim, “feitiçaria ou charlataria”, todos sabem que superstições e simpatias não possuem fundamento científico algum. Contudo, tanto a ciência quanto as superstições surgem de hipóteses. Há quem comprove com êxito uma teoria cientifica ou que jura que conseguiu arrumar um marido em apenas sete dias. Caso queira tentar, existe uma cartomante pato-branquense que garante que traz a pessoa amada em três dias. Seu endereço não foi apurado, mas ela reside na zona sul da cidade. Dica dada, mas não contem a Macabéa.
“Se todo homem deve ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, eu já fiz tudo isso”, brinca o professor aposentado Evaristo Castanha, que aos 74 anos esbanja bom humor e disposição. Vocês talvez não façam ideia de quem estou falando, mas os que beiram os 20 anos, assim como eu, certamente receberam na escola mudas de Pau-Brasil quando o Brasil completou 500 anos. Lembram? Pois então, o responsável pelas mudinhas é o professor Evaristo, que motivado pelo patriotismo realiza na cidade de Francisco Beltrão o “Projeto Pau-Brasil do Sudoeste do Paraná”, que viabiliza o cultivo e a distribuição de mudas da árvore símbolo do Brasil para crianças da rede de ensino pública da região sudoeste do Paraná.
Quem vê a emoção e a satisfação estampadas nos olhos do homem grisalho que analisa atento as folhas de uma árvore de Pau-Brasil que plantou há cerca de nove anos, e que agora já o ultrapassa em altura, consegue entender o que esse trabalho representa para ele.O professor Evaristo começou o projeto em 2000, ano em que o Brasil comemorou 500 anos. “No começo do Projeto, consegui uma única muda de Pau-Brasil, que veio de São Paulo, e desta cultivei outras. Então resolvi distribuí-las para os alunos da rede municipal, para que as crianças tivessem a oportunidade de conhecer a árvore símbolo nacional”, relembra. Na ocasião, foram distribuídas 500 mudas da árvore para as escolas da região sudoeste do Paraná. O projeto é desenvolvido através de um convênio entre o Viveiro Municipal de Francisco Beltrão, instalado junto ao Parque Irmão Cirilo (local onde são cultivadas as mudas), em parceria com o Instituto Ambiental do Paraná (Iap).
Outra fase do projeto está quase concluída. Evaristo registrou seu conhecimento sobre a árvore no livro “O Pau-Brasil, do Oriente ao Sudoeste do Paraná”, que tem publicação prevista até o final deste ano. Segundo o eterno educador – que traz nos seus traços características do personagem de Lima Barreto, Policarpo Quaresma – o livro é uma continuação do projeto, e mostra a história do Pau-Brasil de forma sintética, como o próprio título sugere: a trajetória da árvore, do oriente até o sudoeste do Paraná. “Eu não fui só professor, eu fui um educador e sempre me preocupei com a educação do aluno, em todos os campos da vida humana”, revela.
Quando se fala em cidadania, os dizeres geralmente soam utópicos, não? Mas o professor Evaristo é um bom exemplo de que é possível sim a realização de ações que visem algo fora da órbita do nosso próprio umbigo. Então, que tal seguirmos esse exemplo?
O cheiro de terra banhada pela fina chuva faz com que os ânimos se acalmem. Os pés dançam uma quase valsa, ao som do pio dos pássaros. Enquanto isso, sem fazer barulho, um sentimento novo começa a migrar, de um peito para o outro.
Sabe sol, enquanto você dormia, aprendi tanto, mas principalmente que há momentos doces na vida em que nos vemos capazes de sobreviver apenas com café, bolachas e amor.
Sol, muito obrigada por me emprestar o seu brilho, mas vê se aparece na próxima!
O menino canhoto anda atendo pela rua dos pássaros. Ele traz nos olhos castanhos um olhar tímido e na mão esquerda uma sacola com algumas maçãs. No seu peito pequeno há um coração que bate forte e cuja fantasia é a inquilina que mais cômodos lá habita.Seu calção azul carrega em um dos bolsos o peso da euforia e da sorte alojada no trevo de quatro folhas, encontrado a pouco entre as roseiras da mãe – ah, e como esse trevo pesa!
Por falar em sua mãe, foi para ela que numa tarde opaca ele compartilhou a singela impressão: estavam os dois no ônibus, lotado, enquanto o menino olhava e apontava com os dedinhos para além da janela. Até que de repente disse: "mãe, olha o castelo!". Só uma criança enxergaria príncipes em uma simples chalé desbotada. Eis o que os olhos da infância te mostram num dia qualquer.
Na infância nada é medido. Por isso a tristeza não tem tamanho, é algo ainda incompreensível. A dor é presente em todos os percalços da vida, mas o sofrimento gratuito e o ressentimento gerados por ela, estes não passeiam pelos jardins da infância. É com o tempo que os pés calejam e o sol, antes morninho, envelhece.
Enquanto estamos aqui andando por ruas imundas fitando as pontas do pés, a cada passo mais distantes da infância e mais próximos da velhice, já nem lembramos mais das doces canções que nos embalavam até o sono. Andamos pelos mesmos feitos, pelos mesmos erros, sob uma ânsia cruel de rumar à acertos incertos. Tudo é pequeno e de valor ileso. Este é o tempo onde se vive tudo; e que a emoção traja a carcaça do nada. As vezes, num passeio pelos traços do tempo, os dias nos trazem algum ensinamento; mas tê-lo é questão de sorte, como quando se é criança e se atemos a um simples trevo.
Somente em dois períodos somos capazes de enxergar realmente, e de ter fé – em Deus e nas pessoas. E em ambos temos “sete palmos” – sete palmos de altura, sete palmos na penumbra! Na infância e na morte. Nesta última, exaustos de tatearmos no escuro, finalmente abrimos os olhos, pousamos os anseios, os medos e a hipocrisia no peito da morte. E o dias dos passeios descalços regressam e então, incumbidos de uma leveza até então concebida somente na infância, podemos novamente, enfim, voar. E lá do alto enxergamos a sorte de um dia termos estado do lado de lá; que hoje, ainda, é cá.
Enquanto isso...
O homem canhoto anda depressa pela rua dos ratos. Ele traz nos olhos castanhos um olhar tristonho e na mão esquerda uma pasta sem nenhum sonho. No seu peito cinzento há um coração que já nem bate direito, e cuja hipocrisia é a inquilina que mais cômodos lá habita.Seu terno azul carrega em um dos bolsos o peso da mentira que está alojada nas folhas murchas da sua consciência – ah, e como essa consciência pesa!
Ah, se minhas pernas não fossem tão fracas, talvez esse martírio já tivesse partido sem que uma lacuna doesse e gritasse em todo anoitecer. Mas para que a sua partida seja consentida, o peso da consciência não poderia me fazer arquejar a cada manhã. Sim, preciso de você para andar, por isso – só por isso – o carrego com meus braços curtos de mulher miúda; em tamanho e em caráter.
