domingo, 17 de janeiro de 2010

Autre chance

A ideia de ganhar uma herança encheu suas últimas semanas com uma expectativa que há tempos não lhe visitava. Da bisavó Camille ela sabe pouco, pois esta morreu antes que a bisneta que ganharia seu nome nascesse. Mas há três semanas chegou a notícia que uma herança havia surgido. E agora ela está ali, com um livro consideravelmente pesado sobre seus braços curtos, andando apressada pela rua movimentada, enfiando o salto do Chanel vermelho nas frestas da calçada.

Muitos podem a imaginar com uma cara de decepção por ganhar um diário velho – que aumentaria ainda mais as pilhas de papeis e livros que ela, enquanto jornalista, insiste em cultivar – mas não, ela estava empolgada para ler o que a esperava naquelas páginas desbotadas, encadernadas por uma capa de couro marrom.

Finalmente chegou em casa, disse “oi” ao gato, pôs as pantufas e passou um café. Por fim, sentou confortavelmente na cama e deixou que seus dedos abrissem a página marcada por uma fotografia preto e branco, opaca, que possuia a imagem de uma jovem e um rapaz, sentados numa rocha. A jovem tinha os seus cabelos e os seus olhos; era a sua bisavó.

A folha trazia algo que parecia ser uma carta, trajada por letras largas, que narravam o seguinte:



Ela sempre gostou do frio. Sente um arrepio nas costas que há tempos não sentia. Pelo menos não pelo toque sutil do vento. Já tinha esquecido quão embaraçosa era essa sensação. Embora sempre tenha a agradado, houve uma época em que lamentava senti-la. Agora, enquanto corre os olhos atrás do pássaro que de longe a mira, a sente. Por mais que esteja protegida por um emaranhado de panos, aquela sensação de êxtase é envolvida pela sombra da ausência.

A tarde é daquelas que não querem se pôr. Como a do seu aniversário de 24 anos, em que ganhou aquela velha cabana a beira mar. Foi todo o caminho com uma venda nos olhos, ouvindo Vinicius de Moraes. Imaginou todos os presentes cabíveis nos seus sonhos, mas ter a cabana que sempre sonharam, era realmente sonhar demais.

Nunca foi de sonhar. Até quando dorme dificilmente lembra o sonho que teve durante a noite anterior. Essa sua atração pelo frio possivelmente seja pelo fato de ser uma pessoa extremamente gélida. Porém, diante dele mudava. Nunca entendeu o porquê disso. Nunca entendeu o que ele causava nela. Um simples toque da ponta dos seus dedos, como se sua perna fosse o teclado de um piano, bastava para que ela se perdesse nele.

Ao conhecê-lo passou a sonhar. Mas não um sonho individual, eram sonhos recíprocos. E como eles sonharam com aquela cabana na costa sul. A construção era antiga. A mobília resumia-se a uma cama, uma lareira e a pilhas de livros e vinis espalhados pelo chão. Longos foram os dias e tardes sem fim que passaram naquele lugar. Intermináveis foram a caricias trocadas, os poemas escritos e os sonos compartilhados que lá tiveram.

Despertar pela manhã é a hora mais importante do dia. Abrir os olhos, olhar em volta e perceber que tudo está no lugar, como na noite anterior. O despertar na manhã de hoje veio de mãos dadas com uma enorme lacuna. Foi a primeira vez nos últimos anos em que ela acordou sem tê-lo no lado esquerdo da cama. Foi a primeira vez nos últimos anos que não dormiu acolhida pelo seu peito. Essa é a primeira vez que ela vai sozinha até a cabana.

Tantas foram as vezes que conversaram sobre a morte, ou que ele tentou conversar sobre ela. Em todas ele não hesitava, dizia não temê-la, pois, segundo ele, a mesma era a única certeza que tinha diante das incertezas que povoavam suas vidas. Enquanto ele perguntava o porquê do seu receio em morrer, ela nunca olhou nos seus olhos e disse que o seu medo não era de morrer, e sim temia perdê-lo, como perdeu tantas pessoas. Temia voltar a sentir frio.

Agora ela está lá, sentada em uma grande pedra, observando o chocar das ondas nas rochas que circulam a pequena ilha. O vento cortante insiste em lhe embaraçar os cabelos. Ri, ao lembrar das vezes em que ouviu: “você fica linda descabelada!” No meio de tantas lembranças, encontrou a pouco uma carta que um dia ele a escreveu, e enquanto tenta lê-la com dificuldade – pois as lágrimas que insistem em cair, lhe embaçam a visão e dificultam a leitura – sente o seu cheiro.

