O cheiro de terra banhada pela fina chuva faz com que os ânimos se acalmem. Os pés dançam uma quase valsa, ao som do pio dos pássaros. Enquanto isso, sem fazer barulho, um sentimento novo começa a migrar, de um peito para o outro.
Sabe sol, enquanto você dormia, aprendi tanto, mas principalmente que há momentos doces na vida em que nos vemos capazes de sobreviver apenas com café, bolachas e amor.
Sol, muito obrigada por me emprestar o seu brilho, mas vê se aparece na próxima!
O menino canhoto anda atendo pela rua dos pássaros. Ele traz nos olhos castanhos um olhar tímido e na mão esquerda uma sacola com algumas maçãs. No seu peito pequeno há um coração que bate forte e cuja fantasia é a inquilina que mais cômodos lá habita.Seu calção azul carrega em um dos bolsos o peso da euforia e da sorte alojada no trevo de quatro folhas, encontrado a pouco entre as roseiras da mãe – ah, e como esse trevo pesa!
Por falar em sua mãe, foi para ela que numa tarde opaca ele compartilhou a singela impressão: estavam os dois no ônibus, lotado, enquanto o menino olhava e apontava com os dedinhos para além da janela. Até que de repente disse: "mãe, olha o castelo!". Só uma criança enxergaria príncipes em uma simples chalé desbotada. Eis o que os olhos da infância te mostram num dia qualquer.
Na infância nada é medido. Por isso a tristeza não tem tamanho, é algo ainda incompreensível. A dor é presente em todos os percalços da vida, mas o sofrimento gratuito e o ressentimento gerados por ela, estes não passeiam pelos jardins da infância. É com o tempo que os pés calejam e o sol, antes morninho, envelhece.
Enquanto estamos aqui andando por ruas imundas fitando as pontas do pés, a cada passo mais distantes da infância e mais próximos da velhice, já nem lembramos mais das doces canções que nos embalavam até o sono. Andamos pelos mesmos feitos, pelos mesmos erros, sob uma ânsia cruel de rumar à acertos incertos. Tudo é pequeno e de valor ileso. Este é o tempo onde se vive tudo; e que a emoção traja a carcaça do nada. As vezes, num passeio pelos traços do tempo, os dias nos trazem algum ensinamento; mas tê-lo é questão de sorte, como quando se é criança e se atemos a um simples trevo.
Somente em dois períodos somos capazes de enxergar realmente, e de ter fé – em Deus e nas pessoas. E em ambos temos “sete palmos” – sete palmos de altura, sete palmos na penumbra! Na infância e na morte. Nesta última, exaustos de tatearmos no escuro, finalmente abrimos os olhos, pousamos os anseios, os medos e a hipocrisia no peito da morte. E o dias dos passeios descalços regressam e então, incumbidos de uma leveza até então concebida somente na infância, podemos novamente, enfim, voar. E lá do alto enxergamos a sorte de um dia termos estado do lado de lá; que hoje, ainda, é cá.
Enquanto isso...
O homem canhoto anda depressa pela rua dos ratos. Ele traz nos olhos castanhos um olhar tristonho e na mão esquerda uma pasta sem nenhum sonho. No seu peito cinzento há um coração que já nem bate direito, e cuja hipocrisia é a inquilina que mais cômodos lá habita.Seu terno azul carrega em um dos bolsos o peso da mentira que está alojada nas folhas murchas da sua consciência – ah, e como essa consciência pesa!
Ah, se minhas pernas não fossem tão fracas, talvez esse martírio já tivesse partido sem que uma lacuna doesse e gritasse em todo anoitecer. Mas para que a sua partida seja consentida, o peso da consciência não poderia me fazer arquejar a cada manhã. Sim, preciso de você para andar, por isso – só por isso – o carrego com meus braços curtos de mulher miúda; em tamanho e em caráter.
A cada passo o cansaço aumenta, meu andar capenga e meu olhar despenca; lendo rimas autorais cada vez mais pobres e mirando os palmos de terra ímpares acima do meu ventre, lançados por mãos que nem saberão meu nome.
Sou ingrata, eu sei. Te desprezo e me condeno por precisar de você para prosseguir a estrada em lentidão complacente. Derramo o desprezo justo em você, que é tão atento, solicito, e que desperta do meu lado a cada nascer do sol – até quando esse não vem.
Oras, vai embora ingratidão petulante!
Encolhida em mim, inicio a minha rendição. Toda a minha sincera gratidão a você, que sem desleixo me ampara feito um par de bengalas desde que fui concebida: o pecado.
Fingir candura é comum a cada passo da vida. Mas ser cândida sem querer ostentação é hipocrisia – tal proeza é digna somente de Cândido e seu otimismo chulo. É preciso saber servir a solidão com doses de sarcasmo e frieza, para assim enganar a morte de cada dia. E dar migalhas de ironia àqueles que têm gula e que vivem sob uma cegueira crônica – sustentados por uma miopia moral.
“A inspiração gira por aí. De repente ela passa perto de você como se fosse uma borboleta: se você pegar pegou, se não ela vai embora”. A frase é do fotógrafo e poeta João Maria Alves de Paula, artista que sempre buscou inspiração na natureza e andou com a câmera fotográfica pendurada pela alça no pescoço, registrando momentos únicos, alegrias e tristezas, por mais de 50 anos.
João de Paula nasceu em 13 de julho de 1935, em Lagoa Vermelha, no interior do Rio Grande do Sul.Em 1954, o jovem com então 19 anos, descobriu a fotografia no exército e lá mesmo começou a tirar e a vender as primeiras imagens capturadas por uma objetiva. Ao sair do quartel, em 1955, João fez um curso por correspondência e aprendeu suas primeiras técnicas fotográficas. Mas aprender a fotografar de forma quase autodidata gerou alguns episódios curiosos: “fotografei um filme inteiro, abri a máquina, tirei o filme e olhei contra a luz para ver como as fotografias haviam ficado... imagine! Claro, queimei o filme inteiro”, risos.
Chegada em Pato Branco
Os livros pelas estantes de sua casa e a máquina de escrever empoeirada dividem espaço com as centenas de fotografias que compõem um cenário nostálgico. Ali, João de Paula digita seus poemas e através de suas fotografias relembra a sua e a história de Pato Branco. Tendo como companheira uma memória que não falha, João lembra com exatidão o dia em que chegou na cidade e as dificuldades dignas de todo início de vida nova: “ cheguei aqui no dia 15 de fevereiro de 1965, e me instalei muito mal. Achava que ao chegar aqui eu já ganharia dinheiro. Que ganhar dinheiro coisa nenhuma! Foi passando o tempo e tive que vender até minha máquina para poder sobreviver”, recorda.
A ajuda veio literalmente do céu! Foi a nevasca que atingiu a cidade de Pato Branco em 1965 a responsável pela ascensão profissional de João de Paula. Na época, ninguém na cidade sabia fotografar neve, inclusive ele. Mas ao ver pela janela o chão tomado pelo tapete branco, João correu para seus livros e encontrou o que precisava: “Li que para fotografar neve o obturador deveria estar regulado na velocidade 250 e o diafragma na abertura 11. Após regular a minha máquina, regulei outra, a de um Frei que era muito meu amigo. Ele ficou desconfiado porque o diafragma estava muito fechado, não entendia que embora o céu estivesse escuro, a neve refletia a luz, por isso, ao deixar o diafragma aberto as fotografias estouravam”, explica. Na ocasião, os únicos na cidade que conseguiram fotografar a neve foram João de Paula e seu amigo. “Eu vendi tanta fotografia naquele dia que sai do anonimato. Até então eu era o João, o João – Ninguém. Depois daquele momento eu fiquei conhecido, ai não me faltou mais trabalho, até agora que resolvi parar de fotografar”.