A cada passo o cansaço aumenta, meu andar capenga e meu olhar despenca; lendo rimas autorais cada vez mais pobres e mirando os palmos de terra ímpares acima do meu ventre, lançados por mãos que nem saberão meu nome.
Sou ingrata, eu sei. Te desprezo e me condeno por precisar de você para prosseguir a estrada em lentidão complacente. Derramo o desprezo justo em você, que é tão atento, solicito, e que desperta do meu lado a cada nascer do sol – até quando esse não vem.
Oras, vai embora ingratidão petulante!
Encolhida em mim, inicio a minha rendição. Toda a minha sincera gratidão a você, que sem desleixo me ampara feito um par de bengalas desde que fui concebida: o pecado.
Fingir candura é comum a cada passo da vida. Mas ser cândida sem querer ostentação é hipocrisia – tal proeza é digna somente de Cândido e seu otimismo chulo. É preciso saber servir a solidão com doses de sarcasmo e frieza, para assim enganar a morte de cada dia. E dar migalhas de ironia àqueles que têm gula e que vivem sob uma cegueira crônica – sustentados por uma miopia moral.
“A inspiração gira por aí. De repente ela passa perto de você como se fosse uma borboleta: se você pegar pegou, se não ela vai embora”. A frase é do fotógrafo e poeta João Maria Alves de Paula, artista que sempre buscou inspiração na natureza e andou com a câmera fotográfica pendurada pela alça no pescoço, registrando momentos únicos, alegrias e tristezas, por mais de 50 anos.
João de Paula nasceu em 13 de julho de 1935, em Lagoa Vermelha, no interior do Rio Grande do Sul.Em 1954, o jovem com então 19 anos, descobriu a fotografia no exército e lá mesmo começou a tirar e a vender as primeiras imagens capturadas por uma objetiva. Ao sair do quartel, em 1955, João fez um curso por correspondência e aprendeu suas primeiras técnicas fotográficas. Mas aprender a fotografar de forma quase autodidata gerou alguns episódios curiosos: “fotografei um filme inteiro, abri a máquina, tirei o filme e olhei contra a luz para ver como as fotografias haviam ficado... imagine! Claro, queimei o filme inteiro”, risos.
Chegada em Pato Branco
Os livros pelas estantes de sua casa e a máquina de escrever empoeirada dividem espaço com as centenas de fotografias que compõem um cenário nostálgico. Ali, João de Paula digita seus poemas e através de suas fotografias relembra a sua e a história de Pato Branco. Tendo como companheira uma memória que não falha, João lembra com exatidão o dia em que chegou na cidade e as dificuldades dignas de todo início de vida nova: “ cheguei aqui no dia 15 de fevereiro de 1965, e me instalei muito mal. Achava que ao chegar aqui eu já ganharia dinheiro. Que ganhar dinheiro coisa nenhuma! Foi passando o tempo e tive que vender até minha máquina para poder sobreviver”, recorda.
A ajuda veio literalmente do céu! Foi a nevasca que atingiu a cidade de Pato Branco em 1965 a responsável pela ascensão profissional de João de Paula. Na época, ninguém na cidade sabia fotografar neve, inclusive ele. Mas ao ver pela janela o chão tomado pelo tapete branco, João correu para seus livros e encontrou o que precisava: “Li que para fotografar neve o obturador deveria estar regulado na velocidade 250 e o diafragma na abertura 11. Após regular a minha máquina, regulei outra, a de um Frei que era muito meu amigo. Ele ficou desconfiado porque o diafragma estava muito fechado, não entendia que embora o céu estivesse escuro, a neve refletia a luz, por isso, ao deixar o diafragma aberto as fotografias estouravam”, explica. Na ocasião, os únicos na cidade que conseguiram fotografar a neve foram João de Paula e seu amigo. “Eu vendi tanta fotografia naquele dia que sai do anonimato. Até então eu era o João, o João – Ninguém. Depois daquele momento eu fiquei conhecido, ai não me faltou mais trabalho, até agora que resolvi parar de fotografar”.
O cotidiano patobranquense em cada clique
Com a objetiva voltada sempre para os detalhes, João de Paula conseguiu registrar fatos curiosos e históricos de Pato Branco, pois como fotógrafo vivenciou várias faces da profissão, atuando do foto-jornalismo até à fotografia artística.
Uma das fotos mais conhecidas de João de Paula é aquela que registra o momento exato em que um raio atingiu a cruz da torre da Igreja Matriz São Pedro Apóstolo. Toda tempestade que se aproximava, João, que na época morava nas proximidades da Igreja Matriz, colocava sua máquina no tripé e ficava na janela da cozinha esperando o raio. “Quando consegui a foto eu quase caí de costas no chão, foi um susto tremendo. Eu fiquei eufórico para ver o resultado na manhã seguinte, tanto que naquela noite quase não dormi. No outro dia, quando revelaram o filme, eu tive na mão uma fotografia sensacional”.
Para a professora e historiadora Néri França Fornari Bocchesi, a história de Pato Branco foi registrada graças às lentes de João de Paula. “O João é uma figura importante em Pato Branco, porque ele não é um fotografo comum, ele enxerga aquele pormenor que o outro não vê e isso o diferencia dos demais. E, como ele registrou o cotidiano de Pato Branco por 50 anos, consequentemente registrou a nossa história”, frisa Neri.
Quando cliques viram versos
Outra face artística de João de Paula é a poesia. O fotógrafo desenvolveu uma facilidade curiosa em associar poesia com fotografia, pois passou a criar poemas baseados nos cenários de suas fotografias.E foi justamente para o aniversário de 15 anos de Pato Branco que João fez seu primeiro poema para homenagear a cidade.
“Ele é uma pessoa de uma sensibilidade muito grande, porque além de fotografo ele é poeta. Esses são apenas algun, de uma série de dons que ele tem”, ressalta a professora Néri, que foi a responsável pelo ingresso de João na Academia Patobranquense de Letras.
Traços do tempo
“O que é a natureza da gente? O que o mundo e o que o tempo fazem com a gente?”, me pergunta João de Paula. A resposta não veio. Há cerca de quatro anos, João de Paula, aos 75 anos, resolveu se aposentar. Atualmente, vive com sua esposa, seus livros, suas fotografias e com as abelhas que começou a criar no quintal da casa longe do centro da cidade. “A gente fica velho, não suporta mais música alta, agitação, barulho de criança, correria. Então resolvi para Não tenho mais o mesmo pique de outros tempos, como quando eu passava a noite toda acordado em pé numa festa fotografando, por exemplo”, revela.