Das vezes em que tiveram que ficar longe um do outro, ela fechava os olhos e conseguia sentir seu cheiro, e imediatamente o sentia perto. E agora o faz. E o sente.

Quando ele a tornava um instrumento qualquer, tirando da sua pele infinitas notas musicais que somente os dois conseguiam ouvir, ela sentia um gostoso arrepio. E é esse mesmo arrepio inquietante que a tomou há alguns instantes. De olhos fechados tenta acreditar que o que lhe toca, e causa o tal arrepio, são os seus suaves dedos, e não o vento daquela fria tarde de outono.

O frio, há tempos não o sentia. Longos foram os anos que ela o sentiu constantemente. Breves foram os anos em que ela deixou de senti-lo. E agora ela o sente novamente, e o sentirá para sempre. Exceto quando fechar os olhos e sentir o toque e o cheiro dele.

Seus olhos ainda estão fechados. E ela ficará ali por horas, até que o sol se ponha. Porque ela sempre gostou do frio.



Fechou o diário, tomou um gole do café já morno e pensou: “é, eu já vi essa história antes... mas quem disse que dessa vez eu não posso mudar o final e torná-lo beeeeem ensolarado?".

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Down in a Hole

Os grungeiros do Alice in Chains talvez nunca foram tão leves como em “Down in a Hole” música que faz parte do álbum Dirt, de 1992. A “leveza” é na melodia, não na letra, pois Down in Hole é mais um dos hinos depressivos da banda.



A leveza de Down in a Hole foi tanta, que a música foi regravada por Ryan Adams, e fez parte do EP Follow The Lights, de 2007 – é, até “dentro de um buraco” o discípulo de Jeff Buckley fica uma graça! haha



É, fica a questão: qual das duas versões é a melhor?

domingo, 10 de janeiro de 2010

A ternura no lugar do amor

Ao ler “A Confissão de Lúcio”, de Mário de Sá-Carneiro, marquei o trecho em que Ricardo revela à Lúcio a sua incapacidade de amar, pois, no lugar do amor, consegue sentir somente ternura. Tenho pena de Ricardo. Assim como tenho certeza, também, que muitos se identificarão com a mente perturbada do personagem; e do autor, que, diga-se de passagem, era obcecado pela loucura. Aliás, se serve como dica, ai vai: quem tem propensão à loucura, não deve ler esse romance/conto. Aos “lúcidos” fica a recomendação: a leitura desse livro vale muito a pena, principalmente para os apreciadores da literatura portuguesa, tão acostumados a ler Mário de Sá-Carneiro somente em versos.



“E é pela agitação desta cidade imensa, por esta vida atual, cotidiana, que eu amo o meu Paris numa ternura loura. Sim! Sim! Digo bem, numa ternura – uma ternura ilimitada. Eu não sei ter afetos. Os meus amores foram sempre ternuras... Nunca poderia amar uma mulher pela alma – isto é: por ela própria. Só a adoraria pelos enternecimentos que a sua gentileza me despertasse: pelos seus dedos trigueiros a apertarem os meus numa tarde de sol, pelo timbre sutil da sua voz, pelos seus rubores – e as suas gargalhadas... as suas correrias...


“Para mim, o que pode haver de sensível no amor é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de cetim que mãos esguias enastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em lábios de ouro e de vinte anos, a flor que a boca de uma mulher trincou...


“Não, nem é sequer a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga – imponderável, translúcida: a gentileza. Ai, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo – a gentileza... daí, uma ânsia estonteada, uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, aromas e cores!...



(Mário de Sá-Carneiro, 1913, Lisboa)



quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A longa e sinuosa estrada

"The long and winding road
That leads to your door
Will never disappear
I've seen that road before
It always leads me here
Lead me to your door"


The Long And Winding Road para mim é uma das mais belas canções dos Beatles. A música faz parte do último álbum lançado pelo quarteto, Let It Be, datado de 1970, e foi composta por Paul McCartney, que não gostou da versão final da música, sugerindo modificações que foram recusadas - há quem diga que o fato das suas sugestões terem sido negadas, não somente em relação a The Long And Winding Road, mas, também, quanto ao restante de Let It Be, contribuiu para o fim da banda.


