terça-feira, 21 de junho de 2016

Cinco minutos na timeline


A liquidez de Bauman me mostra uma mãe pintando o rosto com o sangue do filho em uma favela do Rio de Janeiro. Também me apresenta um massacre contra índios no Mato Grosso do Sul. Aí eu lembro que os índices de suicídio entre jovens indígenas são consideravelmente altos. Ninguém se comove, afinal, "eles não fazem parte da nossa sociedade". Assim como a mãe negra que vive na favela. Mais uma. E aquela mãe indígena que teve o filho assassinado em Santa Catarina enquanto o amamentava, alguém se lembra? É, mais uma.
Clamar por igualdade de direitos quando milhares vivem em condições tão desiguais, é o mesmo que lutar contra moinhos de vento. Igualdade de quê? A igualdade que eu julgo ideal não condiz com a realidade do outro. Enquanto isso, continuamos julgando o desconhecido sem considerar as reais condições que ele dispõe. Clamar por uma igualdade isolada, é egoísmo.
Uma minoria emudece a maioria, sabia? A história entristece, mas cabe bem para você que se diz contra cotas, contra o feminismo, que agride homossexuais, que julga o governo por oferecer subsídios. Enfim, um pouco mais de leitura cairia bem para você que se diz "senhor da meritocracia". Apesar de você, como diz meu amigo Chico, eu ainda acredito que esse ciclo de cruéis repetições um dia será finito, que Parmênides estava errado e que a lei do eterno retorno tem um limite. O leve é positivo, o pesado é negativo. Precisamos dos dois para viver em harmonia. Ocorre que, historicamente, o segundo tende a prevalecer.
Hoje, por exemplo, não há leveza. Nesses últimos cinco minutos, eu também vi um jovem se jogando na Garganta do Diabo, deixando para trás apenas uma mochila e um bilhete para o pai. Alguém filmou, o vídeo viralizou. Muitos suicídios ocorrem em lugares assim, isso não é recente. A diferença é que, hoje, a morte alheia virou atração. É, somos atrações de um circo de horrores. Milhares têm acesso, ficam sabendo, mas quem realmente se comove?
A memória é efêmera se não interfere no meu comodismo. O que a torna efêmera? A indiferença; não com o hoje, mas diante da história. Apenas os que se permitem a reconhecer os traços do passado no presente é que se comovem com a ausência de liberdade e injustiças que, sim, assolam milhares e milhares todos os dias.
O que têm em comum o jovem suicida e a mãe que me fez começar a escrever a primeira linha? Ambos são vítimas de uma desigualdade histórica, que assassina filhos, que lança esperanças para o vazio.
Em menos de 5 minutos, eu senti a tristeza de uma mãe, a injustiça de um massacre e a desesperança de um jovem. Hoje, vou dormir com esses desconhecidos. 

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