João, que não se rendeu à fotografia digital, trabalhou sempre com câmeras analógicas, passando, às vezes, horas para revelar uma foto. “Eu me sentia emocionado toda vez que a imagem começava a surgir na minha frente na hora da revelação”, lembra.
Além de diversas premiações nacionais, ele tem fotografias aceitas em exposições internacionais, em países como Chile, Costa Rica, Itália e República Tcheca. E, embora sua trajetória artística seja longa e composta por vários prêmios, João de Paula também já sofreu com a falta de reconhecimento, realidade digna de tantos outros artistas locais. Atualmente, suas exposições, tão raras, dificilmente chamam a atenção da população, que normalmente se volta a outros tipos de lazeres. “A cidade de Pato Branco até agora não valorizou a grande figura humana e a grande figura artística que é o João de Paula”, desabafa Neri.
E o que a fotografia pode representar para um homem que por 50 anos, registrou ângulos da vida real com imagem e poesia? “A fotografia me deu duas coisas: me alimentou o corpo e a alma, ou seja, foi tudo para mim!”. Quando o ponto dessa frase foi desenhado no papel, agradecimentos foram dados, o bloco e a caneta devidamente guardados. Ao me despedir, dei as costas à nostalgia e a um homem grisalho, parado no portão da sua casa, com lágrimas nos olhos.
Olhos expressivos, poses compostas, detalhes visíveis, traços modestos, porém, marcantes. Pode ser um grão de areia ou uma folha seca de outono repousando no chão. Seus improvisos são acompanhados pelo seu incauto e pela sua enorme distração. Mesmo sendo uma incógnita adora achar respostas. Seu fascínio pelo escondido e pelo irreal têm a função de uma ponte. Esta que a conduz para o seu encanto pela aquarela de uma quimera, pincelada por mitos e deuses que a assanhavam quando criança - que volte e meia vêm para um chá. Uma meiguice enjoativa remando na pureza de um rio poluído. Sua existência pode ter sido um pecado prazeroso, sem gozo.
- Eu sei, mamãe. Lutar pela sua eternidade, ou pelo “para sempre” das coisas, é uma guerra que eu nunca quis para mim. Prefiro uma realidade triste, que a tolice de uma esperança falsa.
Você tem a alma de um passarinho e eu falo com gatos. Eu sonho contigo, sonho que acordo do seu lado. No sonho, você me olha com ternura e diz “o que foi?”. Então eu acordo e você não está aqui. Mas você já ouviu essa história, atenta. Esperei uma resposta, mas seus lábios não disseram nada. Você baixou os olhos, ficou olhando para a xícara e depois rio um riso abafado. Queria poder te ver todos os dias, ter coisas interessantes para te dizer. Ao menos eu te faço sorrir. Fico imaginando mil e uma formas de chegar em você, mas me falta coragem.
Queria não ser tão covarde.
II
Se a morada da alma é o peito, então o meu peito tem como inquilina a alma de um pássaro. É, eu tenho no peito a alma de um pássaro e você fala com gatos. Se a alma morar no coração, a minha estará ao relento, pois dúzias de sonhos tomam meu coração por inteiro. Por isso, não queira ficar, guarde esse amor e não prenda a minha alma de passarinho. Eu só quero o seu café. Ouvir suas histórias e reparar no desenho da sua boca. Ficar horas sentada diante de ti, procurando a ilusão que mora no fundo de cada xícara vazia, e nada mais.
A posição de ter que torcer por algum time foi mais uma das quais anulei na infância. Tal opção perdura até hoje e creio que assim continuará - e os motivos não cabem aqui. O Brasil é o país do futebol e dos times idosos: hoje, dia 16 de setembro, o Grêmio faz 106 anos; no dia 12 de outubro, o Coritiba irá comemorar o seu centenário. Vale postar essa matéria que fiz para os 95 anos do Palmeiras, comemorados em agosto desse ano. Aqui ficam os meus parabéns, aos senhores de bengalas.
Posso perder minha mulher minha mãe desde que eu tenha o meu
PALMEIRAS!
Quando Arnaldo Batista, Sérgio Dias e Rita Lee escreveram e musicaram os versos de “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha o Meu Rock And Roll”, certamente não imaginaram que a frase viria a calhar no meio de uma entrevista sobre times de futebol e, ainda, que o Rock and Roll em questão daria lugar para o Palmeiras. Tal adaptação pode parecer sandice, ou até mesmo injuria para alguns. Mas assim como existem aqueles apaixonados por música, há aqueles apaixonados por literatura, dança, teatro, cinema e futebol – nada fora do comum, ainda mais quando se vive num país intitulado como sendo “o país do futebol”. É a pluralidade cultural que bate a porta; aceitá-la e convidá-la para entrar é fundamental para viver em harmonia: voála, eis a receita para viver em sociedade.
Por trás dos óculos e do ar sério está um jovem “apaixonado pelo Palmeiras”, como ele próprio se define. Vinicius Augusto Muceno é apenas mais um entre tantos jovens brasileiros que trazem no peito a paixão por algum time de futebol desde a infância. Ele, que tem 24 anos, torce pelo Palmeiras desde 1992: “quando eu tinha sete anos, passei a torcer pelo time ao assistir uma partida contra o Vitória”, conta. Mas foi no ano seguinte que a paixão começou. “Em 1993 o Palmeiras conquistou pela segunda vez o Campeonato Paulista e, também, o Brasileirão, com jogadores como Edmundo, Edílson, Evair, Zinho e Vanderlei Luxemburgo como técnico”, justifica Vinicius, todo orgulhoso.
Por que o Palmeiras?
“A principal característica do Palmeiras é a raça, pois ele é um time que não se entrega fácil”. É por essas e outras que Vinicius escolheu o time paulistano para torcer. E quando indagado sobre o motivo de não optar por um time paranaense, Vinicius tem a resposta na ponta da língua: “na época em que comecei a torcer pelo Palmeiras, ali na década de 90, os times de expressão que existiam no cenário nacional eram os dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo”, explica o torcedor paciente, para a quase-jornalista-totalmente-desentendida-de-futebol.
Nessas quase duas décadas em que torce pelo time, Vinicius destaca a semifinal da Copa Libertadores da América de 1999, como sendo a partida mais emocionante do Palmeiras. “O Palmeiras jogou contra o Corinthians, a partida foi para os pênaltis e o ‘santo’ Marcos pegou o pênalti do Marcelinho Carioca”, salienta eufórico. Na ocasião, com o placar final de 4x2, o Palmeiras se classificou para a final contra o Deportivo Cali, no qual foi Campeão da Libertadores daquele ano. “Jogar contra o Corinthians dá à partida um clima tenso. Mas vencer dele tem sempre um gosto especial”, satiriza o fiel torcedor.