The Long And Winding Road, 1970


E a resposta veio em 2003, quando Paul lançou o álbum “Let It Be...Naked”, e, entre as demais modificações no álbum de 1970, fez uma nova versão de The Long And Winding Road, que ganhou um traje mais “cru”, por assim dizer.


The Long And Winding Road, 2007



Embora Let It Be tenha sido produzido num ambiente pouco harmonioso, pois na época a banda estava em “crise”, nele os quatro cavaleiros se mostram mais maduros musicalmente – processo iniciado com Rubber Soul, em 1965 –, cada vez mais distantes daquele iê-iê-iê pedante do início dos anos 60. Vale frisar que, embora lançado por último, Let It Be foi produzido antes de Abbey Road, lançado em 1969.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Um quase incesto

Não sei porque tirei o telefone do gancho, há essa hora você está no trabalho. E quando você dissesse “alô”, o que viria depois? Talvez eu gaguejasse. Ou, talvez eu desligasse. É, talvez. Não sei explicar o que senti quando me contaram. Nada de lágrimas, você sabe que sou sutil. Na verdade, foi uma mescla de sensações. Todo mundo sabia, menos eu? Na hora meu coração acelerou, agora tá normal. Opa, acelerou de novo.


E agora? Nunca mais vou chegar em casa e me deparar com a tua cara fechada. E pior, nunca mais vamos dormir juntos, nós três: eu, você e a sua camisa velha do Ozzy. Aliás, você sorri enquanto dorme, sabia? E baba também. Ah meu Deus, por que eu não me joguei pra cima de você numa daquelas noites? Porque somos primos. Por que somos primos?


Juro, parte de mim quer olhar no espelho, dar um sorriso enferrujado e recitar: “que bom assim né”. Sorrir, sorrir e sorrir. É o que terei que fazer a partir de agora. Mas a outra parte não consegue. “Mentira, você sabe muito bem fingir!” – sussurra a sábia voz da insanidade, que não tem dono. É, fazer três meses de teatro quando criança foi de grande valia, me fez a rainha da ironia. Vou conseguir por inteira.


E se eu te chamasse para um café com bolo de cenoura? Poisé, peguei a receita na internet e deu certo, mas você não soube disso, né? Soube sim, eu te contei. Você disse que ia vir experimentar, mas não veio – que bolo. Com certeza você não lembra.


Sabe, antes de cobiçar você, eu cobiço coisas mais importantes que ainda me faltam. Agora, por exemplo, preciso de uma nova receita de bolo – não dos seus bolos. Preciso também de mais açúcar nesse café. Quem precisa de você, do seu mau humor, do seu autismo não acusado e da sua camiseta velha do Ozzy?


E enquanto eu e minha incompetência amorosa nem ficantes fixos arrumamos, você casa. HAHAHA alguém em algum lugar gargalha! Mas pensando bem, alguém nessa família tem que casar, copular, procriar, enfim, se render ao sistema. Você vai ficar chato, vai usar calças beges e camisetas de botão para trabalhar. Nos fins de semana usará pólos para ir à esquina comprar pão. Em casa vai usar um calção xadrez, que com o tempo vai furar e você nem vai perceber, vai continuar usando, até o calção virar pijama, como a gasta camisa do Ozzy. Você vai levar seus filhos nos almoços de família e pedir para que eu os segure. “Vai com a prima, vai”. Lindo. Só não se espante quando eles escorregarem do meu colo sem querer. “Opa, caiu o neném”. Confortante é o fato de que você vai engordar, ganhar saliências abdominais de homem casado, desses que passam o domingo vendo futebol. Ai um dia teu pinto não vai mais funcionar, e a graça do seu casamento deixará de existir.


E quanto a mim? Ah, eu vou conhecer o cara da minha vida; algumas tantas vezes ainda.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vacilante

“Eu não deveria ter vacilado por tanto tempo com a vida”. É o que pensa enquanto o carro gira na pista, prestes a beijar o eixo dianteiro de um caminhão amarelo; um beijo mortal. Tudo gira, então ela pensa nos filhos, no marido, na mãe: “eles têm que se conformar, afinal, a vida é feita de perdas”. A colisão acontece. Barulho forte. Escuro. Fora do carro, ela sente uma dor terrível pelo corpo: “e eu que achava que a dor do parto só perdia para a que se sente durante a ânsia de romper o hímen”. Agora, sua vida é uma vela cuja chama flameja fracamente.