O cotidiano patobranquense em cada clique
Com a objetiva voltada sempre para os detalhes, João de Paula conseguiu registrar fatos curiosos e históricos de Pato Branco, pois como fotógrafo vivenciou várias faces da profissão, atuando do foto-jornalismo até à fotografia artística.
Uma das fotos mais conhecidas de João de Paula é aquela que registra o momento exato em que um raio atingiu a cruz da torre da Igreja Matriz São Pedro Apóstolo. Toda tempestade que se aproximava, João, que na época morava nas proximidades da Igreja Matriz, colocava sua máquina no tripé e ficava na janela da cozinha esperando o raio. “Quando consegui a foto eu quase caí de costas no chão, foi um susto tremendo. Eu fiquei eufórico para ver o resultado na manhã seguinte, tanto que naquela noite quase não dormi. No outro dia, quando revelaram o filme, eu tive na mão uma fotografia sensacional”.
Para a professora e historiadora Néri França Fornari Bocchesi, a história de Pato Branco foi registrada graças às lentes de João de Paula. “O João é uma figura importante em Pato Branco, porque ele não é um fotografo comum, ele enxerga aquele pormenor que o outro não vê e isso o diferencia dos demais. E, como ele registrou o cotidiano de Pato Branco por 50 anos, consequentemente registrou a nossa história”, frisa Neri.
Quando cliques viram versos
Outra face artística de João de Paula é a poesia. O fotógrafo desenvolveu uma facilidade curiosa em associar poesia com fotografia, pois passou a criar poemas baseados nos cenários de suas fotografias.E foi justamente para o aniversário de 15 anos de Pato Branco que João fez seu primeiro poema para homenagear a cidade.
“Ele é uma pessoa de uma sensibilidade muito grande, porque além de fotografo ele é poeta. Esses são apenas algun, de uma série de dons que ele tem”, ressalta a professora Néri, que foi a responsável pelo ingresso de João na Academia Patobranquense de Letras.
Traços do tempo
“O que é a natureza da gente? O que o mundo e o que o tempo fazem com a gente?”, me pergunta João de Paula. A resposta não veio. Há cerca de quatro anos, João de Paula, aos 75 anos, resolveu se aposentar. Atualmente, vive com sua esposa, seus livros, suas fotografias e com as abelhas que começou a criar no quintal da casa longe do centro da cidade. “A gente fica velho, não suporta mais música alta, agitação, barulho de criança, correria. Então resolvi para Não tenho mais o mesmo pique de outros tempos, como quando eu passava a noite toda acordado em pé numa festa fotografando, por exemplo”, revela.
João, que não se rendeu à fotografia digital, trabalhou sempre com câmeras analógicas, passando, às vezes, horas para revelar uma foto. “Eu me sentia emocionado toda vez que a imagem começava a surgir na minha frente na hora da revelação”, lembra.
Além de diversas premiações nacionais, ele tem fotografias aceitas em exposições internacionais, em países como Chile, Costa Rica, Itália e República Tcheca. E, embora sua trajetória artística seja longa e composta por vários prêmios, João de Paula também já sofreu com a falta de reconhecimento, realidade digna de tantos outros artistas locais. Atualmente, suas exposições, tão raras, dificilmente chamam a atenção da população, que normalmente se volta a outros tipos de lazeres. “A cidade de Pato Branco até agora não valorizou a grande figura humana e a grande figura artística que é o João de Paula”, desabafa Neri.
E o que a fotografia pode representar para um homem que por 50 anos, registrou ângulos da vida real com imagem e poesia? “A fotografia me deu duas coisas: me alimentou o corpo e a alma, ou seja, foi tudo para mim!”. Quando o ponto dessa frase foi desenhado no papel, agradecimentos foram dados, o bloco e a caneta devidamente guardados. Ao me despedir, dei as costas à nostalgia e a um homem grisalho, parado no portão da sua casa, com lágrimas nos olhos.
Olhos expressivos, poses compostas, detalhes visíveis, traços modestos, porém, marcantes. Pode ser um grão de areia ou uma folha seca de outono repousando no chão. Seus improvisos são acompanhados pelo seu incauto e pela sua enorme distração. Mesmo sendo uma incógnita adora achar respostas. Seu fascínio pelo escondido e pelo irreal têm a função de uma ponte. Esta que a conduz para o seu encanto pela aquarela de uma quimera, pincelada por mitos e deuses que a assanhavam quando criança - que volte e meia vêm para um chá. Uma meiguice enjoativa remando na pureza de um rio poluído. Sua existência pode ter sido um pecado prazeroso, sem gozo.
- Eu sei, mamãe. Lutar pela sua eternidade, ou pelo “para sempre” das coisas, é uma guerra que eu nunca quis para mim. Prefiro uma realidade triste, que a tolice de uma esperança falsa.
Você tem a alma de um passarinho e eu falo com gatos. Eu sonho contigo, sonho que acordo do seu lado. No sonho, você me olha com ternura e diz “o que foi?”. Então eu acordo e você não está aqui. Mas você já ouviu essa história, atenta. Esperei uma resposta, mas seus lábios não disseram nada. Você baixou os olhos, ficou olhando para a xícara e depois rio um riso abafado. Queria poder te ver todos os dias, ter coisas interessantes para te dizer. Ao menos eu te faço sorrir. Fico imaginando mil e uma formas de chegar em você, mas me falta coragem.
Queria não ser tão covarde.
II
Se a morada da alma é o peito, então o meu peito tem como inquilina a alma de um pássaro. É, eu tenho no peito a alma de um pássaro e você fala com gatos. Se a alma morar no coração, a minha estará ao relento, pois dúzias de sonhos tomam meu coração por inteiro. Por isso, não queira ficar, guarde esse amor e não prenda a minha alma de passarinho. Eu só quero o seu café. Ouvir suas histórias e reparar no desenho da sua boca. Ficar horas sentada diante de ti, procurando a ilusão que mora no fundo de cada xícara vazia, e nada mais.
A posição de ter que torcer por algum time foi mais uma das quais anulei na infância. Tal opção perdura até hoje e creio que assim continuará - e os motivos não cabem aqui. O Brasil é o país do futebol e dos times idosos: hoje, dia 16 de setembro, o Grêmio faz 106 anos; no dia 12 de outubro, o Coritiba irá comemorar o seu centenário. Vale postar essa matéria que fiz para os 95 anos do Palmeiras, comemorados em agosto desse ano. Aqui ficam os meus parabéns, aos senhores de bengalas.
Posso perder minha mulher minha mãe desde que eu tenha o meu
PALMEIRAS!
Quando Arnaldo Batista, Sérgio Dias e Rita Lee escreveram e musicaram os versos de “Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe, Desde Que Eu Tenha o Meu Rock And Roll”, certamente não imaginaram que a frase viria a calhar no meio de uma entrevista sobre times de futebol e, ainda, que o Rock and Roll em questão daria lugar para o Palmeiras. Tal adaptação pode parecer sandice, ou até mesmo injuria para alguns. Mas assim como existem aqueles apaixonados por música, há aqueles apaixonados por literatura, dança, teatro, cinema e futebol – nada fora do comum, ainda mais quando se vive num país intitulado como sendo “o país do futebol”. É a pluralidade cultural que bate a porta; aceitá-la e convidá-la para entrar é fundamental para viver em harmonia: voála, eis a receita para viver em sociedade.
Por trás dos óculos e do ar sério está um jovem “apaixonado pelo Palmeiras”, como ele próprio se define. Vinicius Augusto Muceno é apenas mais um entre tantos jovens brasileiros que trazem no peito a paixão por algum time de futebol desde a infância. Ele, que tem 24 anos, torce pelo Palmeiras desde 1992: “quando eu tinha sete anos, passei a torcer pelo time ao assistir uma partida contra o Vitória”, conta. Mas foi no ano seguinte que a paixão começou. “Em 1993 o Palmeiras conquistou pela segunda vez o Campeonato Paulista e, também, o Brasileirão, com jogadores como Edmundo, Edílson, Evair, Zinho e Vanderlei Luxemburgo como técnico”, justifica Vinicius, todo orgulhoso.