O rapaz sério e um tanto tímido do início da entrevista, deu lugar a um Vinicius desbocado e sorridente, que em poucos minutos teve uma sessão gratuita de nostalgia palmeirense. No entanto, esse sorriso não veio de graça, foram necessários 95 anos de história e uma bagagem repleta de títulos para que ele tomasse o rosto de tantos outros Vinicius espalhados pelo Brasil. “Eu alugaria a minha mãe para assistir uma partida do Palmeiras”, risos.
"A sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi mocidade perdida."
A vida clama pelos versos do Cartola:
Corra e olhe o céu Composição: Cartola / Dalmo Casteli
Linda! Te sinto mais bela E fico na espera Me sinto tão só Mas! O tempo que passa Em dor maior Bem maior...
Linda! No que se apresenta O triste se ausenta Fez-se a alegria Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia Aaai! Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia...
Linda! Te sinto mais bela Te fico na espera Me sinto tão só Mas! O tempo que passa Em dor maior Bem maior...
Linda! No que se apresenta O triste se ausenta Fez-se a alegria Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia Aaai! Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia...
“E eu sei que o amor é uma coisa boa”, já dizia Belchior. Se Elis concordou e cantou essa frase incontáveis vezes, eu que não vou discordar. Apenas lembro que o amor também é uma tragédia. E convenhamos, tragédias amorosas existem a pencas e nos mais variados gêneros. As terminadas em suicídio acontecem desde que Shakespeare deu vida a Romeu e Julieta, lá no século XVI. Ou, desde que incrementaram os juramentos das cerimônias de casamento com a fatídica indagação: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?". Ah ta, você não acredita que esse sermão surreal seja levado a sério? Pois acredite, vou contar duas histórias para você.
Tenho em mãos uma foto de um casal que tirou de letra o juramento-de-pé-de-altar. No retrato em preto e branco, retirado de um jornal, ambos beiram os 40 anos. Ela estampa um sorriso largo. Ele, um riso contido e um olhar sonhador, camuflado atrás de um par de lentes redondas.
O casamento do maestro britânico Edward Downes e da produtora de tevê, Joan, durou 54 anos (voála). Edward com seus 85 anos, nas costas arcadas, não conseguiria viver sem Joan, que, beirando os 74 anos, tinha um câncer terminal no fígado e no pâncreas. Nas mãos ela trazia uma receita com os dizeres: você tem poucas semanas de vida. Após se envenenarem, os dois morreram de mãos dadas.
Agora, imagine passar anos lutando contra uma doença que não é sua? E que tal encontrar inspiração para escrever um livro em homenagem àquela que motivou essa luta? Foi exatamente isso que o escritor austríaco André Gorz fez. Antes de cometer suicídio junto com a esposa, André escreveu "Carta a D. - História de um amor". O livro, como o próprio título sugere, é uma homenagem a Dorine, a companheira com quem André partilhou a vida por quase 60 anos.
Dorine foi vítima de um erro médico que ocasionou uma doença degenerativa. O casal vivia em retiro na tentativa de amenizar os efeitos da doença. O trecho a seguir, muito usado para divulgar o livro na época em que foi publicado no Brasil, salienta bem o amor de André por Dorine, e mostra docemente os traços da doença: "Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e se mantém bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu te amo mais do que nunca".
Até que, em setembro de 2007, o casal foi encontrado morto – ambos “repousavam”, um ao lado do outro.“Nós dissemos com freqüência que, se por um absurdo tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos". E assim foi.
Quando penso nesses dois casais fico oca. Uma brancura infinita toma a minha mente, feito a cegueira leitosa do Saramago. É como se um leque fosse aberto diante de mim, lançando impressões no meu rosto; elas estão na palma da minha mão, mas eu não consigo segura-las, pois elas dançam, se multiplicam feito uma praga e fogem do meu alcance a cada abrir e fechar do leque. A cada uma compete a missão de zombar de mim, ao som de curtas risadas. Opa, delirei.
Delírios a parte, encaremos os fatos: o amor é responsável não por todas as mortes, mas sim pelas mais belas – a morte pode ser bonita. E enquanto houver a morte, haverá o amor, que continuará cometendo constantes homicídios e suicídios. Afinal, quantas vezes você já matou e morreu por amor? Quando se permite amar, todos têm uma alma felina e bem mais que sete vidas. Eis o “amor fati”.
Isso não vai passar, vai ser sempre assim. Sofro de lucidez crônica, por isso navego numa busca constante. Busco pra continuar viva. "Sete horas da manhã, levanta e vai buscar a conquista do dia", é o mantra que recito calada todas as manhãs, exceto aos domingos e nos feriados - domingos e feriados foram feitos para o ócio, e o ócio não merece maquiagem, tampouco buscas incessantes. Buscar o quê? E depois que eu alcançar o que tanto busco? Continuo buscando. Dia desses leram minha mão e, numa quiromancia menos leiga que a minha, disseram num sotaque nordestino, sem nenhuma sutileza: “isso não vai passar, vai ser sempre assim”. Então me aquietei. É, em vez de entrar em desespero, fiquei tranquila. Verdades as vezes vêm com tapas na cara, mas depois trazem um calorzinho digno de dias mornos, mesmo que no céu não haja sol. O sofrimento é opcional. Houve um tempo que essa minha lucidez tinha um caráter paranoico. Essa paranoia brotava sem cerimônia pelos meus poros - principalmente em periodos de mudanças hormonais dignos de todo mês. A paranoia foi embora e deixou a consciência critica. Desde então, não durmo. É uma consciência critica que não me deixa dormir. Explico: Eu, aquela do nome ruim, sofro de lucidez crônica, logo, sofro de insônia. Por favor, não confundam minha lucidez com paranoia.
Sou apaixonada por MPB. Aqui no Brasil tivemos bons intérpretes e bons compositores, principalmente em meados dos anos 60, como pôde ser visto a partir dos Festivais de Música Popular Brasileira. Mas nada como um bom compositor que também é um bom musico; o conjunto da obra. Foi justamente por isso que em 1967, o terceiro festival passou a permitir que os próprios compositores interpretassem as suas músicas – antes disso, os interpretes não podiam cantar composições próprias. Mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – surgiu no Brasil antes dos festivais, pois eles começaram a despontar lá em meados dos anos 50, com a efervescência da Bossa Nova. Mas não vamos entrar numa discussão mais apurada sobre – outro dia sim, hoje não.
Hoje no Brasil tem gente interpretando e compondo MPB ainda (belissimamente, diga-se de passagem), enquanto o samba aparece com pouca representatividade e clama os tempos do Cartola. E tem até gente tentando fazer folk. Rock e afins tem às pencas. Em contra partida, aqui não existem artistas pops ( tem os que acreditam ser, revelados em programas de televisão, e que aprendem a produzir torturas auditivas, mas esses não contam). Tirando raras exceções (como, por exemplo, o Lulu Santos, que se não fosse brasileiro talvez tivesse sido celebridade mundial do gênero), por que é que brasileiro não sabe fazer música REALMENTE pop? Não sei.