Chove. Do céu caem finos pingos de chuva que molham seu rosto, e que disputam espaço com o sangue carmim que desenha em sua face algo abstrato. Ela afasta os lábios com dificuldade, e permite que algumas gotas entrem pela sua boca que precisa sentir aquele gosto. “Por que foi mesmo que eu perdi o hábito de tomar banho de chuva?”, pergunta às suas recordações, enquanto se banha no centro do círculo formado por dezenas de curiosos que se aproximam. Nesse instante, ela ouve duas senhoras alarmarem: "Jesus! Olhem o rosto dela!!!".


Ela está ali, no meio da rua, esperando, esperando: “cadê a tal luz no fim do túnel?”, questiona. Ela não sabe, mas o que ela está esperando é que a vela se apague. Mas ela só precisa esperar mais uns três minutos, no máximo, pois embora a chama ainda emita calor, sua calidez está indo embora... 3, 2, 1... até que some. A falta de fé em si mesma foi o sopro de vento que apagou a vela.

Luiza acorda. Olha para o teto, para o marido, para o teto de novo. Ao olhar pela janela, para o céu, seus olhos congelam naquela direção. Sorri.

Sai da cama, pois às nove horas tem salão marcado. Está decidida: cortará os cabelos, bem curtos! “Então dirão: que lábios bem delineados, que olhar bonito ela tem!”.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Um hino ao pássaro

Esse “pardal” certamente foi o dono do canto mais lindo da França. Quando me apresentaram Edith Piaf, meus ouvidos não faziam ideia da grandiosidade musical que estavam ouvindo. Hoje, me arrepio toda vez que a ouço: a menina que passou parte da infância cega, que cresceu num prostíbulo, e que se tornou uma das mais importantes vozes francesas; emocionando multidões, arrancando com suas músicas lágrimas daqueles que jamais choram e, principalmente, embalando amores até os dias de hoje.


Ela, assim como tantas mulheres, pecou por amar demais – entendam esse “demais” não como “quantidade”, mas sim como “intensidade”. Por isso, a presença de temas amorosos é frequente na maioria das suas canções, que abordam o amor em suas diversas nuances. Aqui no Brasil, o estilo musical de Dalva de Oliveira e Maysa Matarazzo se assemelham muito ao da francesa – Dalva me lembra Edith tanto no vocal como na aparência física.


E como não poderia ser diferente, o primeiro sucesso de Edith, datado de 1946, foi a belíssima La Vie en Rose, que fala justamente sobre o que escrevi na postagem anterior desse blog: o poder de renovação do amor, capaz de tornar a vida cor-de-rosa.


La Vie en rose


Quem não conhece Edith certamente já ouviu o seu “hino ao amor”, que ganhou interpretações da brasileira Maysa Matarazzo – que sempre declarou ser fã da francesa. Mas talvez o que você não saiba é que Hymne à l'amour foi escrita em 1949, após a morte de Marcel, o grande amor de Edith – aliás, o título da música foi destinado ao filme de cunho biográfico, lançado em 2007, intitulado como “Piaf - Um Hino ao Amor”.Voltando a Marcel: o boxeador representou para Edith duas faces da sua vida: o renascimento e a morte. E o sofrimento de Edith pode ser compreendido em cada verso da música, que para mim é a mais triste da cantora.


Hymne à l'amour


O último grande sucesso de Edith falava de perseverança e, principalmente, representou em sua vida o recomeço. Non, je ne regrette rien, foi lançada em 1960, três anos antes da morte de Edith, que na época estava doente, muito debilitada pelo uso excessivo de álcool, mas principalmente pela dependência de morfina (creio que ela tinha câncer, mas não tenho certeza). Todos achavam que ela não cantaria mais, mas Edith reapareceu, doente, fraca, mas com força suficiente para gritar a todos os seguintes versos: “Non... rien de rien... Non... je ne regrette rien! Ni le bien qu'on ma fait, ni le mal - tout ça m'est bien égal!”


Non, je ne regrette rien


Quer saber mais sobre ela? Ah, basta saber que ela nasceu no dia 19 de dezembro, e, como eu não me canso de dizer, somente divas nascem nesta data!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

En primavera

“Y se llevó la primavera al cielo”.