Por que o Palmeiras?
“A principal característica do Palmeiras é a raça, pois ele é um time que não se entrega fácil”. É por essas e outras que Vinicius escolheu o time paulistano para torcer. E quando indagado sobre o motivo de não optar por um time paranaense, Vinicius tem a resposta na ponta da língua: “na época em que comecei a torcer pelo Palmeiras, ali na década de 90, os times de expressão que existiam no cenário nacional eram os dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo”, explica o torcedor paciente, para a quase-jornalista-totalmente-desentendida-de-futebol.
Nessas quase duas décadas em que torce pelo time, Vinicius destaca a semifinal da Copa Libertadores da América de 1999, como sendo a partida mais emocionante do Palmeiras. “O Palmeiras jogou contra o Corinthians, a partida foi para os pênaltis e o ‘santo’ Marcos pegou o pênalti do Marcelinho Carioca”, salienta eufórico. Na ocasião, com o placar final de 4x2, o Palmeiras se classificou para a final contra o Deportivo Cali, no qual foi Campeão da Libertadores daquele ano. “Jogar contra o Corinthians dá à partida um clima tenso. Mas vencer dele tem sempre um gosto especial”, satiriza o fiel torcedor.
O rapaz sério e um tanto tímido do início da entrevista, deu lugar a um Vinicius desbocado e sorridente, que em poucos minutos teve uma sessão gratuita de nostalgia palmeirense. No entanto, esse sorriso não veio de graça, foram necessários 95 anos de história e uma bagagem repleta de títulos para que ele tomasse o rosto de tantos outros Vinicius espalhados pelo Brasil. “Eu alugaria a minha mãe para assistir uma partida do Palmeiras”, risos.
"A sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi mocidade perdida."
A vida clama pelos versos do Cartola:
Corra e olhe o céu Composição: Cartola / Dalmo Casteli
Linda! Te sinto mais bela E fico na espera Me sinto tão só Mas! O tempo que passa Em dor maior Bem maior...
Linda! No que se apresenta O triste se ausenta Fez-se a alegria Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia Aaai! Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia...
Linda! Te sinto mais bela Te fico na espera Me sinto tão só Mas! O tempo que passa Em dor maior Bem maior...
Linda! No que se apresenta O triste se ausenta Fez-se a alegria Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia Aaai! Corra e olhe o céu Que o sol vem trazer Bom dia...
“E eu sei que o amor é uma coisa boa”, já dizia Belchior. Se Elis concordou e cantou essa frase incontáveis vezes, eu que não vou discordar. Apenas lembro que o amor também é uma tragédia. E convenhamos, tragédias amorosas existem a pencas e nos mais variados gêneros. As terminadas em suicídio acontecem desde que Shakespeare deu vida a Romeu e Julieta, lá no século XVI. Ou, desde que incrementaram os juramentos das cerimônias de casamento com a fatídica indagação: "Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?". Ah ta, você não acredita que esse sermão surreal seja levado a sério? Pois acredite, vou contar duas histórias para você.
Tenho em mãos uma foto de um casal que tirou de letra o juramento-de-pé-de-altar. No retrato em preto e branco, retirado de um jornal, ambos beiram os 40 anos. Ela estampa um sorriso largo. Ele, um riso contido e um olhar sonhador, camuflado atrás de um par de lentes redondas.
O casamento do maestro britânico Edward Downes e da produtora de tevê, Joan, durou 54 anos (voála). Edward com seus 85 anos, nas costas arcadas, não conseguiria viver sem Joan, que, beirando os 74 anos, tinha um câncer terminal no fígado e no pâncreas. Nas mãos ela trazia uma receita com os dizeres: você tem poucas semanas de vida. Após se envenenarem, os dois morreram de mãos dadas.
Agora, imagine passar anos lutando contra uma doença que não é sua? E que tal encontrar inspiração para escrever um livro em homenagem àquela que motivou essa luta? Foi exatamente isso que o escritor austríaco André Gorz fez. Antes de cometer suicídio junto com a esposa, André escreveu "Carta a D. - História de um amor". O livro, como o próprio título sugere, é uma homenagem a Dorine, a companheira com quem André partilhou a vida por quase 60 anos.
Dorine foi vítima de um erro médico que ocasionou uma doença degenerativa. O casal vivia em retiro na tentativa de amenizar os efeitos da doença. O trecho a seguir, muito usado para divulgar o livro na época em que foi publicado no Brasil, salienta bem o amor de André por Dorine, e mostra docemente os traços da doença: "Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e se mantém bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu te amo mais do que nunca".
Até que, em setembro de 2007, o casal foi encontrado morto – ambos “repousavam”, um ao lado do outro.“Nós dissemos com freqüência que, se por um absurdo tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos". E assim foi.
Quando penso nesses dois casais fico oca. Uma brancura infinita toma a minha mente, feito a cegueira leitosa do Saramago. É como se um leque fosse aberto diante de mim, lançando impressões no meu rosto; elas estão na palma da minha mão, mas eu não consigo segura-las, pois elas dançam, se multiplicam feito uma praga e fogem do meu alcance a cada abrir e fechar do leque. A cada uma compete a missão de zombar de mim, ao som de curtas risadas. Opa, delirei.
Delírios a parte, encaremos os fatos: o amor é responsável não por todas as mortes, mas sim pelas mais belas – a morte pode ser bonita. E enquanto houver a morte, haverá o amor, que continuará cometendo constantes homicídios e suicídios. Afinal, quantas vezes você já matou e morreu por amor? Quando se permite amar, todos têm uma alma felina e bem mais que sete vidas. Eis o “amor fati”.
Isso não vai passar, vai ser sempre assim. Sofro de lucidez crônica, por isso navego numa busca constante. Busco pra continuar viva. "Sete horas da manhã, levanta e vai buscar a conquista do dia", é o mantra que recito calada todas as manhãs, exceto aos domingos e nos feriados - domingos e feriados foram feitos para o ócio, e o ócio não merece maquiagem, tampouco buscas incessantes. Buscar o quê? E depois que eu alcançar o que tanto busco? Continuo buscando. Dia desses leram minha mão e, numa quiromancia menos leiga que a minha, disseram num sotaque nordestino, sem nenhuma sutileza: “isso não vai passar, vai ser sempre assim”. Então me aquietei. É, em vez de entrar em desespero, fiquei tranquila. Verdades as vezes vêm com tapas na cara, mas depois trazem um calorzinho digno de dias mornos, mesmo que no céu não haja sol. O sofrimento é opcional. Houve um tempo que essa minha lucidez tinha um caráter paranoico. Essa paranoia brotava sem cerimônia pelos meus poros - principalmente em periodos de mudanças hormonais dignos de todo mês. A paranoia foi embora e deixou a consciência critica. Desde então, não durmo. É uma consciência critica que não me deixa dormir. Explico: Eu, aquela do nome ruim, sofro de lucidez crônica, logo, sofro de insônia. Por favor, não confundam minha lucidez com paranoia.
Sou apaixonada por MPB. Aqui no Brasil tivemos bons intérpretes e bons compositores, principalmente em meados dos anos 60, como pôde ser visto a partir dos Festivais de Música Popular Brasileira. Mas nada como um bom compositor que também é um bom musico; o conjunto da obra. Foi justamente por isso que em 1967, o terceiro festival passou a permitir que os próprios compositores interpretassem as suas músicas – antes disso, os interpretes não podiam cantar composições próprias. Mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – surgiu no Brasil antes dos festivais, pois eles começaram a despontar lá em meados dos anos 50, com a efervescência da Bossa Nova. Mas não vamos entrar numa discussão mais apurada sobre – outro dia sim, hoje não.