Ai ouço Paulinho Moska, e fico na duvida se ele é pop ou MPB. Meu inconsciente diz: ele é foda, então pode ser as duas coisas. E ele é isso: o casamento do pop com a MPB. Lindo.
Acho que pra quem nunca o ouviu antes (e não pensem que ele é guri, pois já tem lá seus 40 anos), deve começar pelo álbum + Novo de Novo (2007). Baixe a parte I aqui ó, e a parte II aqui ó.Depois corra atrás da discografia dele, porque vale a pena.
Repetindo: mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – é de certo modo “raro”. Principalmente depois dos mestres da década de 50 e 60. Dessa “nova geração”, iniciada ali na metade da década de 80, até meados da 90, só me encantei realmente (numa seleção masculina) por Renato Russo, Zeca Baleiro e Paulinho Moska. Agora a trupe ganha mais um integrante, Fernando Anitelli e seu rosto de palhaço.
Durmo e acordo com alguns nomes que se apresentaram naquele agosto de 1969. Seus rostos estão grudados nas paredes do meu quarto, e o tempo todo olham para mim. Janis, neste momento, está gargalhando. Ela nunca deixa de sorrir.
Fiquei me programando para escrever algo bacana hoje, mas vou falhar. Todos aqui sabem o que foi o Woodstock, que foi o maior festival de roque já feito blábláblá, o manifesto de uma geração que precisava fazer barulho, chutar o balde e deixar a sociedade conservadora da época boquiaberta. E que para isso reuniu, entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, centenas e centenas de pessoas em uma fazendola. Lá, essas pessoas fumaram maconha e assistiram aqueles que eram, ou viriam a ser, ícones do rock' n roll. É, Creedence, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joan Baez, Joe Cocker, John Sebastian, Santana, The Band e The Who, foram alguns dos que subiram ao palco. É fato que outros bons também recusaram o convite de se apresentar (Led Zeppelin, Frank Zappa, The Beatles, Joni Mitchel, The Doors, e...), mas não vamos nos delongar aqui.
“Por que outros festivais não alcançaram a grandiosidade do Woodstock em relação a sua importância no cenário mundial?” Hahaha meu filho, você já deveria saber que a história funciona assim: esteja na época certa e aconteça! Mil novecentos e sessenta e nove: o contexto cultural era o mais oportuno (e a intenção era boa). Então o resultado não poderia ser diferente. Me diga uma coisa, com franqueza: seus amiguinhos, é, esses que hoje beiram os 17, 20 anos, que mal conseguem manter uma barba bonita, teriam coragem de saírem na rua para protestarem contra algo? “Que algo?”. Ué, por qualquer coisa que não esteja nos trâmites. Vai dizer que não tem nada errado? Vamos lá, pense um bocado. Tá, vou te dar o clichezão do Brasil: Corrupção. Você e seus amigos já cogitaram a hipótese de organizar algo a fim de protestar contra a corrupção no nosso senado? Não? Ah, por que não? Por que só quem protesta aqui é sem terra? Por que a ditadura de 68 te deixou traumatizado foi? Hum, tadinho. A resposta: somos frutos da geração coca-cola, acuados e omissos.
Voltando a uma frase que citei dois parágrafos a cima: “Todos aqui sabem o que foi o Woodstock...”. Sabem MESMO? A impressão que eu tenho é que tudo é sempre deturpado. Fico pensando se todos aqueles que subiram naquele palco tinham realmente noção do que estava acontecendo ali. E aquelas pessoas que lá estavam? Ou tudo foi somente “mulheres nuas pra cima e pra baixo e gente chapada cantando”? Ou aquela era “a grande chance” de fazer sucesso, e mais nada? (claro). Realmente, não faço apologia a nada, tampouco condeno caso tenha sido assim. O problema é o culto que insistem em fazer em volta de tudo isso. Eu mesma já fiz e já levei puxões de orelha por isso. Acordei.
Eu diria que o Woodstock foi o ápice do que veio sendo feito desde 1967, não tem como negar. A morte do Che Guevara em 67, os movimentos estudantis em 68, a guerra do Vietnã que na época gerava cada vez mais vítimas, e, por fim, o Woodstock – que nada mais é do que uma cria da efervescência de 1968, o grito de misericórdia. De fato, o festival foi um hino, cantado, escarrado por centenas de pessoas. Mas eu me pergunto: o que realmente diziam esses gritos? “Mas ah, foi a ruptura, a conquista feminina”. A ruptura, a conquista, ou a vulgarização da imagem da mulher?Vocês queriam ganhar direitos ou fama de vadias?
Tantos autores afirmam que os manifestos de 1968, e o que aconteceu posteriormente a ele, não resultaram em nada de extraordinário, que as mudanças seriam inevitáveis, que aconteceriam de toda forma – que paz e que amor?. E mais, que as pessoas nem sabiam pelo o que estavam lutando. Dois filmes que retratam o que estou tentado falar são: The Dreamers, datado de 2003 e dirigido por Bernardo Bertolucci; e Across The Universe, musical de 2008, baseado na obra dos Beatles. Nas cenas finais de The Dreamers, jovens vão para a rua protestar sem nem fazerem ideia do que estava acontecendo. No filme Across The Universe, os personagens veem suas ideologias sendo deturpadas e, no final da trama, voltam para suas cidades, sem terem alterado nada. E essa era a realidade. Saiam as ruas, berravam, vandalizavam, a maioria sem causa alguma. Quase tudo o que se prega é fantasia. Quanto a explosão cultural, tenho a impressão que 1968 está aqui, é o hoje, que de fato aquele foi “o ano que não terminou”. É só estudar, ler as coisas certas, ter bom gosto.
Ah.
Mas quem se importa com isso? O que importa se eu vou ouvir várias vezes a mesma música durante a minha vida, e em nenhuma saberei o que de fato ela representa? Né? Né.
Agora chega a parte em que eu tenho que escolher alguém que se apresentou lá e postar um videozinho do ser aqui, né? Né. E quem eu poderia escolher? “Ah, a Janis!”. Não. Meu vislumbre por ela se foi. Gosto é da Joan Baez, pelo papel que ela teve e cultiva até hoje – Dylan dá suspirinhos agora. “Joan Baez, hã, quem?”. Será que por ela não ter se acabado antes dos 30, ela não é tão famosa e venerada como tantos outros? Hum. Prepare-se para assistir algo mais ameno, vamos dizer assim:
O uísque desce pela garganta sem gosto. Suas mãos já não seguram mais o copo com firmeza. Verdade seja dita, Augusto vagou por uma vida inteira e nunca segurou nada com firmeza.