Pablo Neruda


Há alguns anos passei a almejar, sem buscar, um verso simples e verdadeiro que resumisse o poder de renovação do amor. Dentro do meu vazio estava o conhecimento da existência deste poder, mas meus lábios haviam provado somente ensaios do seu gosto adocicado. Depois de alguns sóis, só, primeiramente descobri a estação do amor: a primavera. É, se o amor tivesse uma estação seria a primavera, pois nela tudo o que parece ter morrido outrora, nasce novamente, forte, intenso. E, principalmente, o que nunca brotou desperta pela primeira vez. Até a fé é capaz de renascer pelo amor. Quanto ao verso simples trajado de verdade? Este vem macio, ao som de uma gaita de boca, e pode ser lido nos meus olhos; na luz do sol que pinta com um sorriso cada amanhecer. E o sol, este sempre vem sagaz, e como o amor queima, inquieta e abrasa; mesmo que este tenha acabado de nascer e seus raios ainda sejam tímidos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A marcha

Para Talita Kroetz


Muda voz do mundo oco e surdo que não ouve o som dos passos vagarosos, ecoado pelas pessoas que marcham nas ruas; em fila, clamando caladas por nula lição.


Apenas nós ouvimos. Eu sei que você, assim como eu, escreve em linhas incertas impulsionada pela certeza do saber. E em cada letra torna busca achar respostas; e desenha no papel um sorriso desbotado para digerir tanta hipocrisia.


Que astúcia do tempo é essa, que faz da ingenuidade cria sedenta da burrice? Quem é o maestro que ensaiou tão bravamente o coro das frases feitas? Quem pintou o mundo com uma cor assim tão triste?


A verdade, minúscula e insignificante, como um grão de poeira perante o interesse coletivo, quando cai em nossos olhos arranha, provoca incomodo, e nos faz cambalear diante dos fatos. Mas, por quê? É desse incomodo que provém o desfile de homens e mulheres; que lá fora seguem em passos lentos, vendados, em uma marcha sem fim.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Hoje é 25

Trajo luto, mas isso não impede que eu transforme a janela simples em luxuoso camarote, e de lá ouça doces melodias cantadas por pássaros sem cor, que nesta manhã de natal dividem a rua apenas com finos pingos de chuva - "a frescura das gotas úmidas". E amanhã será um novo dia, amanhã será mais um 26 de dezembro, e todos os votos de ontem serão esquecidos - junto com 1996, que baterá em minha porta somente ano que vem. Até lá!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Atíria

Na horta das horas eu apenas espero.


Ensaio os traços de uma mulher melhor e a folha continua em branco. Justo agora recordo que a primeira palavra que aprendi a escrever foi “borboleta” (depois de "pai", "mãe" e "Camila" – é, meu segundo nome é esse ai, bem melhor que o primeiro, mas enfim). Não sei se exatamente por isso, sei apenas que desde criança tenho certo fascínio por borboletas. E são borboletas azuis que zelam pelo meu sono. Mas quem vive de fábulas? Atírias não são reais, por isso durmo só, ao relento!


Se minhas lembranças não ardessem como brasa e tampouco minhas palavras fossem espinhos, certamente eu chegaria a uma conclusão plausível dos passos que dei até aqui, sem sentir cansaço ou asco. E enquanto estou aqui esperando o tempo passar, o vento traz diante de mim a clareza, no colo de uma folha verde que rola lentamente pelo chão do verão, até tocar meus pés. No verde da folha está gravado com letras de forma: preciso de você, Deus. Tremo. Nesse instante inicio uma série de suplicas e confissões para o invisível:


“Firo, mas juro, não é proposital. Sou cruel, incrédula, mas sei amar, você sabe que eu sei. Mas se mesmo amando continuo ferindo, é porque preciso de você. Preciso que você volte a morar em mim, como quando eu era criança, mesmo que seja apenas para permitir que eu durma em paz. Mas para tê-lo como inquilino preciso ter fé, não é? Se a morada da fé é a esperança, então eu devo ter uma faísca de fé pulsando no meu peito, pois não sou desesperançosa. Agora, exausta, sentada diante de mim, não quero mais o desenho de uma mulher melhor. Quero, apenas, deixar de sentir o sopro gelado da dor”.