Hoje no Brasil tem gente interpretando e compondo MPB ainda (belissimamente, diga-se de passagem), enquanto o samba aparece com pouca representatividade e clama os tempos do Cartola. E tem até gente tentando fazer folk. Rock e afins tem às pencas. Em contra partida, aqui não existem artistas pops ( tem os que acreditam ser, revelados em programas de televisão, e que aprendem a produzir torturas auditivas, mas esses não contam). Tirando raras exceções (como, por exemplo, o Lulu Santos, que se não fosse brasileiro talvez tivesse sido celebridade mundial do gênero), por que é que brasileiro não sabe fazer música REALMENTE pop? Não sei.
Ai ouço Paulinho Moska, e fico na duvida se ele é pop ou MPB. Meu inconsciente diz: ele é foda, então pode ser as duas coisas. E ele é isso: o casamento do pop com a MPB. Lindo.
Acho que pra quem nunca o ouviu antes (e não pensem que ele é guri, pois já tem lá seus 40 anos), deve começar pelo álbum + Novo de Novo (2007). Baixe a parte I aqui ó, e a parte II aqui ó.Depois corra atrás da discografia dele, porque vale a pena.
Repetindo: mas esse “conjunto” tão cobiçado de profissional do ramo da música – esse que toca, compõe e canta – é de certo modo “raro”. Principalmente depois dos mestres da década de 50 e 60. Dessa “nova geração”, iniciada ali na metade da década de 80, até meados da 90, só me encantei realmente (numa seleção masculina) por Renato Russo, Zeca Baleiro e Paulinho Moska. Agora a trupe ganha mais um integrante, Fernando Anitelli e seu rosto de palhaço.
Durmo e acordo com alguns nomes que se apresentaram naquele agosto de 1969. Seus rostos estão grudados nas paredes do meu quarto, e o tempo todo olham para mim. Janis, neste momento, está gargalhando. Ela nunca deixa de sorrir.
Fiquei me programando para escrever algo bacana hoje, mas vou falhar. Todos aqui sabem o que foi o Woodstock, que foi o maior festival de roque já feito blábláblá, o manifesto de uma geração que precisava fazer barulho, chutar o balde e deixar a sociedade conservadora da época boquiaberta. E que para isso reuniu, entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969, centenas e centenas de pessoas em uma fazendola. Lá, essas pessoas fumaram maconha e assistiram aqueles que eram, ou viriam a ser, ícones do rock' n roll. É, Creedence, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joan Baez, Joe Cocker, John Sebastian, Santana, The Band e The Who, foram alguns dos que subiram ao palco. É fato que outros bons também recusaram o convite de se apresentar (Led Zeppelin, Frank Zappa, The Beatles, Joni Mitchel, The Doors, e...), mas não vamos nos delongar aqui.
“Por que outros festivais não alcançaram a grandiosidade do Woodstock em relação a sua importância no cenário mundial?” Hahaha meu filho, você já deveria saber que a história funciona assim: esteja na época certa e aconteça! Mil novecentos e sessenta e nove: o contexto cultural era o mais oportuno (e a intenção era boa). Então o resultado não poderia ser diferente. Me diga uma coisa, com franqueza: seus amiguinhos, é, esses que hoje beiram os 17, 20 anos, que mal conseguem manter uma barba bonita, teriam coragem de saírem na rua para protestarem contra algo? “Que algo?”. Ué, por qualquer coisa que não esteja nos trâmites. Vai dizer que não tem nada errado? Vamos lá, pense um bocado. Tá, vou te dar o clichezão do Brasil: Corrupção. Você e seus amigos já cogitaram a hipótese de organizar algo a fim de protestar contra a corrupção no nosso senado? Não? Ah, por que não? Por que só quem protesta aqui é sem terra? Por que a ditadura de 68 te deixou traumatizado foi? Hum, tadinho. A resposta: somos frutos da geração coca-cola, acuados e omissos.
Voltando a uma frase que citei dois parágrafos a cima: “Todos aqui sabem o que foi o Woodstock...”. Sabem MESMO? A impressão que eu tenho é que tudo é sempre deturpado. Fico pensando se todos aqueles que subiram naquele palco tinham realmente noção do que estava acontecendo ali. E aquelas pessoas que lá estavam? Ou tudo foi somente “mulheres nuas pra cima e pra baixo e gente chapada cantando”? Ou aquela era “a grande chance” de fazer sucesso, e mais nada? (claro). Realmente, não faço apologia a nada, tampouco condeno caso tenha sido assim. O problema é o culto que insistem em fazer em volta de tudo isso. Eu mesma já fiz e já levei puxões de orelha por isso. Acordei.
Eu diria que o Woodstock foi o ápice do que veio sendo feito desde 1967, não tem como negar. A morte do Che Guevara em 67, os movimentos estudantis em 68, a guerra do Vietnã que na época gerava cada vez mais vítimas, e, por fim, o Woodstock – que nada mais é do que uma cria da efervescência de 1968, o grito de misericórdia. De fato, o festival foi um hino, cantado, escarrado por centenas de pessoas. Mas eu me pergunto: o que realmente diziam esses gritos? “Mas ah, foi a ruptura, a conquista feminina”. A ruptura, a conquista, ou a vulgarização da imagem da mulher?Vocês queriam ganhar direitos ou fama de vadias?
Tantos autores afirmam que os manifestos de 1968, e o que aconteceu posteriormente a ele, não resultaram em nada de extraordinário, que as mudanças seriam inevitáveis, que aconteceriam de toda forma – que paz e que amor?. E mais, que as pessoas nem sabiam pelo o que estavam lutando. Dois filmes que retratam o que estou tentado falar são: The Dreamers, datado de 2003 e dirigido por Bernardo Bertolucci; e Across The Universe, musical de 2008, baseado na obra dos Beatles. Nas cenas finais de The Dreamers, jovens vão para a rua protestar sem nem fazerem ideia do que estava acontecendo. No filme Across The Universe, os personagens veem suas ideologias sendo deturpadas e, no final da trama, voltam para suas cidades, sem terem alterado nada. E essa era a realidade. Saiam as ruas, berravam, vandalizavam, a maioria sem causa alguma. Quase tudo o que se prega é fantasia. Quanto a explosão cultural, tenho a impressão que 1968 está aqui, é o hoje, que de fato aquele foi “o ano que não terminou”. É só estudar, ler as coisas certas, ter bom gosto.
Ah.
Mas quem se importa com isso? O que importa se eu vou ouvir várias vezes a mesma música durante a minha vida, e em nenhuma saberei o que de fato ela representa? Né? Né.
Agora chega a parte em que eu tenho que escolher alguém que se apresentou lá e postar um videozinho do ser aqui, né? Né. E quem eu poderia escolher? “Ah, a Janis!”. Não. Meu vislumbre por ela se foi. Gosto é da Joan Baez, pelo papel que ela teve e cultiva até hoje – Dylan dá suspirinhos agora. “Joan Baez, hã, quem?”. Será que por ela não ter se acabado antes dos 30, ela não é tão famosa e venerada como tantos outros? Hum. Prepare-se para assistir algo mais ameno, vamos dizer assim:
O uísque desce pela garganta sem gosto. Suas mãos já não seguram mais o copo com firmeza. Verdade seja dita, Augusto vagou por uma vida inteira e nunca segurou nada com firmeza.
Apertou os lábios flácidos, fechou os olhos. A janela abriu de repente, depois de um longo tempo de escuridão. Os raios do sol invadiram seu corpo tão intensamente, rasgando sua carne, fazendo-a arder em brasa. Por isso suas pálpebras tombaram, enquanto gotejavam maciamente. Lágrimas.
Seus olhos ainda estão selados na tentativa, inútil, de evitar que as lembranças sejam vistas. Mas elas insistem em se despedir. Não que julgue sua vida um martírio, mas Augusto prefere o silêncio das tardes vazias e a ausência de lembranças vagas.