Apertou os lábios flácidos, fechou os olhos. A janela abriu de repente, depois de um longo tempo de escuridão. Os raios do sol invadiram seu corpo tão intensamente, rasgando sua carne, fazendo-a arder em brasa. Por isso suas pálpebras tombaram, enquanto gotejavam maciamente. Lágrimas.
Seus olhos ainda estão selados na tentativa, inútil, de evitar que as lembranças sejam vistas. Mas elas insistem em se despedir. Não que julgue sua vida um martírio, mas Augusto prefere o silêncio das tardes vazias e a ausência de lembranças vagas.
Nos últimos anos, cada vez mais Augusto precisava de menos para viver. Pensava pouco, comia pouco, dormia pouco. Se fosse mais moço, diriam que ele estava apaixonado. Mas não, Augusto não morria por amor; morreria sem a presença dele.
Ela entra no cômodo, não é feia, garanto. Augusto não a vê, mas sente seu perfume adocicado. Ele teme abrir os olhos. Sentada do seu lado, ela apenas espera.
Minutos depois, o copo rolou alguns metros pelo carpê desbotado. Lá fora, um pássaro pousa no galho de uma árvore sem folhas, pesada e envelhecida – como o antigo corpo de Augusto – saudando a aurora de um novo amanhecer de inverno.
Girando a renda – Que belo estranho dia para se ter alegria (2007)
A primeira vez que ouvi Roberta Sá foi na música “Dê um rolê”, do disco “Fatal”, da Gal Costa. “Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida boa”. Fiquei anestesiada, encantada. Teve uma época que era regra para mim ouvir essa música todos os dias (preste atenção na letra dessa música quando puder). A gravação era ao vivo, e não faz parte de nenhum dos seus álbuns. “Eu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés!”. O que me chamou atenção, num primeiro momento, foi a força da sua voz. Me lembrei de Elis.
Tratei de descobrir quem ela era. É fato que quem nasce em 19 de dezembro esbanja talento (hahahahaha). Em suma ela é assim: uma mescla de samba, pagode e MPB. A cantora nascida em Natal e criada no Rio de Janeiro, no seu primeiro álbum propriamente dito “Brasileiro”, datado de 2005, contou com participações de feras como Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marcelo Camelo, entre outros. No ano anterior, Roberta havia gravado um álbum promocional, chamado “Sambas e Bossas”, composto por clássicos da MPB. Ai em 2007, Roberta lançou a sua obra-prima: “Que belo estranho dia para se ter alegria”. Aliás, enfio garganta abaixo esse álbum sempre que posso, quando alguém recorre a mim pedindo alguma música: “pus no seu pendrive uma tal de Roberta Sá, conhece?”. Mas não poderia ser diferente, assim como em Brasileiro, Roberta em Que belo estranho dia para se ter alegria traz lindas composições, inéditas e regravações, de compositores brasileiros da atualidade – parece mentira, mas ainda temos compositores de música popular por aqui, e bons compositores.
Se Tiê é mais “modesta”, diria assim no quesito instrumental, Roberta usa e abusa, encrementando as composições com um bocado de ousadia. Mas não vamos aqui avaliar um folk-brasileiro (??) com MPB e afins. Foi só um parecer, parei.
Ouço Roberta Sá e acredito que é possível sim que novas gerações produzam música de qualidade no Brasil, como as de outrora. Qualidade não só instrumental, mas no conteúdo das composições. Sem ficar pintando o cabelo de loiro e rebolando ao som de um inglês mal pronunciado e músicas sem nexo, sem melodia. De uma coisa tenho certeza, se Policarpo Quaresma vivesse hoje, ouviria Roberta Sá no seu mp4.
Baixe Que belo estranho dia para se ter alegriaaqui ó.
Roberta Sá interpretando “Novo Amor”.
Quando letra e melodia casam, o resultado só pode ser esse. Essa música faz parte do repertório de Que belo estranho dia para se ter alegria, e é uma das que eu mais gosto do disco. Usei sua introdução para um documentário radiofônico. “Só você pra gostar de música de cangaceiro”, me disseram. Hahaha.
E a Paz mundial? Mundial mesmo, só uma virose com nomenclatura oriunda de animais irracionais, que mata, sem cerimônia alguma, inumeros de exemplares do homem "pensante". Este, por sua vez, vai pra cova sem se dar conta que de nada valeu se gabar pelo seu encéfalo ALTAMENTE desenvolvido, e pelos seus úteis polegares.
Minha sombra pelo quarto me fez grande, me vi como um pequeno gigante. Sentei no canto da cama, cruzei as pernas - esmaguei o medo diante delas. Então apreciei de camarote.
Seios nus, mãos entrelaçadas; indícios claros de que o “feito” já estava feito. Cheguei tarde. Mas mesmo com o atraso, encontrei o que me propus a encontrar.
Os dois estavam dormindo. Tolos! Minha revolta se dá devido ao xeque-mate consentido. Inadmissível. A questão é que quando inertes em nossos sonhos, nos envolvemos numa densa vulnerabilidade. Explico: Enquanto dormimos não conseguimos manter a máscara no seu devido lugar. Tampouco esconder a fragilidade contida no interior da carcaça. Fragilidade que quando as pálpebras selam e o sol se põe, sai saltitando âmago a fora, e aflora! Tinhosa, como aquela flor que só floresce no anoitecer, enquanto o repouso pousa nos peitos, nus, dos seus admiradores. Por isso, só os boêmios conseguem mirar sua beleza. E cambaleando encontram repouso no colo de alguém, até morrerem de amor – sem paz alguma.
Fico em pé e com passos curtos tomo postura. Dou as costas e sigo meu caminho com imensa gastura, pois dei as costas para a certeza do querer. “Quero provar esse falso gozo!”. Nem que isso me faça mais uma cega cambaleante, amante, dessas que cessam somente ao repousar no colo de alguém; para então, enfim, morrer de amor.
Mas ainda estou vivíssima e hoje não dormirei sozinha. Hercule Poirot me espera, boa noite.
Há pouco um amigo me mandou “It's All Over Now Baby Blue” na versão do Morrison - coisa que ele já fez ano passado, e agora repetiu, sabe-se lá o porquê. Basta ouví-la para na hora me lembrar do Dylan. Me dê mais uns segundos, então me lembrei de outro presente enviado pelo mesmo amigo : Pete Molinari. Ah, inevitável ouvir esse guri sem associá-lo no ato a Bob Dylan, e até delirar interrogações do tipo: “reencarnação?”.