Ainda aqui, na horta das horas, eu apenas espero.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nadando contra a corrente : PARTE III

Acorde para os novos acordes!
É muito gostoso ir num show de rock e ouvir as músicas dos seus ídolos da década de 60, 70 e 80, aqueles que estampam as paredes de quartos juvenis e capas de antigos vinis. Mas até que ponto esse resgate musical é bom? As vezes, esse preferência por covers atrapalha a aceitação do trabalho independente, que encontra pelo caminho o receio do público em receber o que é “novo”.


Leonardo e Giancarlo já subiram em palcos para tocar covers, mas viam que o público que cantava as músicas loucamente não aplaudia nem assoviava para eles, mas sim para as canções daquelas bandas que lhes serviram como referência.

Leonardo é guitarrista e até entrar na Le Socian, passou por outras duas bandas patobranquenses. E foi justamente da junção dos seus gostos musicais com as referências dos outros três integrantes da banda, que ele encontrou o prazer em tocar o rock independente. “O prazer de ser independente, de tocar no underground, é saber que quem está ali, está por que quer ouvir a SUA música”.

Juntamente com os companheiros da banda, Leonardo, assim como tantos músicos regionais, encontra dificuldade em conseguir reconhecimento na região. “A produção independente em si não traz sérias dificuldades. Mas como a cena autoral da região não é nada favorável, o músico tem que ter pulso firme e realmente saber o que quer, para investir sua grana na gravação de demos”. A Le Socian possui dois demos (em www.myspace.com/lesocian). O primeiro possui 11 músicas próprias, e ainda a versão “sociânica” de Hey Bulldog, dos Beatles, tocada de trás para frente. Recentemente a banda lançou o segundo demo que, segundo Leonardo, “está mais maduro, não tem mais tanta bagunça, tem mais responsabilidade, mais foco, temos um estúdio decente para ensaios - que nós mesmos fizemos”.


A banda existe há dois anos e possui Diego da Cruz no vocal e guitarra, Leonardo Fantinel na guitarra, João Faccio no vocal e baixo, e Christhian David na bateria. “Somos um quarteto formado por pessoas com estilos diferentes, uns mais ecléticos, outros nem tanto. Logo as influências vão de Tim Maia à Sepultura”. Quem for ao show da banda irá notar referências que mesclam entre Audislave, Led Zeppelin, Morphine, Nirvana, entre outros.


Giancarlo possui 14 discos gravados e cerca de 50 músicas de sua autoria disponíveis na internet (confira aqui: www.myspace.com/giancarlorufatto ). Gian é para quem gosta de Bob Dylan, de Ryan Adams, de Nick Drake, de Jeff Buckley, de Tom Waits, e por ai vai. Sua peculiaridade em descrever situações pitorescas do cotidiano, dá forma a belas canções, que vão do drama à sátira bem dosada.

O primeiro disco de Giancarlo, o “exagerado Lo-fi dreams” como ele mesmo o intitula, foi gravado em 2004. E Giancarlo o produziu sozinho, quando ainda morava em Coronel Vivida, cidade onde nasceu e visita nos feriados, se não sua mãe enfarta. Em 2007 começou a fase mais produtiva de Giancarlo, fase que ainda não cessou. “Eu vendi a guitarra, comprei um violão, uma gaita de boca e um manual chamado ‘Como ser Dylan em cinco passos’. Tarantino diz que costuma medir a qualidade de seus filmes através deste manual, eu apenas concordo e digo “ok”. Seguindo o manual da compulsão – digo Dylan – gravei uma dúzia de discos”.


Em 2009, o rapaz solitário em cima do palco ganhou companheiros, e sente o gosto do reconhecimento. Agora, Gian está ganhando os bares curitibanos com a Hotel Avenida, banda fruto de parcerias musicais realizadas entre Gian e Ivan Santos (da banda curitibana OAEOZ). Os dois trabalharam em algumas composições em 2008, e da sintonia e da vontade em divulgar as músicas feitas a quatro mãos, chamaram outros músicos curitibanos e montaram a Hotel Avenida, que, aliás está sendo bem recebida pela critica paranaense. “Experimente o google para ver que não estou mentindo, muito”, risos. A banda possui dois EPs, que podem ser baixados no endereço: www.myspace.com/hotelavenida