Nos últimos anos, cada vez mais Augusto precisava de menos para viver. Pensava pouco, comia pouco, dormia pouco. Se fosse mais moço, diriam que ele estava apaixonado. Mas não, Augusto não morria por amor; morreria sem a presença dele.
Ela entra no cômodo, não é feia, garanto. Augusto não a vê, mas sente seu perfume adocicado. Ele teme abrir os olhos. Sentada do seu lado, ela apenas espera.
Minutos depois, o copo rolou alguns metros pelo carpê desbotado. Lá fora, um pássaro pousa no galho de uma árvore sem folhas, pesada e envelhecida – como o antigo corpo de Augusto – saudando a aurora de um novo amanhecer de inverno.
Girando a renda – Que belo estranho dia para se ter alegria (2007)
A primeira vez que ouvi Roberta Sá foi na música “Dê um rolê”, do disco “Fatal”, da Gal Costa. “Não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida boa”. Fiquei anestesiada, encantada. Teve uma época que era regra para mim ouvir essa música todos os dias (preste atenção na letra dessa música quando puder). A gravação era ao vivo, e não faz parte de nenhum dos seus álbuns. “Eu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés!”. O que me chamou atenção, num primeiro momento, foi a força da sua voz. Me lembrei de Elis.
Tratei de descobrir quem ela era. É fato que quem nasce em 19 de dezembro esbanja talento (hahahahaha). Em suma ela é assim: uma mescla de samba, pagode e MPB. A cantora nascida em Natal e criada no Rio de Janeiro, no seu primeiro álbum propriamente dito “Brasileiro”, datado de 2005, contou com participações de feras como Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marcelo Camelo, entre outros. No ano anterior, Roberta havia gravado um álbum promocional, chamado “Sambas e Bossas”, composto por clássicos da MPB. Ai em 2007, Roberta lançou a sua obra-prima: “Que belo estranho dia para se ter alegria”. Aliás, enfio garganta abaixo esse álbum sempre que posso, quando alguém recorre a mim pedindo alguma música: “pus no seu pendrive uma tal de Roberta Sá, conhece?”. Mas não poderia ser diferente, assim como em Brasileiro, Roberta em Que belo estranho dia para se ter alegria traz lindas composições, inéditas e regravações, de compositores brasileiros da atualidade – parece mentira, mas ainda temos compositores de música popular por aqui, e bons compositores.
Se Tiê é mais “modesta”, diria assim no quesito instrumental, Roberta usa e abusa, encrementando as composições com um bocado de ousadia. Mas não vamos aqui avaliar um folk-brasileiro (??) com MPB e afins. Foi só um parecer, parei.
Ouço Roberta Sá e acredito que é possível sim que novas gerações produzam música de qualidade no Brasil, como as de outrora. Qualidade não só instrumental, mas no conteúdo das composições. Sem ficar pintando o cabelo de loiro e rebolando ao som de um inglês mal pronunciado e músicas sem nexo, sem melodia. De uma coisa tenho certeza, se Policarpo Quaresma vivesse hoje, ouviria Roberta Sá no seu mp4.
Baixe Que belo estranho dia para se ter alegriaaqui ó.
Roberta Sá interpretando “Novo Amor”.
Quando letra e melodia casam, o resultado só pode ser esse. Essa música faz parte do repertório de Que belo estranho dia para se ter alegria, e é uma das que eu mais gosto do disco. Usei sua introdução para um documentário radiofônico. “Só você pra gostar de música de cangaceiro”, me disseram. Hahaha.
E a Paz mundial? Mundial mesmo, só uma virose com nomenclatura oriunda de animais irracionais, que mata, sem cerimônia alguma, inumeros de exemplares do homem "pensante". Este, por sua vez, vai pra cova sem se dar conta que de nada valeu se gabar pelo seu encéfalo ALTAMENTE desenvolvido, e pelos seus úteis polegares.
Minha sombra pelo quarto me fez grande, me vi como um pequeno gigante. Sentei no canto da cama, cruzei as pernas - esmaguei o medo diante delas. Então apreciei de camarote.
Seios nus, mãos entrelaçadas; indícios claros de que o “feito” já estava feito. Cheguei tarde. Mas mesmo com o atraso, encontrei o que me propus a encontrar.
Os dois estavam dormindo. Tolos! Minha revolta se dá devido ao xeque-mate consentido. Inadmissível. A questão é que quando inertes em nossos sonhos, nos envolvemos numa densa vulnerabilidade. Explico: Enquanto dormimos não conseguimos manter a máscara no seu devido lugar. Tampouco esconder a fragilidade contida no interior da carcaça. Fragilidade que quando as pálpebras selam e o sol se põe, sai saltitando âmago a fora, e aflora! Tinhosa, como aquela flor que só floresce no anoitecer, enquanto o repouso pousa nos peitos, nus, dos seus admiradores. Por isso, só os boêmios conseguem mirar sua beleza. E cambaleando encontram repouso no colo de alguém, até morrerem de amor – sem paz alguma.
Fico em pé e com passos curtos tomo postura. Dou as costas e sigo meu caminho com imensa gastura, pois dei as costas para a certeza do querer. “Quero provar esse falso gozo!”. Nem que isso me faça mais uma cega cambaleante, amante, dessas que cessam somente ao repousar no colo de alguém; para então, enfim, morrer de amor.
Mas ainda estou vivíssima e hoje não dormirei sozinha. Hercule Poirot me espera, boa noite.
Há pouco um amigo me mandou “It's All Over Now Baby Blue” na versão do Morrison - coisa que ele já fez ano passado, e agora repetiu, sabe-se lá o porquê. Basta ouví-la para na hora me lembrar do Dylan. Me dê mais uns segundos, então me lembrei de outro presente enviado pelo mesmo amigo : Pete Molinari. Ah, inevitável ouvir esse guri sem associá-lo no ato a Bob Dylan, e até delirar interrogações do tipo: “reencarnação?”.
Pete tem dois álbuns, o primeiro lançado em 2006, chamado "Walking of The Map", foi gravado numa cozinha, com um gravador de dois canais. O último, lançado ano passado, intitulado "A Virtual Landslide", teve estúdio, bandinha e afins. É daqueles álbuns leves, desses em que as músicas soam maciamente até a última faixa. Quando “Lest We Forget” termina, você nem se dá conta de que o álbum chegou ao fim, então dá play na primeira música e deixa “I Came Out Of The Wilderness” amansar o terreno para as próximas canções – de novo, de novo e de novo. Aliás, este álbum é recheado de músicas para mulher. É, tem música para uma tal de Adelaine, Louise, Angeline, e por ai vai. Esse inglesinho que canta folk para americano algum por defeito, mostra para Baby Blue que nem tudo acabou!
Quer ver/ouvir o Pete num vídeo amador, interpretando a chorosinha Sweet Louise? Clicaaqui ó.
Quando Joni Mitchell escreveu “The last time I saw Richard”, deve ter se inspirado em algum amigo ou em algum dos seus romances frustrados. Sim, pois somente quando os personagens são reais é que a história se torna envolvente, instigante. Falar de dores, de gente que sofre, ama (sofre), gente de carne e osso, com tendências a loucura e a suicídio. Voilà! Eis os pesares da vida real, quando tudo é traição. A questão é que Renato Russo era fã da loirinha, e assim como ela cantou os versos de The last time I saw Richard como se fossem tapas na cara, daqueles que se propõe a ouví-los com atenção. Todos aqui somos o Richard. Somos, ou fomos, ou seremos algum dia. “Todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia. Cínicos e bêbados, chateando alguém em algum café escuro”. É verdade Joni, cafeína desce pela garganta, abraça o coração na tentativa, inútil, de arrancar com as unhas o inquilino denominado Amor. “Only a phase, these dark cafe days”. É só uma fase, diz ela. Até que a borboleta sai da crisálida, para em seguida entrar em outra mais escura ainda. O Renato já cantou a mesma coisa em “Metal Contra as Nuvens”, da Legião: “tudo passa, tudo passará”. Aliás, os onze minutos mais bem gastos da minha vida foram aqueles da primeira vez em que ouvi Metal Contra as Nuvens. Mas isso pouco importa. A questão é: quando Joni Mitchell escreveu The last time I saw Richard, cometeu um equívoco: Richard deveria se chamar Renato.