Pete tem dois álbuns, o primeiro lançado em 2006, chamado "Walking of The Map", foi gravado numa cozinha, com um gravador de dois canais. O último, lançado ano passado, intitulado "A Virtual Landslide", teve estúdio, bandinha e afins. É daqueles álbuns leves, desses em que as músicas soam maciamente até a última faixa. Quando “Lest We Forget” termina, você nem se dá conta de que o álbum chegou ao fim, então dá play na primeira música e deixa “I Came Out Of The Wilderness” amansar o terreno para as próximas canções – de novo, de novo e de novo. Aliás, este álbum é recheado de músicas para mulher. É, tem música para uma tal de Adelaine, Louise, Angeline, e por ai vai. Esse inglesinho que canta folk para americano algum por defeito, mostra para Baby Blue que nem tudo acabou!
Quer ver/ouvir o Pete num vídeo amador, interpretando a chorosinha Sweet Louise? Clicaaqui ó.
Quando Joni Mitchell escreveu “The last time I saw Richard”, deve ter se inspirado em algum amigo ou em algum dos seus romances frustrados. Sim, pois somente quando os personagens são reais é que a história se torna envolvente, instigante. Falar de dores, de gente que sofre, ama (sofre), gente de carne e osso, com tendências a loucura e a suicídio. Voilà! Eis os pesares da vida real, quando tudo é traição. A questão é que Renato Russo era fã da loirinha, e assim como ela cantou os versos de The last time I saw Richard como se fossem tapas na cara, daqueles que se propõe a ouví-los com atenção. Todos aqui somos o Richard. Somos, ou fomos, ou seremos algum dia. “Todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia. Cínicos e bêbados, chateando alguém em algum café escuro”. É verdade Joni, cafeína desce pela garganta, abraça o coração na tentativa, inútil, de arrancar com as unhas o inquilino denominado Amor. “Only a phase, these dark cafe days”. É só uma fase, diz ela. Até que a borboleta sai da crisálida, para em seguida entrar em outra mais escura ainda. O Renato já cantou a mesma coisa em “Metal Contra as Nuvens”, da Legião: “tudo passa, tudo passará”. Aliás, os onze minutos mais bem gastos da minha vida foram aqueles da primeira vez em que ouvi Metal Contra as Nuvens. Mas isso pouco importa. A questão é: quando Joni Mitchell escreveu The last time I saw Richard, cometeu um equívoco: Richard deveria se chamar Renato.
Quer ver/ouvir o Renato interpretando The last time I saw Richard? Clicaaqui ó.
“Todo homem precisa de uma mulher que goste de cozinhar e que acredite em Deus”. A frase tinha gosto de café, e veio no meio de uma divagação freudiana de bons amigos. Ele é músico, vagabundo e maluco. Mora com um gato preto e divide o aluguel com um piano e com um quadro falso da Monalisa, que pagam barato para dormir na sala apertada. Não vamos falar muito dela. Basta apenas, por hora, saber que ela não gosta daquele gato, que além de feio a olha como se fosse devorá-la. “Tenho a impressão de que a qualquer momento o Preto – esse é o nome do gato, bem sugestivo por sinal – vai pular no meu colo e fazer pose para uma foto com a sua mais nova presa nos dentes”, foi o que ela me confessou minutos atrás. Acontece que ele tem um álbum de fotografias só do Preto com as suas presas, é quase um book que ele mostra para as visitas todo orgulhoso dizendo: “toda vez que ele caça, ele volta pra casa fazendo um barulho assim gruuuuuuuuuuuuur”. Do piano ela gosta –principalmente da forma com que ele a desconserta em meio as notas nos seus sutis concertos. Da falsa Monalisa também – embora ele já tenha estado no Louvre e cogitado na sua mente insana a hipótese de roubar a original.Dia desses, no meio de uma bebedeira, ele disse a ela com um sorriso safado: “sua mãe é tão bonita como você?”. Ele nem deve lembrar, só lembra do que está entulhado nos seus armários e nos seus álbuns. Ele faz um bom café e sofre por amar demais, assim como ela. “Um dia tudo isso vai passar”, dizem um ao outro. Eu os ouço, e me assusto por gostar de ouví-los. Fico calada, ainda não despi minhas cicatrizes para eles, mas farei na próxima xícara de café. Eles ainda não sabem, mas ele vai embora para Paris, tocar suas músicas nos metrôs. Ela vai embora para qualquer lugar longe daqui, escrever para ninguém ler. Admito, ele é o tipo de cara por quem ela se apaixonaria caso tivesse o conhecido há uns dois anos atrás. Hoje seria impossível tê-lo de outra forma que não a atual: bons amigos. Ela não gosta de cozinhar, tampouco tem fé em algo que não seja ela mesma. E não gostaria de acordar semi-nua e dar de cara com aquele gato na porta da cozinha, miando bom dia.
“As francesas são as mais fogosas”. Quando ouvi essa frase pela primeira vez, imediatamente vi Edith Piaf, Simone de Beauvoir, Sophie Calle e Margarite Duras dançando diante de mim. Logo, pensei: é verdade. Margarite talvez seja a mais tinhosa das quatro (está ao pé de Simone). A escritora é um dos tesouros que deram por mim ao acaso, que descobri sozinha. Li um dos seus livros sem fazer ideia do que me tomava as mãos. Um dia desses falarei sobre o seu “O Amante” – que poderia ter sido meu – mas hoje não. Hoje, falarei de En rachâchant, um de seus contos que acabou sendo filmado, através das lentes do casal de diretores franceses Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Quem, num primeiro momento, lê a francesinha fogosa, não imagina que ela também se arriscava no cinema, sobre argumentos críticos e densos.
En rachâchant retrata um menino que não quer ir à escola, pois lá ensinam coisas que ele não compreende. Poderia ser algo do cotidiano familiar de qualquer um, meu, seu: em uma conversa com os pais, o menino canta docemente o seu problema. Mas o problema não é discutido longamente. De repente, a cena corta-se para uma sala de aula, onde a família se junta com o professor do menino – figura que a priori parece calma e racional, mas logo se revela ardorosa e passional diante da questão proposta pela criança.
Já me deparei com a mesma crítica feita por Margarite em En rachâchant, no livro de Pierre Bourdieu intitulado “A Reprodução”, e até mesmo vinda nos trechos de “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd – “Hey! Teachers! Leave those kids alone!”. Não é a toa que Danièle Huillet e Jean-Marie Straub escolheram filmar En rachâchant, pois este é daquelas produções incomuns perante aos tradicionais “filmes feitos para qualquer um, jogados em mil telas para pronto consumo”.