Nadando contra a corrente : PARTE II

A causa e o antídoto para a crise?
Os músicos independentes, atualmente, representam a maior parte da produção musical no Brasil. A música independente apresenta maior proximidade com publico, já que as músicas são disponibilizadas na internet na maioria das vezes gratuitamente e, principalmente, com uma freqüência maior de lançamentos. Essa facilidade de comunicação e difusão dos arquivos de música beneficiam o artista independente, tornando viável a existência das bandas que seguem esse gênero sem o suporte de marketing de uma grande gravadora.
A firmação da música independente, a escassez de novidades e a produção de material apelativo pelas gravadoras, possivelmente contribuíram para o avanço da crise existente no setor fonográfico mundial. No entanto, “o que está em crise não é a música em si, mas sim a indústria musical. E isso é ótimo para o artista independente”, salienta Leonardo.
E se a música independente é uma das causas da crise fonográfica, Noah acredita que ela pode ser, também, a solução para ela. “Talvez as gravadoras tornem-se grandes distribuidores de material (como de fato já é o modelo de negócio de algumas delas – a Tratore, por exemplo). Outra possibilidade parte do fato de que o CD cada vez mais se mostra obsoleto como suporte físico. Dessa forma talvez as gravadoras explorem outros produtos de bandas de destaque, como o mercado de vinil, material mais interessante e menos ‘commoditizado’ que o CD e que tem experimentado um certo aquecimento nos últimos tempos é um exemplo.”
Leonardo parte do mesmo pressuposto que Noah, e aposta, ainda, no download pago. “A pirataria sempre vai existir, mas a tendência é se acabar com os CDs. Tenho bons motivos para crer que o download pago vai se transformar, em pouco tempo, na forma mais eficiente de se ganhar dinheiro com música”.

Marketing ou pirataria
“O que hoje é marketing, amanhã é pirataria”, a frase foi dita por Leonardo, ao se referir à uma realidade: não existe um mercado estabelecido de arquivos de música no Brasil. Com isso, os trabalhos independentes são veiculados e acessados sem nenhum tipo de controle, o que, muitas vezes é intitulado como pirataria. Existem algumas iniciativas de empresas e sites para mudar essa realidade, mas para Noah, nenhuma dessas iniciativas são realmente representativas. “Creio que enquanto não alcançarmos um modelo de loja virtual viável a pirataria ainda será um problema. No caso da música independente, geralmente os músicos encaram os arquivos disponibilizados na internet como a verdadeira fonte de recursos para suas bandas, pois é a divulgação das suas músicas, uma ponte para tornarem-se conhecidos e realizarem shows”.
O músico Giancarlo diz que todo disco independente é meio disco pirata. Para ele, a pirataria também auxilia na divulgação do seu trabalho: “eu adoraria passar numa banquinha e ver um disco meu pirateado, me pouparia trabalho, saca? Nos anos 90 era assim que as bandas testavam sua popularidade”. E ele ainda satiriza: “a crise fonográfica existe para artista popular, não para caras como eu”.

Nadando contra a corrente : PARTE I

Olá pessoal! Nas minhas próximas postagens falarei sobre a música independente. Nesta matéria, que será dividida em três partes, tive o auxílio de três pares de olhos atentos (e ouvidos aguçados), cujos donos possuem uma característica em comum: saciaram a sede por novidades quando descobriram a maneira independente de fazer música. Sendo assim, eu, Noah Mera, juntamente com os músicos Giancarlo Ruffato e Leonardo Fantinel, a partir de agora contaremos um pouco sobre essa forma de fazer música que está mudando a cena musical no Brasil – e, modestamente, na região Sudoeste do Paraná. Ok, a matéria pode ser retroativa para alguns, pois já foi postada no site patobranco.net, mas como diz minha sabia consciência: "Jozi, se for para pecar, que seja pelo excesso e não pela falta!".

Nadando contra a corrente
Músicos independentes mudam a maneira de fazer e ouvir música no Brasil


Eles compõem as letras e melodias. Antes de gravarem as músicas, compram dúzias de CDs virgens e o papel para imprimir o encarte desenhado por eles. As músicas são gravadas no estúdio que antes era o quarto de hóspedes e hoje com isolamento acústico feito com caixas de ovos, hospeda guitarras, baterias, cabos, amplificadores, microfones, etc. Para vender os CDs divulgam o trabalho em sites, blogs e no “boca a boca”, tudo isso unido à criatividade e disposição na hora dos shows. Quem são eles? Eles são os músicos independentes, músicos que não estão ligados a nenhuma gravadora, que passam longe do gosto massificado e que, através de seus acordes, estão mudando a cena musical do Brasil.