Quer ver/ouvir o Renato interpretando The last time I saw Richard? Clicaaqui ó.
“Todo homem precisa de uma mulher que goste de cozinhar e que acredite em Deus”. A frase tinha gosto de café, e veio no meio de uma divagação freudiana de bons amigos. Ele é músico, vagabundo e maluco. Mora com um gato preto e divide o aluguel com um piano e com um quadro falso da Monalisa, que pagam barato para dormir na sala apertada. Não vamos falar muito dela. Basta apenas, por hora, saber que ela não gosta daquele gato, que além de feio a olha como se fosse devorá-la. “Tenho a impressão de que a qualquer momento o Preto – esse é o nome do gato, bem sugestivo por sinal – vai pular no meu colo e fazer pose para uma foto com a sua mais nova presa nos dentes”, foi o que ela me confessou minutos atrás. Acontece que ele tem um álbum de fotografias só do Preto com as suas presas, é quase um book que ele mostra para as visitas todo orgulhoso dizendo: “toda vez que ele caça, ele volta pra casa fazendo um barulho assim gruuuuuuuuuuuuur”. Do piano ela gosta –principalmente da forma com que ele a desconserta em meio as notas nos seus sutis concertos. Da falsa Monalisa também – embora ele já tenha estado no Louvre e cogitado na sua mente insana a hipótese de roubar a original.Dia desses, no meio de uma bebedeira, ele disse a ela com um sorriso safado: “sua mãe é tão bonita como você?”. Ele nem deve lembrar, só lembra do que está entulhado nos seus armários e nos seus álbuns. Ele faz um bom café e sofre por amar demais, assim como ela. “Um dia tudo isso vai passar”, dizem um ao outro. Eu os ouço, e me assusto por gostar de ouví-los. Fico calada, ainda não despi minhas cicatrizes para eles, mas farei na próxima xícara de café. Eles ainda não sabem, mas ele vai embora para Paris, tocar suas músicas nos metrôs. Ela vai embora para qualquer lugar longe daqui, escrever para ninguém ler. Admito, ele é o tipo de cara por quem ela se apaixonaria caso tivesse o conhecido há uns dois anos atrás. Hoje seria impossível tê-lo de outra forma que não a atual: bons amigos. Ela não gosta de cozinhar, tampouco tem fé em algo que não seja ela mesma. E não gostaria de acordar semi-nua e dar de cara com aquele gato na porta da cozinha, miando bom dia.
“As francesas são as mais fogosas”. Quando ouvi essa frase pela primeira vez, imediatamente vi Edith Piaf, Simone de Beauvoir, Sophie Calle e Margarite Duras dançando diante de mim. Logo, pensei: é verdade. Margarite talvez seja a mais tinhosa das quatro (está ao pé de Simone). A escritora é um dos tesouros que deram por mim ao acaso, que descobri sozinha. Li um dos seus livros sem fazer ideia do que me tomava as mãos. Um dia desses falarei sobre o seu “O Amante” – que poderia ter sido meu – mas hoje não. Hoje, falarei de En rachâchant, um de seus contos que acabou sendo filmado, através das lentes do casal de diretores franceses Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Quem, num primeiro momento, lê a francesinha fogosa, não imagina que ela também se arriscava no cinema, sobre argumentos críticos e densos.
En rachâchant retrata um menino que não quer ir à escola, pois lá ensinam coisas que ele não compreende. Poderia ser algo do cotidiano familiar de qualquer um, meu, seu: em uma conversa com os pais, o menino canta docemente o seu problema. Mas o problema não é discutido longamente. De repente, a cena corta-se para uma sala de aula, onde a família se junta com o professor do menino – figura que a priori parece calma e racional, mas logo se revela ardorosa e passional diante da questão proposta pela criança.
Já me deparei com a mesma crítica feita por Margarite em En rachâchant, no livro de Pierre Bourdieu intitulado “A Reprodução”, e até mesmo vinda nos trechos de “Another Brick in the Wall”, do Pink Floyd – “Hey! Teachers! Leave those kids alone!”. Não é a toa que Danièle Huillet e Jean-Marie Straub escolheram filmar En rachâchant, pois este é daquelas produções incomuns perante aos tradicionais “filmes feitos para qualquer um, jogados em mil telas para pronto consumo”.
Há 50 anos morria aquela que cantava amor e fome como ninguém: Billie Holiday.Graças a uma voz inesquecível – que quando ouvida era capaz de tecer emoções e arrancar lágrimas – a negra que na infância passou fome e foi estuprada, abandonou o nome de batismo “Eleanor Fagan Gough”, para se consagrar como a “Lady Day do Jazz”. Dor e fama, essas duas palavras deveriam ter sido gravadas em seu epitáfio naquele 17 de julho de 1959. Billie Holliday morreu às três horas da manhã, presa a uma cama de hospital – por aparelhos e por algemas – sem poder ouvir música, nem comer chocolate, usar o telefone, e com 750 dólares escondidos na vagina.
Quando ouço Billie Holiday penso que se o jazz tivesse uma cor, essa cor seria negra. Billie era dona de uma voz rouca, desconcertante. Quando cantava, ela escarrava a dor de cada um por meio de suas canções. Essa voz inconfundível moldou a mais comovente cantora de jazz de uma época. Mas sua vida esteve longe de ser qualquer outra coisa se não um amargo mártir, um “fruto estranho”.
Ela era pobre. E pior, era negra. Ser pobre e negra na década de 1920, em uma cidade de ricos-brancos como Baltimore, em Nova Iorque, definitivamente era estar na merda. Ainda mais se você é filha de dois adolescentes: sua mãe é uma humilde faxineira e se seu pai, pseudo-músico-frustrado, esqueceu que a adolescência um dia acaba, e resolveu sair por ai na tentativa de ser um star. E já que você tem uma vida fodida, o jeito é procurar emprego, quando ainda se está na idade de brincar de boneca. Então ela foi babá, garota de recados, faxineira de bordel e afins. E como faxineira de bordel, com 10 anos, ela foi estuprada. Me dê mais quatro anos, e ela havia caído na prostituição.
O encontro com o microfone foi ocasionado pela fome de viver. O fato é que ela e a mãe estavam prestes a serem despejadas. A ainda Eleanor saiu à procura de algum dinheiro, até chegar a uma boate. Ela não queria mais ser faxineira, muito menos prostituta. Dançarina talvez? Em vão, ela era um fiasco dançando! Então, o dono do lugar perguntou, “menina, você sabe cantar?”. A pergunta foi o parto para Billie Holiday, que nascia naquele instante. O ano era 1930, e dali ela passou a cantar em bares e boates, até que começou a excursionar com uma orquestra, e só parou de cantar no ano em que morreu. O resto não caberia aqui(...).
É difícil falar em Billie Holiday. Difícil, ainda, é falar nela sem falar em Lester Young, o saxofonista que foi fundamental para o seu estilo musical e que acompanhou a cantora durante quase toda sua carreira. Curioso ou não, mas Lester morreu em 1959, também às três horas da manhã. Uns dizem que foi naquela madrugada de março, com a morte do amigo, que o fim de Billie a agarrou.