Há 50 anos morria aquela que cantava amor e fome como ninguém: Billie Holiday.Graças a uma voz inesquecível – que quando ouvida era capaz de tecer emoções e arrancar lágrimas – a negra que na infância passou fome e foi estuprada, abandonou o nome de batismo “Eleanor Fagan Gough”, para se consagrar como a “Lady Day do Jazz”. Dor e fama, essas duas palavras deveriam ter sido gravadas em seu epitáfio naquele 17 de julho de 1959. Billie Holliday morreu às três horas da manhã, presa a uma cama de hospital – por aparelhos e por algemas – sem poder ouvir música, nem comer chocolate, usar o telefone, e com 750 dólares escondidos na vagina.
Quando ouço Billie Holiday penso que se o jazz tivesse uma cor, essa cor seria negra. Billie era dona de uma voz rouca, desconcertante. Quando cantava, ela escarrava a dor de cada um por meio de suas canções. Essa voz inconfundível moldou a mais comovente cantora de jazz de uma época. Mas sua vida esteve longe de ser qualquer outra coisa se não um amargo mártir, um “fruto estranho”.
Ela era pobre. E pior, era negra. Ser pobre e negra na década de 1920, em uma cidade de ricos-brancos como Baltimore, em Nova Iorque, definitivamente era estar na merda. Ainda mais se você é filha de dois adolescentes: sua mãe é uma humilde faxineira e se seu pai, pseudo-músico-frustrado, esqueceu que a adolescência um dia acaba, e resolveu sair por ai na tentativa de ser um star. E já que você tem uma vida fodida, o jeito é procurar emprego, quando ainda se está na idade de brincar de boneca. Então ela foi babá, garota de recados, faxineira de bordel e afins. E como faxineira de bordel, com 10 anos, ela foi estuprada. Me dê mais quatro anos, e ela havia caído na prostituição.
O encontro com o microfone foi ocasionado pela fome de viver. O fato é que ela e a mãe estavam prestes a serem despejadas. A ainda Eleanor saiu à procura de algum dinheiro, até chegar a uma boate. Ela não queria mais ser faxineira, muito menos prostituta. Dançarina talvez? Em vão, ela era um fiasco dançando! Então, o dono do lugar perguntou, “menina, você sabe cantar?”. A pergunta foi o parto para Billie Holiday, que nascia naquele instante. O ano era 1930, e dali ela passou a cantar em bares e boates, até que começou a excursionar com uma orquestra, e só parou de cantar no ano em que morreu. O resto não caberia aqui(...).
É difícil falar em Billie Holiday. Difícil, ainda, é falar nela sem falar em Lester Young, o saxofonista que foi fundamental para o seu estilo musical e que acompanhou a cantora durante quase toda sua carreira. Curioso ou não, mas Lester morreu em 1959, também às três horas da manhã. Uns dizem que foi naquela madrugada de março, com a morte do amigo, que o fim de Billie a agarrou.
Em canções como a polêmica “Strange Fruit” ela cantou o racismo. Em outras tantas o desamor. Antes de morrer ela já havia chegado ao inferno, guiada pelas bebidas e pelas drogas. Seu fim foi assim: com 44 anos, há 44 dias internada, em meio a uma parafernália de aparelhos, algemada a uma cama de hospital acusada de posse de narcóticos. Billie Holiday morreu sozinha. Minto, haviam dois guardas postados à porta do seu quarto. Num momento póstumo, sua enfermeira encontrou 15 notas de 50 dólares enroladas com fita durex na sua vagina. Se alguma música tivesse embalado o adeus de Billie, deveria ter sido “Non Je Ne Regrette Rien" da Edith Piaf. A francesa com nome de pássaro assim como tantas outras, teve Billie como referencia, bem como, um final ocasionado por ela mesma. Mas as duas continuam voando por ai, e aqui.
Ouça: Lady in Santin (1958)
Tem um samba antigo que diz assim “se eu parar pra cantar tristeza, meu tempo aqui não chega”. Billie foi o avesso. Cantando tristeza, “com uma gota de sangue a cada canção”, ela cantou até o fim. E em Lady In Satin (1958), seu penúltimo disco gravado em estúdio, a tristeza foi cantada nas 11 faixas, com uma maestria digna somente dela, que neste disco esteve acompanhada pela orquestra de Ray Ellis.
O disco é o amontoado de cicatrizes ocasionadas pelo amor, que Billie herdou em vida e pôs diante de ventilador em forma de canções. Quem ai é capaz de apanhar no ar cada uma delas, sem cambalear? Lady in Satin traz a voz de Billie debilitada pela bebida e pelas drogas, mas não menos apaixonante. A cada canção, sua voz soa mil vezes mais rasgante – e a cada faixa vai rasgando o coração daqueles que entram apenas com os tímpanos. Essa é a sensação lançada na primeira música do álbum, “I'm a Fool to Want You” de Frank Sinatra. Sensação que se estende nas demais.
Depois de ouvir Lady in Santin, você percebe que, se de um lado existem aqueles que dizem ter em si “todos os sonhos do mundo”, Billie, aparentemente, carregou todas a dores do mundo nas costas. E o resultado resume-se em uma única palavra: emoção. Quando “I'll Be Around” termina, fica no peito um vazio. Vazio de quem, quando comparada com Billie Holiday, ainda nada viveu.
Billie Holiday interpreta Strange Fruit:
Strange Fruit é datada de 1939, e abalou as pessoas da época. O “fruto estranho das árvores do sul” da música, nada mais é que o corpo de um negro linchado e enforcado. “Sangue nas folhas e sangue nas raízes. Corpos negros balançando na brisa do sul. Frutas estranhas penduradas nos álamos”. A música foi censurada e vetada de tocar nas rádios.
Às vezes, num tropeço, dou por mim com descobertas que fazem com o que o dia valha demasiado a pena. E a descoberta desse pássaro fez com que a calmaria pairasse por muitos dos meus dias. Tiê tem lá seus 27 anos de idade, e canta o amor de forma inteligente. Seu primeiro álbum, chamado “Sweet Jardim”, foi lançado neste ano e a tornou uma revelação no cenário independente da música brasileira. Repleto de composições próprias, o álbum pode ser considerado uma produção folk, onde violão e teclado – de mãos dadas com uma voz doce cantando letras ternas – tomam a frente e dão vida a arranjos e a melodias sutis, que acalmam e acalentam. “Assinado eu” vem fazendo parte dos meus dias. “Passado o passado, acho que eu mesma esqueci o tom”. Como disse um amigo meu, que teve a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, “Tiê é daquelas mulheres que passam e você não tira o olhos dela”. Ouço o “jardim doce” de Tiê e chego a crer que suas histórias são minhas, e penso: “Meu Deus, quanto amor!!!”. Ela é assim, apaixonante. Ouça e tente não se apaixonar por ela.
Quase jornalista, viciada em boa música e poesia. Acredita em duendes e que sabe ler mãos. Prefere arte escarrada do que frustração calada. É louca e demente, mas faz um bom café, dizem.