As produções independentes são anteriores ao punk, mas foi no gênero que essa forma de fazer música se intensificou – no desejo de romper a cultura dominante nos Estados Unidos, na década de 1970. Há exceções, mas o punk tradicional caracteriza-se pelo uso de poucos acordes, o que auxiliou na disseminação de uma das filosofias do gênero musical, a do “faça você mesmo” (do it yourself). E o que isso interferiu na música independente? Essa filosofia punk incentivou o surgimento da música independente, pois prevê que qualquer um pode se tornar um músico, compositor ou cantor e, porque não, produzir seu próprio álbum sem o dedo das gravadoras.

Em 2004, Giancarlo Ruffato gravou sozinho o seu primeiro disco. Desde então, já foram muitas as músicas compostas e os corações partidos. O músico que nasceu em Coronel Viviva e que há quatro anos mora em Curitiba, atualmente possui uma banda independente, e usa assiduamente das possibilidades ofertadas pelas internet para divulgar o seu trabalho. “Aprender a lidar com a internet é meio como tatear no escuro, uma hora você tem de acertar alguma coisa mesmo que isso signifique rachar sua cabeça. Blogs, boca a boca, vale tudo! Mas uma boa sacada ajuda a ganhar uns pontos e encurta o caminho entre você e o público”, revela.

No ritmo verde e amarelo

As grandes gravadoras atingiram o público no Brasil a partir dos anos 1950, quando a Bossa Nova trouxe a poesia musicada para a casa dos brasileiros – principalmente através da televisão. Em seguida, na década de 1960, os Festivais de Musica Popular Brasileira revelaram grandes compositores e intérpretes nacionais, dando espaço às chamadas “canções de protesto” – que refletiam o momento político e social que o país passava na época. A televisão ajudou consideravelmente para que a MPB se tornasse o mainstream (massificada, aderida pela maioria da população) da época. Foi um período digno dos ideais de Policarpo Quaresma, em que a música brasileira passou por um processo de valorização, o que Oswald de Andrade talvez chamasse de “antropofagismo musical”.

As gravadoras se firmaram devido aos avanços técnicos, bem como pela expansão e massificação oportunizados pelos meios de comunicação, que contribuíram para solidificação de um monopólio da produção e da “preferência”, musical no país. “Acho que esse pessoal que dita as tendências acabou criando tantos rótulos e, ao mesmo tempo padronizando a música em geral, que os ouvidos das pessoas já estão começando a saturar. É aquela velha história, se você passa muito tempo fazendo determinada coisa, ou você vicia, ou você enjoa”, frisa o musico Leonardo Fantinel, 20 anos, que há pouco mais de um ano atua na cena independente de Pato Branco e junto com a sua banda enfrenta os desafios de romper velhos paradigmas.

Assim como aconteceu com a Bossa Nova e com a MPB, para a difusão de qualquer tendência, seja artística ou comportamental, os meios de comunicação exercem significativa influencia, pois são a ponte que media os produtos ao público e dita o maistrein. “A maioria esmagadora das pessoas já se deixou levar pela indústria musical”, reforça Leonardo. Contudo, nem todo mundo gosta “do que todo mundo gosta”. “No final de 1999, senti a necessidade de novidades musicais fora da grande mídia, já que a música mainstream do final dessa época não me agradava, então descobri a música independente”. Relembra Noah Mera, sócio de uma livraria da cidade e, como revela Gian que é seu amigo “é um ótimo consultor musical”.

Noah divide o consumidor em duas nuances: a apreciador e o passivo. Para ele, “o apreciador de música, este é curioso, que procura música de qualidade e que o surpreenda. Este encontra na música indie uma maneira de satisfazer esta necessidade. A postura mais passiva, do consumidor ocasional que não importa-se com a qualidade da música, um mero pretexto ou complemento em ocasiões sociais – este é o alvo das grandes gravadoras”.

O gênero independente despontou no Brasil na década de 1980, um pouco antes de Noah descobri-lo, e teve o seguinte cenário: músicos clamavam pela renovação da música brasileira, insatisfeitos com a produção em série de canções apelativas, produzida para o pronto consumo. E o protesto se deu em forma de canções. Era o início de uma nova tendência na hora de fazer música, trazida até a costa por aqueles que decidiram nadar contra a corrente.