Em canções como a polêmica “Strange Fruit” ela cantou o racismo. Em outras tantas o desamor. Antes de morrer ela já havia chegado ao inferno, guiada pelas bebidas e pelas drogas. Seu fim foi assim: com 44 anos, há 44 dias internada, em meio a uma parafernália de aparelhos, algemada a uma cama de hospital acusada de posse de narcóticos. Billie Holiday morreu sozinha. Minto, haviam dois guardas postados à porta do seu quarto. Num momento póstumo, sua enfermeira encontrou 15 notas de 50 dólares enroladas com fita durex na sua vagina. Se alguma música tivesse embalado o adeus de Billie, deveria ter sido “Non Je Ne Regrette Rien" da Edith Piaf. A francesa com nome de pássaro assim como tantas outras, teve Billie como referencia, bem como, um final ocasionado por ela mesma. Mas as duas continuam voando por ai, e aqui.
Ouça: Lady in Santin (1958)
Tem um samba antigo que diz assim “se eu parar pra cantar tristeza, meu tempo aqui não chega”. Billie foi o avesso. Cantando tristeza, “com uma gota de sangue a cada canção”, ela cantou até o fim. E em Lady In Satin (1958), seu penúltimo disco gravado em estúdio, a tristeza foi cantada nas 11 faixas, com uma maestria digna somente dela, que neste disco esteve acompanhada pela orquestra de Ray Ellis.
O disco é o amontoado de cicatrizes ocasionadas pelo amor, que Billie herdou em vida e pôs diante de ventilador em forma de canções. Quem ai é capaz de apanhar no ar cada uma delas, sem cambalear? Lady in Satin traz a voz de Billie debilitada pela bebida e pelas drogas, mas não menos apaixonante. A cada canção, sua voz soa mil vezes mais rasgante – e a cada faixa vai rasgando o coração daqueles que entram apenas com os tímpanos. Essa é a sensação lançada na primeira música do álbum, “I'm a Fool to Want You” de Frank Sinatra. Sensação que se estende nas demais.
Depois de ouvir Lady in Santin, você percebe que, se de um lado existem aqueles que dizem ter em si “todos os sonhos do mundo”, Billie, aparentemente, carregou todas a dores do mundo nas costas. E o resultado resume-se em uma única palavra: emoção. Quando “I'll Be Around” termina, fica no peito um vazio. Vazio de quem, quando comparada com Billie Holiday, ainda nada viveu.
Billie Holiday interpreta Strange Fruit:
Strange Fruit é datada de 1939, e abalou as pessoas da época. O “fruto estranho das árvores do sul” da música, nada mais é que o corpo de um negro linchado e enforcado. “Sangue nas folhas e sangue nas raízes. Corpos negros balançando na brisa do sul. Frutas estranhas penduradas nos álamos”. A música foi censurada e vetada de tocar nas rádios.
Às vezes, num tropeço, dou por mim com descobertas que fazem com o que o dia valha demasiado a pena. E a descoberta desse pássaro fez com que a calmaria pairasse por muitos dos meus dias. Tiê tem lá seus 27 anos de idade, e canta o amor de forma inteligente. Seu primeiro álbum, chamado “Sweet Jardim”, foi lançado neste ano e a tornou uma revelação no cenário independente da música brasileira. Repleto de composições próprias, o álbum pode ser considerado uma produção folk, onde violão e teclado – de mãos dadas com uma voz doce cantando letras ternas – tomam a frente e dão vida a arranjos e a melodias sutis, que acalmam e acalentam. “Assinado eu” vem fazendo parte dos meus dias. “Passado o passado, acho que eu mesma esqueci o tom”. Como disse um amigo meu, que teve a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, “Tiê é daquelas mulheres que passam e você não tira o olhos dela”. Ouço o “jardim doce” de Tiê e chego a crer que suas histórias são minhas, e penso: “Meu Deus, quanto amor!!!”. Ela é assim, apaixonante. Ouça e tente não se apaixonar por ela.
Domingo ele lançou sobre mim detalhes do seu dia, das peripécias da sua rotina. Disse docilmente que ficou em casa o dia todo por causa da chuva, se entorpecendo de café. E todos os dias ele faz isso. Ditos que vêm sem que eu solicite. Quer tanto saber de mim. Quero a sua opinião bem sincera. Quero a sua por você o conhecer tão bem. Por já ter estado nos braços dele. E também porque a sua amiga já esteve. E agora, veja só, sou eu quem está. Afinal, sabemos como ele leva a vida intensamente. Por isso, só por isso, não me deixo levar. Tento não me apegar.
Conselho torto
Você está agindo certo. Não por ser ele, mas mesmo se fosse qualquer um e a situação fosse a mesma: é sempre bom ter cautela. Mas cautela não quer dizer "não viva". Eu queria muito te dizer: apaixone-se, permita-se!!! Talvez fosse o mais correto. Mas eu tenho medo, muito medo. Por isso, eu acredito que tu deve se manter assim, pelo menos por hora. Deixa as coisas seguirem o rumo do rio. No final a correnteza se encarrega de guiar os fatos para a costa mais terna. Mesmo que, para isso, seja preciso se debater em rochedos e vitimar algumas feridas.
Eis a viciosa e tortuosa repetição: Doravaaaaaaante Nietzsche!!!
Paulo, o filho mais velho de Ferreira Gullar, é esquizofrênico – doença que o seu irmão mais novo também possuía. Certa vez, ao recém sair de uma crise, resolveu por bem observar o vento. Então disse ao pai que “o vento no rosto é sonho”. Ele perguntou se o pai sabia disso. Provavelmente não sabia, mas aprendeu. Aprendeu e fez um poema desse episódio.
Dias dezessetes me soam graves. Hoje, enquanto andava pela rua vazia, senti um vento cortante no rosto e lembrei dessa frase “ o vento no rosto é sonho”. Eu não sabia disso, mas aprendi. Da mesma forma que, já faz um bom tempo, aprendi o quanto a poesia de Ferreira Gullar é boa, intima. O aprendizado veio de presente, das mãos mais lindas que já vi. O livro veio, por obrigação; depois a desolação.
Eu confesso, nos dias de inverno permito afoita que ele me beije. Ele é insano, me beija e beija a todos. Depois segue sozinho, como eu. Hoje, por um instante, achei que Paulo tivesse razão, “sim, o vento no rosto é sonho!”.
Toda manhã pela rua enquanto eu passo, meço a angustia que repousa leve, no orvalho das folhas verdes e brancas. Piso macio para que ela não desperte e não pouse densa no meu dia. Grito calada: “não sou daqui!!!”. Ninguém ouve. Então sinto o vento, o beijo mais uma vez, e percebo que somente “a loucura deve ser elogiada”. A minha, a sua, a de Paulo, a de Erasmo.
Mas louco é quem me diz que não é feliz.Eu sou! Paulo é! Erasmo era!
É como disseram outrora, que a vida nos seus 20 anos "é uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas sem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço".
O espelho diz que envelheci. Cheguei aos 20 e tudo já havia acontecido. Aos 20, quem tivesse me conhecido três anos antes notaria o quanto eu havia envelhecido. Ganhei uma cor opaca, um olhar tristonho e uma ruga na testa que aqui não estava; daqui não sairá nunca mais. Tenho os pés calejados, a chuva queima e o sol envelhece.
Bem antes dos 20 foi quando comecei a transformar as pessoas em personagens. Cambaleando nas recordações, tecia suas histórias sem desenhar seus rostos. Creio que sem eles, meus personagens, eu não seria a pessoa que sou. Fico me imaginando daqui uns anos, sozinha, sempre carregando nas costas o peso de uma idade a frente daquela que tenho; me vejo e me entristeço.
Então, quando sinto frio os trago para perto de mim. Passo os olhos por eles, acaricio seus rostos, sinto seus gostos. Confesso, às vezes não consigo passar da décima linha. É como se eles nunca tivessem sido pessoas. É como se sempre tivessem sido meros personagens, desses dos livros de outros.
Ainda somos aqueles personagens, vestindo novos trajes a cada linha lida, meu amor.
sábado, 16 de maio de 2009
Meu bem, você deveria saber que o som alto não abafa os gritos. Eles regressam quando o céu veste cinza. Como essa cicatriz rosada, que lateja em dias de chuva, alojada e saliente em minha pele? É. Aliás, acho essa sua cicatriz um charme só. Mas a questão é que você deveria comprar um gravador e largar esse cigarro. Isso de ter que anotar as ideias o tempo todo é ridículo. Isso vai te matar. O alzaimer precoce? O bombardeio de ideias que me assombram e inspiram e depois fogem? Os dois, mas principalmente esse cigarro e a bebida. Não finja se preocupar, vou morrer é de amor, não de cirrose! “Por” não, “de” amor. Morrer por amar demais, em excesso. Por ter tantas paixões, por colecionar dores. Por ser essa explosão de vida e sentimentos que no estio flamejam feito fogo, e que em seguida apagam e não mais acendem. Para com isso, não me venha com divagações baratas! Eu amo sim, por isso escrevo! Você deveria me ler mais, então saberia. Ler as histórias que não vivi, as coisas que não faria, os amores que não matei. Não, obrigado. Não gosto dos seus textos. Nem eu, acho que é essa desorganização toda que ainda não aprendi a controlar. Mas eu gosto de gente doída. Eu também. Você escreve porque tem medo. Com essa facilidade de esquecer e de mentir, escreve pra recordar. Mentir? De poeta e mentiroso, todo mundo há de ter. Se não têm, acreditam ter. E a gente acredita que têm. Exatamente, e ainda aplaude. Viva! Mas sobre você, digo que suas mentiras são somente pra si. Mente que é capaz de esquecer. Não! Sim, e escreve por ter medo de ser esquecida. Você quer é permanecer. Mas eu não lhe condeno pequena, afinal, quem não quer? Eu escrevo pra cessar a dor, e só! Não! Escreve pra não virar somente pó! Chega. Viu! E quanto aos gritos? Não os ouço, os leio. Enfim, eu acho que você tem razão, vou largar esse cigarro, um dia desses entro em combustão antes da hora e não terá ninguém pra guardar minhas cinzas ao pé da cama. Ninguém. Ah, já te contei a minha teoria sobre a invenção do twist? Não! Nem quero saber, por hora nada de dançinhas iê iê iê... Sejamos sutis e vamos brindar nossas insônias. Sutil é esse seu mau humor crônico, não sei porque perco tempo com você. É porque você me ama. Nunca! Enfim, acho que amanhã vai chover. Cicatriz filha da puta.
domingo, 10 de maio de 2009
O quarto é escuro. Nele, há uma mistura de suor e perfume doce no ar.
Ele a olha como se esperasse ver seu rosto. Ela não percebe, tem os olhos fechados. Ela está alerta a tudo o que acontece lá fora, nos diálogos vindos da rua. De repente ele diz: eu te amo. Depois sua respiração fica ofegante. Seu corpo é terno, quente. É tanta, tanta ternura meu Deus! Ela não responde. Poderia dizer que também o ama, ou que não sente nada, mas fica calada. Ele está trêmulo, torcendo para que apenas tenha pensado em dizer, ou que ela não tenha ouvido. Então ela compreendeu. Ele nunca a conheceria. Jamais seria capaz de conhecer tanta perversidade.
A ela compete jamais esquecer as fragrâncias. Dar corda na vida, permitir que seus ponteiros antecedam os segundos que se esvaem. Como um colecionador de perfumes.
domingo, 3 de maio de 2009
Deus! Ainda que eu falasse a falácia dos homens. Ainda assim você não ouviria. Ainda assim você nada diria.
E se eu aprendesse, recitaria em coro, baixinho. Então lavaria minh' alma com sua água santificada. Num gozo oco, como a tua imagem.
domingo, 12 de abril de 2009
Despertei. Vi um par de cegos, vagando no caminho que antecede os passos. Trajes rasgados, pés calejados; cegos prosseguiremos! E não adianta esbravejar, este é o nosso destino prévio. Mesmo assim, ainda é difícil ver seus olhos sem deles necessitar. Ouço você me chamar, mas as palavras ecoam longe, como vindas em outra língua. Como um beijo lançado ao vento, que nunca vem. Com a cabeça encostada no seu peito, descobri que lá um coração ainda bate, forte, intenso. Então entendi. Adormeci.
Ando só. Sempre pelas mesmas ruas, fitando as pontas dos pés. Da janela a vejo acenando pra mim. A vida. E eu apenas a assisto, calada.
O dia nasceu preguiçoso, ou eu acordei como não deveria. O sol teima em não despontar entre as nuvens acinzentadas. De onde vem essa vontade doentia em se acuar, matar e morrer todos os dias? Talvez você pudesse ter me respondido em outro outono.
Já não lembro mais de um gosto que não seja aquele ácido, amante das suas últimas frases. Ora amor, ora ódio, ora desapego. Esse confronto me toma no colo e não me deixa andar. Segura forte, grosseiro, e não permite que eu aborde o estranho na rua e fale: “Vê, ela está acenando pra mim!”.
O som da bola de encontro ao chão empoeirado embala aquele adeus. É a fé que se despede mais uma vez. Antes de assassinarem a sua fé, essa capacidade de satisfação em pequenas coisas ainda era possível. “Como seria bom voltar a ser criança por apenas um dia. Ouvir a voz do pai mais uma vez, sentir sua mão forte, ver o sorriso da mãe, falar com as plantas. Perder todo esse peso alojado nas costas, e assim não mais arquejar no meio de uma canção,” pensou.
Mas a lucidez bate a porta...
Não pode perder o rumo, a carona, o viço. Ficar a mercê de fantasmas e de pernas que não são as suas, também não. E enquanto espera que ela se dissipe diante da janela, sonha e anda; calada e só.
Lavei meu rosto, uma, duas, três, já não sei quantas foram as vezes. Em vão. A máscara continua aqui. Seu peso impede que eu durma em paz. Minto! Eu durmo em paz, mas é a paz de quem sabe mentir.
O azul na base da chama o encanta! É um encantamento que lhe toma por inteiro, intensamente. Não tem nome, mas tem cor; é azul.
Então, com uma leitura ofegante em voz alta, sob a luz flamejante da vela dá por si com os traços do terno rosto alheio; sorrindo nos versos que acaba de recitar.
Céus, como ele deseja essa chama, sua brasa. Repete:
Me abrase.
Me perturbe.
Me abrace.
Como a voz póstuma escarrou em uma canção, “amar é atirar em quem te desarma”. E como o poeta disse outrora, “é ser fiel com quem te mata!”. E agora ele está aí, desarmado e fiel; em decomposição. Como aquela chuva que molha, mas na pele não é sentida. Como aquela música que nunca mais foi ouvida. Tudo não passa de dor consentida. Até que a vela apaga e o azul se dissipa; vira fumaça.
É como o vício que caminha do teu lado em um gingado lento, e você não vê. Afaga, beija, desarma. Feito um velho acuado, pele flácida, mãos encolhidas no par de bolsos do terno amassado; traz no fundo do peito somente carne crua e sabedoria.
Certa vez escrevi sobre um homem que andava por aí com os pés descalços, e que debochava das solas alheias, enclausuradas em veludo barato. Segundo ele, a estrada leva todos para o mesmo fim, sem distinguir o traje dos pés.
Hoje vou escrever sobre aquele velho ali, com as mãos nos bolsos e que não sabe ler. Não lê os sorrisos alheios para não ter que os retribuir. Foge dos rostos, dos cumprimentos; vive desatento perdendo pessoas por não atravessar a rua. Não foi treinado, por isso não sabe imitar o sorriso amarelo na sua frente, muito menos gesticular os lábios murchos e soltar, entre os poucos dentes que ainda possui, o som da hipocrisia.
É esse vício que anda do teu lado, lhe aperta forte o ombro e o faz parar; te afaga, te beija, te desarma e o principal, te salva.
Amanhã escreverei sobre o homem que não sabe ouvir. Outro sortudo! Mas adianto que sobre cegos e surdos, eu prefiro os descalços.